Kirsty Hughes/Unsplash
Foto
Kirsty Hughes/Unsplash

Megafone

A cozinha vai morrer?

A verdade é que, como millennial, entendo que cozinhar se torna um prazer e, por isso, espero que pelo menos algumas casas, a minha e mais algumas, mantenham a cozinha como divisão porque me fará falta.

A geração dos millennials — que compreende os indivíduos nascidos entre 1980 e 2000 — está, aos poucos, a introduzir mudanças profundas nas nossas sociedades modernas.

São exemplos disso a forma como estabelecem relações no foro afectivo, o impulsionamento da economia da partilha, a preferência que dão ao turismo de experiências e, por fim, a redefinição da gastronomia.

É curioso que todas estas transformações escondem como vector o mesmo rosto ou, se preferirem, o mesmo culpado: um smartphone ou um tablet carregadinho de aplicações.

Aplicações estas que satisfazem todas as necessidades de vida de um bom millennial desde que acorda até que se deita, sempre com aquela pulseira ou relógio no pulso, não vá o sono dessa noite ser mais ou menos tumultuoso, para, no dia seguinte, haver a justificação no trabalho de que o cansaço se deve a x horas de sono leve, ao invés de profundo, ou então para chatearmos o nosso companheiro ou a nossa companheira porque não nos deixou dormir as horas que achamos que deveríamos...

Os smartphones transformaram-se em autênticos chefs de cozinha. Uma pesquisa do Google mostrou que 60% dos millennials leva os smartphones para a cozinha, ao contrário dos indivíduos acima dos 36 anos que preferem utilizar receitas impressas.

O mesmo estudo também refere que mais de 70% dos millennials não sabe preparar uma omelete ou um simples ovo cozido. É paradigmático. Parece que quanto mais a vida mima e dá múltiplas ferramentas ao ser humano mais ele as desperdiça.

Não seria lógico esta geração utilizar a grande ferramenta que é o smartphone, bem como a facilidade não só para provar os sabores de outras culturas como também para os adquirir, para preparar pratos incríveis — não apenas aqueles pratos healthy da moda cujas cores normalmente ficam giríssimas no Instagram — e, para cúmulo, até temos o robot de cozinha para nos ajudar a fazer sucesso nestas vidas para inglês ver, ao invés de "comer"...

Segundo a Business Insider e o relatório do banco de investimentos UBS (Is Kitchen dead?), o crescimento das apps de entrega de comida está a fazer com que esta geração obsecada pelo Uber Eats e demais aplicações de entrega de comida cozinhe cada vez menos, acrescentando que, num futuro não muito longínquo, vai ser mais barato encomendar uma refeição pronta ao invés de cozinhar com a ajuda de drones de entrega.

Este cenário mostra-nos um problema para os supermercados e para todos nós que adoramos aquela secção dos produtos frescos, bem como para o sector imobiliário que já tem algumas empresas a ponderar construir apartamentos sem cozinha.

Demonstra também um problema de saúde pública ainda mais grave do que aquele que já enfrentamos recentemente com a obesidade. Os estudos epidemiológicos já podem ligar as suas antenas porque o risco relativo de desenvolver uma doença cardiovascular coloca-se em subida exponencial com esta realidade.

A verdade é que como millennial — logo, parte de todos os que pertencemos à geração foodie — entendo que cozinhar se torna um prazer e, por isso, espero que pelo menos algumas casas, a minha e mais algumas, mantenham a cozinha como divisão porque me fará falta.

Também é verdade que, por vezes, dá jeito recorrer a take aways ou a estas entregas. Mas tudo com peso, conta e medida.

É certo que cozinhar não é um prazer imediato e talvez por isso os millennials fujam dele — e ainda por cima é um  prazer que leva tempo e dedicação. Pelo meio descobre-se uma paixão e novos sabores que nos beijam a boca pela sua textura ora doce ora salgada, ora picante ora nem sabemos como lhe chamar, como se estivéssemos em constantes provas cegas.

Sim, porque na cozinha é bom cozinhar e provar. Provar muitas vezes durante o processo até o prato ficar pronto.

Certo dia, uma daquelas pessoas com aquela personalidade irritante da agulha sempre pronta a espicaçar o outro e a fazer julgamentos vazios perguntou-me se eu era daquelas pessoas que gostava de cozinhar e ir provando ou se só comia no fim. Sou claramente das que vai provando, não por pressa ou insatisfação mas porque muitas vezes a viagem é mais importante do que o resultado final. É esta descoberta que nos faz aprender e mesmo que o resultado final não seja o esperado, a certeza é que o tempo nunca foi perdido.

E a verdade é que é o tempo e a forma como o gerimos se tem tornado preponderante em todas estas mudanças. Não tenhamos pressa para nada, inclusivamente para comer, porque senão o nada alastra-se a tudo nas nossas vidas.