Opinião

E se Sousa Tavares lesse antes de escrever?

MST não leu o estudo da OCDE nem se informou sobre o tema, como é habitual sempre que escreve sobre Educação.

No passado sábado tornei-me um professor afortunado pelo destino e por certo invejado por milhares de colegas, pois tive o mérito duvidoso de ser o único professor em exercício a ser nomeado de forma directa por Miguel Sousa Tavares (MST) numa das longas crónicas em que expõe o seu azedume em relação aos professores.

Eu sei que MST também costuma nomear Mário Nogueira, mas ele é principalmente sindicalista, pelo que acho injusto o paralelismo que é feito, designando-nos como “sacerdotes” da causa dos professores. E nada como resolver já a questão recorrendo a uma fonte insuspeita, o site noticioso Abril/Abril ligado ao PCP que me caracterizou da seguinte forma: “Paulo Guinote (...) tentou desmobilizar os professores da manifestação nacional, em entrevista ao Diário de Notícias.” Acho profundamente injusto para o líder da Fenprof que me coloquem ao seu nível. A ser sacerdote, sou-o da desmobilização, a fazer fé nos camaradas de Mário Nogueira.

Mas o que causou a irritação de MST para com este simples professor? Pelo que escreveu, foi uma passagem de um artigo no PÚBLICO de dia 18 de Junho, no qual comentava um estudo da OCDE sobre a crescente incapacidade da Educação funcionar como factor determinante para a mobilidade social. A passagem que eu escrevi “com todo o desplante do mundo” é a seguinte: “não é o aumento da escolarização dos indivíduos que, por si só, cria empregos com melhores condições em termos de remuneração e carreira. A relação entre Educação e Economia não é, desde o início da sociedade industrial, de sentido único.”

A partir de algo que é razoavelmente consensual entre quem conhece estes temas, MST continua interrogando os seus leitores se “Leram bem? Está aqui tudo: um manual de instruções, dito por quem sabe e é escutado por milhares de professores, a preconizar a inutilidade da Educação. Devíamos ouvi-lo também com atenção e meditar no que ele diz. Talvez seja altura de rever tudo”.

A par de um conselho interessante que muito agradeço – as pessoas deveriam ouvir-me sobre estes temas e meditar no que digo –, MST baralha-se um pouco e confunde diversas coisas. MST não leu o estudo da OCDE nem se informou sobre o tema, como é habitual sempre que escreve sobre Educação. Se o tivesse lido, constataria os seguintes factos:

  • O estudo não é sobre Portugal, muito menos “prova que a aposta na Educação em Portugal falhou”, pois essa é uma inferência feita por analistas que extrapolaram conclusões do estudo.
  • O estudo é sobre a forma como a pobreza condiciona a mobilidade social e impede a ascensão dos mais desfavorecidos, apesar da sua maior aposta na Educação. Escreve-se (p. 13) que “num certo número de países, há uma crescente percepção de que a mobilidade social através das gerações tem declinado e que, crescentemente, a fortuna e vantagens dos pais jogam um grande papel na vida de cada um. Há um crescente pessimismo acerca das possibilidades de melhorar a própria situação financeira ao longo do decurso da vida e essa tendência iniciou-se antes da crise financeira”.
  • A análise da OCDE não integra Portugal na generalidade das comparações, incluindo as do capítulo 5 sobre o efeito dos antecedentes parentais no desempenho das crianças. Uma análise na qual se afirma que “pais mais educados e mais ricos são mais capazes de ajudar os seus filhos a ter sucesso, independentemente das suas competências e capacidades” (p. 253), algo que seria facilmente compreensível por MST se tivesse tido a trabalheira de sequer aceder ao estudo.

O que escrevi é a explicação de algo conhecido, que a Educação deixou de ser uma garantia de mobilidade social ao ponto de Henry Levin e Carolyn Kelley já em 1994 questionarem se A Educação pode fazê-lo sozinha? e Alison Wolf em 2002 se A Educação Interessa?. Em Portugal, muitos jovens qualificados foram obrigados a emigrar porque a Economia não consegue absorver mão-de-obra altamente qualificada. Como em outros países de desenvolvimento falhado, há um fenómeno de “sobre-qualificação” académica que trava o papel tradicional da Educação como “elevador social”. Não enunciei a descoberta da pólvora seca nem da alheira vegetariana.

Poderia incluir aqui mais referências de estudos e autores que trabalharam este tema (com destaque para Raymond Boudon, L’Inegalité des chances), mas seria inútil, pois MST parece ter orgulho na falta de fundamentação das suas posições em algumas matérias e revela uma preguiça enorme em querer informar-se de forma actualizada. Poderia, contudo, seguir o seu próprio conselho: ler-me (e não só) e meditar. Com esforço, talvez aprendesse alguma coisa.