Infecções hospitalares por bactérias multirresistentes matam três doentes por dia

"Estamos a tratar muitas situações de infecção com antibióticos antigos que tínhamos deixado de usar porque são tóxicos, imprevisíveis no seu efeito e na sua acção", diz especialista.

Pia, banheiro
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Jose Fernandes

As infecções hospitalares por bactérias multirresistentes causam três mortes por dia em Portugal, ou mais de 1100 por ano, estimou nesta terça-feira um especialista, salientando que este problema deve preocupar todos, dos profissionais aos utentes.

"Números que já temos de estudos europeus e números que estão para sair nos próximos meses apontam para que, provavelmente, em Portugal, mais ou menos três pessoas por dia possam falecer por infecções por micro-organismos por bactérias multirresistentes, a nível hospitalar", afirmou o coordenador do grupo local do Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA) do centro hospitalar Barreiro-Montijo.

Paulo André Fernandes, que falava à agência Lusa à margem de um encontro com jornalistas sobre este tema, transmitiu preocupação já que o problema das bactérias resistentes aos antibióticos, nas suas principais facetas, "continua a agravar-se".

"Embora haja aspectos pontuais onde tenha havido evoluções positivas, há uma série de aspectos, nomeadamente os que têm a ver com as bactérias com resistências mais perigosas e resistentes a antibióticos de mais largo espectro, que continua a agravar-se", apontou o antigo director do PPCIRA.

A má utilização dos antibióticos, nomeadamente para situações em que não são necessários ou não são os mais indicados para a doença em causa, levou a que as bactérias fiquem mais resistentes, mais fortes, reduzindo as soluções eficazes para resolver estas infecções.

"Estamos a tratar muitas situações de infecção com antibióticos antigos que tínhamos deixado de usar porque são tóxicos, imprevisíveis no seu efeito e na sua acção", referiu Paulo André Fernandes.

No entanto, já existem "novos antibióticos menos tóxicos, mais previsíveis e mais eficazes e precisamos que sejam libertados [em Portugal], como já aconteceu em toda a Europa e em grande parte do mundo civilizado", acrescentou.

Para o especialista, justifica-se a preocupação por parte de todos os agentes da saúde e da sociedade em geral, ou seja, da tutela ao utente, passando pelos médicos e farmacêuticos.

Embora também afecte os pacientes que estão em casa, este problema incide no ambiente hospitalar com "particular gravidade", descreveu.

É nos hospitais que "estão os agentes mais resistentes e que provocam infecções mais graves, mas é um problema transversal, incide sobre o hospital como incide na comunidade, incide sobre os mais velhos como sobre as crianças, portanto é um problema que diz respeito à comunidade em geral", realçou o médico.

Grande parte das pessoas internadas nos hospitais têm doenças que diminuem a sua imunidade como é o caso dos doentes submetidos a quimioterapia ou a cirurgias muito agressivas, os internados em medicina intensiva ou os bebés 'grandes prematuros'.

Estas situações colocam os doentes internados no hospital "em situação de particular risco para estas infecções mais graves, [mas] não quer dizer que todos as contraiam", disse ainda Paulo André Fernandes.

O coordenador no PPCIRA do centro hospitalar Barreiro-Montijo referiu que os hospitais "têm alguns meios e o know-how, os conhecimentos, para controlar este tipo de problema, o que acontece é que esses meios em grande dos casos são insuficientes".

Recordou que a resistência aos antibióticos já é discutida a nível internacional pelos altos responsáveis políticos, encarado como um problema de saúde pública e económico.