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A Turquia a caminho da ditadura: das eleições às eleições

Há que retirar algumas lições destes resultados. Não sobre o que fazer na Turquia, mas sobre o que fazer em geral. Lições para quem quer mudar o mundo e a sociedade.

As eleições legislativas e presidenciais na Turquia acabaram. Tayyip Erdogan ganhou a presidência e o seu partido AKP conseguiu quase metade do Parlamento. Como registado e documentado pelas Vozes Alternativas da Turquia durante as eleições, houve centenas de casos de fraude. Mas o essencial é que no dia seguinte todos os candidatos aceitaram os resultados declarados. E aí os resultados tornaram-se os resultados, porque ninguém os contrariou. E agora, qual é o balanço para nós, defensores da democracia e justiça?

O que nós conseguimos:

Em eleições durante um declarado estado de emergência e com o seu líder (e candidato presidencial) em prisão por razão nenhuma, o partido progressista e pró-curdo HDP conseguiu manter-se no Parlamento.

Os comícios do candidato do partido republicano CHP mobilizaram um total de 10 milhões pessoas em três cidades durante a última semana de campanha eleitoral e obteve 15 milhões de votos.

A população turca montou uma administração eleitoral paralela à do Estado, assegurando os votos e contagens com um exército de 100 mil voluntários a trabalhar das cinco de manhã até à meia noite.

O que não conseguimos:

Uma comparação com as eleições anteriores mostra que não conseguimos persuadir novas pessoas. Os votos do CHP+HDP mantiveram-se estáveis nos últimos cinco anos.

Em particular, o HDP atingiu, em 2014, quatro milhões de votos com a viragem política à esquerda do seu líder, Selahattin Demirtas. Mas este valor não mudou nos últimos anos.

Os votos contra Tayyip também não aumentaram nos últimos três anos, o que é bastante preocupante para quem aprecia a democracia.

O que a ditadura conseguiu:

Com eleições antecipadas o AKP conseguiu conter a queda da sua base de apoio (o AKP teve 49% dos votos em 2015 contra apenas 42% agora) e ganhar mais quatro anos de Governo.

O AKP fez uma aliança eleitoral com o partido nacionalista e assim conseguiu manter-se em maioria no Parlamento.

O que a ditadura não conseguiu:

Alarmantemente para Tayyip, o seu partido está a perder apoio popular. Para passar leis, ele terá de depender do partido nacionalista MHP (não que este faça qualquer tipo de resistência).

Em 2015, os recém-aliados AKP+MHP ganharam 64% dos deputados, agora têm apenas 57%, que é o que o AKP teve sozinho nas eleições anteriores.

Destes factos é preciso tirar algumas lições. Não sobre o que fazer na Turquia, mas sobre o que fazer em geral. Lições para quem quer mudar o mundo e a sociedade.

Regra número um. Nunca deixar a iniciativa ao inimigo.

Toda a vida política de Tayyip pode resumir-se ao sucesso na aplicação desta regra. Tomar sempre a iniciativa certa no momento certo: iniciar uma guerra civil contra os curdos, declarar estado de emergência e repetir eleições perdidas (2015); antecipar o desaparecimento do partido nacionalista, engolir este partido e antecipar eleições (2018); prender líderes políticos sem acusação, apagar as organizações deles, depois libertá-los sem acusação (2007-2016); invadir a Síria e ganhar os votos nacionalistas (2017); etc., etc. Nos últimos 16 anos, foi sempre ele que determinou o que a sociedade deveria discutir, em que termos e com que opções.

Regra número dois. Nunca deixar a iniciativa ao inimigo.

Regra número três. Nunca deixar a iniciativa ao inimigo. (Não darei medalhas a mais nenhuma regra.)

Regra número quatro. Para além da mobilização de massas, é essencial ter o consentimento da maioria da população. Sem este apoio, não é possível ganhar. (Com o CHP a mobilizar 10 milhões e o HDP ainda mais milhões no Curdistão, nem sequer se conseguiu pôr Tayyip em minoria.) A tarefa de Selahattin Demirtas em 2017, quando disse que deveríamos ir porta a porta explicar o nosso projeto, falhou. Falhámos.

Logo, regra número cinco: fazer política baseada em ciência e em factos.

A oposição turca nunca fez uma sondagem realista. Não preparou os seus militantes para expandirem a sua base de apoio a novas pessoas. Nem os quadros do CHP sabiam quantas pessoas os apoiavam. (O CHP esperava 58% de votos para a oposição, em vez dos 45% obtidos.) Nos meus sete anos em Portugal, nunca falei com nenhum activista que soubesse, de facto, quantas pessoas estiveram numa manifestação. Números subestimados pela polícia e pela comunicação social podem servir para suprimir movimentos sociais, e os organizadores podem usar diferentes táticas para contrariar isto; mas não sabendo os números certos, não podemos avaliar o progresso dos nossos movimentos.

A oposição cometeu outro erro científico: a sua forma de comunicação. A Turquia é um país dividido e polarizado. Atacar a ditadura de Tayyip ou o islamismo do AKP não persuade os apoiantes dos mesmos. É essencial mostrar factos relevantes a estas pessoas. Laicidade, democracia e sustentabilidade são assuntos que nos tocam, mas para os quais já estamos convencidos e mobilizados. Para ganhar, é preciso persuadir o outro pólo, com argumentos compatíveis com os valores deles (por exemplo, análises económicas).

Finalmente, falar de estupidez não ajuda. O AKP tem milhares de dirigentes e apoiantes que são simplesmente cães de Tayyip (ele próprio os trata como tal). Estas pessoas não são convencíveis (o efeito do tiro pela culatra). E atacar esta minoria não ajuda converter os outros.

Sim, Trump é terrível e cada vez mais revoltante. Mas ridicularizá-lo não ajuda a obter mais apoio popular para o ensino da Evolução nas escolas ou políticas climáticas fundamentadas na ciência. Não falo em converter negacionistas do clima, mas seria bom ter um discurso capaz de pelo menos convencer pessoas em dúvida. Há mil formas de explicar que, para nos mantermos num mundo minimamente habitável, não pode haver nenhuma nova infraestrutura de combustíveis fósseis.

O movimento pró-democracia na Turquia é um exemplo de cujos erros e sucessos podemos tirar lições: desde o enorme sucesso do HDP em resistir à opressão estatal sem precedentes até ao sucesso do AKP em evitar perda do poder político, passando pelos erros acima mencionados.

Não é só na Turquia que os defensores do planeta e da justiça estão ainda na minoria. Para ganhar, há que aprender muito.