Proprietários de O Almoço do Trolha travaram classificação para evitar burocracias

Rui Brito garante que se a família um dia quisesse vender a obra de Júlio Pomar daria sempre preferência a uma instituição pública portuguesa.

,
Foto
O Almoço do Trolha no leilão de 2015 pe pedro elias - colaborador

Rui Brito, filho do coleccionador Manuel de Brito (1928-2005), fundador da Galeria 111, disse ao PÚBLICO que a decisão de não autorizar a classificação da pintura O Almoço do Trolha, de Júlio Pomar, não se ficou a dever a qualquer intenção de vender a obra para o estrangeiro, mas apenas ao desejo de evitar as “burocracias” que o estatuto implicaria. “A classificação até pode reforçar a importância da pintura, mas esta fica sujeita a peritagens e relatórios, e se, por exemplo, a quiser mudar de sítio, tenho de pedir autorização”, exemplifica.

O próprio pintor, que foi amigo de Manuel de Brito e um dos artistas mais representados na sua colecção, sentiu-se tranquilizado quando soube a que mãos fora parar O Almoço do Trolha, garante Rui Brito. “Almoçámos com Júlio Pomar e ele ficou felicíssimo por saber que a obra ficava nesta colecção”, conta o director da Galeria 111, assegurando que se a família viesse a ponderar vender a pintura, "daria sempre preferência a uma instituição pública portuguesa".  

A aquisição da pintura – cuja proprietária formal é a mãe de Rui Brito, Maria Arlete Alves da Silva – obedeceu também a uma motivação pessoal. “Ter O Almoço do Trolha na sua colecção era um sonho antigo do meu pai”, diz Rui Brito, acrescentando que Manuel de Brito aparece mesmo num documentário sobre Pomar a lamentar-se de não possuir essa obra e a concluir com um resignado “não se pode ter tudo”.    

Durante muito tempo na colecção de Manuel Torres, O Almoço do Trolha foi vendido por 350 mil euros no dia 27 de Maio de 2015, num leilão promovido pela empresa Palácio do Correio Velho.

Se Júlio Pomar se terá sentido satisfeito ao saber quem eram os novos detentores do seu Almoço do Trolha, também é verdade que não só concordara com a abertura do processo de classificação, como manifestara, numa mensagem enviada à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) através do seu filho Alexandre Pomar, o seu "reconhecimento" por uma iniciativa que vinha “sublinhar oficialmente a importância patrimonial da obra em causa”.

A DGPC ainda não reagiu à posição assumida pelos proprietários, mas o próprio Rui Brito confessa que “não ficaria surpreendido” se o Estado viesse a tomar alguma iniciativa para tentar reverter este arquivamento. Um dos cenários poderia passar pela reabertura do processo a partir do zero, mas agora em circunstâncias diferentes, já que a morte de Júlio Pomar, em Maio passado, dispensaria o Estado de obter a autorização dos proprietários, obrigação que a lei só impõe quando se trate de bens móveis de autores vivos.