Crítica

Os miúdos podem ficar em casa

The Incredibles 2 é a primeira sequela da Pixar que faz sentido para lá da exigência de mercado.

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O ideal é ver a versão legendada para desfrutar da perfeição dos actores
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O ideal é ver a versão legendada para desfrutar da perfeição dos actores
Os Incríveis, Elastigirl, Holly Hunter, Violet Parr, Mr. Incrível
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Os Incríveis, Sr. Incrível, Parr Violeta, Jack-Jack Parr, Samuel L. Jackson, O Underminer, Pixar
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Incríveis 2, The Underminer, Pixar
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Jack-Jack Parr, YouTube, Trailer
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Temos consciência que The Incredibles 2 é uma fita de desenhos animados - mas resumi-la “apenas” a desenhos animados é redutor e simplista. (Mesmo que o marketing pareça querer apontar o filme a uma faixa etária demasiado jovem para o que o veterano animador Brad Bird e a sua equipa fizeram.) É a primeira sequela da Pixar que faz sentido enquanto filme autónomo, e não se limita a ser uma exigência de mercado. É um filme do momento #MeToo, onde são as mulheres que “mandam” na acção e os homens ficam em casa a tratar da loiça, da roupa, dos miúdos. É uma gentil mas firme lição de moralidade a uma América refugiada numa imagem de medo do outro (como os primeiros X-Men de Bryan Singer), com uma personagem a dizer que “os políticos não percebem que há pessoas que são boas só porque é a coisa certa a ser”. Mesmo sabendo que uma longa de animação leva 3-4 anos a fazer, e que o primeiro Incredibles é de 2004, é quase assustador como The Incredibles 2 surge no momento certo, no momento justo. De modo mais interessante, é também um filme de super-heróis que é anti-super-poderes, porque o heroísmo não é coisa visível – tanto pode ser salvar uma embaixadora como ajudar o filho a resolver a matemática do liceu. O vilão de serviço avança às tantas que não podemos ficar à espera de ajuda que pode nunca chegar, nem esperar que os outros nos resolvam os problemas, e que a existência de super-heróis é apenas pretexto para as pessoas se desresponsabilizarem da sua vida. É um argumento ambíguo, mas entronca no que Bird já fizera no seu anterior filme, o falhado mas curioso Tomorrowland, ao falar da dificuldade do ser humano de projectar esperança no futuro e de preferir ficar no sofá a ver TV. Tendo em conta que os super-heróis correspondem a uma percentagem significativa da produção de Hollywood, e que a casa-mãe Disney é o principal fornecedor de entretenimento de super-heróis através da Marvel, é como se Bird estivesse a mordiscar a mão que lhe dá de comer.

O mais espantoso, no entanto, é que Bird mete tudo isto, sem pensar duas vezes, pelo meio de uma comédia familiar certeira sobre as dificuldades da paternidade e de um pastiche retro de James Bond visualmente deslumbrante (com a música de Michael Giacchino a sublinhar as proezas de animação). Há muita coisa a acontecer, talvez coisas a mais, mas a energia e o humor e a cabeça com que tudo está feito não deixam o espectador defraudado. O ideal é ir ver a fita na versão legendada para desfrutar da perfeição dos actores (Holly Hunter inconfundível, Craig T. Nelson, Samuel L. Jackson). Os miúdos é que até podem ficar em casa.