Opinião

E quem nos devolve mais de mil horas de vida?

O problema é que não é o populismo futebolístico que justifica a cobertura mediática. É ao contrário: a incessante cobertura mediática é que gera também o populismo futebolístico.

No dia em que foi invadido o centro de treinos do Sporting dezenas de pessoas tinham sido mortas na Faixa de Gaza. Espera, vamos voltar atrás. Esta frase está ao contrário. Naqueles dias em que dezenas de pessoas foram mortas na Faixa de Gaza, o centro de treinos do Sporting foi invadido por um bando de agressores organizados que atacaram os jogadores do clube.

Notícia rara e importante, sem dúvida. Notícia que transcendia em larga medida os âmbitos do noticiário desportivo, se é que esse conceito ainda faz sentido e que não vivemos já numa fantasia mediática em que tudo é noticiário desportivo e é o resto da realidade a precisar de um secção pequenina lá para o fim dos telejornais.

Seja como for, o ponto é este: desde esse dia até agora mais de mil horas de noticiário nas televisões e rádios foram dedicadas aos acontecimentos ligados à direção do Sporting (os dados são de uma empresa que recolhe dados para media e empresas, a Cision, e davam 911 horas de Sporting/Bruno de Carvalho até 18 de junho; com a aproximação da Assembleia Geral do clube que destituiu o agora ex-presidente a contagem deve ter ultrapassado largamente as mil horas). Não só Portugal estava a falar de futebol quando o resto do mundo estava a falar de Israel e da Palestina, como Portugal estava a falar de Bruno de Carvalho muito mais do que de futebol propriamente dito. O Aves ganhou a Taça de Portugal e ninguém lhe ligou. O FC Porto ganhou o campeonato e teve direito a cerca de um terço do noticiário que teve o Sporting. Só a participação de Portugal no Campeonato do Mundo de Futebol deu finalmente alguma luta.

Alguns poderão dizer que esta recente explosão de populismo futebolístico merecia não só destaque noticioso como até esta espécie de monocultura mediática em que vivemos. O problema é que não é o populismo futebolístico que justifica a cobertura mediática. É ao contrário: a incessante cobertura mediática é que gera também o populismo futebolístico. Bruno de Carvalho dava “boa televisão” no sentido em que dava audiências. E audiências dão dinheiro, num panorama televisivo apinhado de canais e grupos de comunicação que já viram melhores dias em termos de viabilidade financeira. Na ausência de auto-regulação, entra-se numa espiral de desespero: se o canal vizinho mostrou ontem meia hora da conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, nós vamos mostrar uma hora; se um opositor a Bruno de Carvalho estava num canal, a Bruno de Carvalho era fácil estar em todos os canais na mesma noite. E por aí afora, até ao dia em que até um candidato de extrema-direita à presidência da Juve Leo já conseguia cobertura a todas as horas em certos canais de televisão por cabo.

A seguir chegam os argumentos da relevância social do futebol e dos clubes em particular, que ninguém nega, para se justificar este género de saturação de todo o espaço televisivo (e radiofónico) disponível. Ora, uma coisa é relevância do futebol e dos clubes, outra coisa é a relevância das guerras internas dos clubes. Anteontem foram votar às eleições do Sporting cerca de 15 mil pessoas; um pouco menos de dez mil terão destituído Bruno de Carvalho. Mesmo neste tempo de decadência da indústria livreira, ainda há muitos autores que vendem tantos livros (sem que as televisões falem deles) quanto Bruno de Carvalho teve de pessoas a votar nele.

Mas poder-me-ão dizer, finalmente, que isto é assim em todo o lado e que mais vale acomodarmo-nos. Não é verdade. Há noutros países clubes importantes que foram à falência, se extinguiram ou baixaram de divisão sem que isso merecesse da parte das televisões esta espécie de waterboarding noticioso a que fomos sujeitos. Na Itália, que está longe de ser bom o exemplo, o caso da Juventus ou o da Fiorentina não tiveram direito a uma cobertura sequer perto do que agora aconteceu em Portugal com o Sporting.

E quanto à pergunta com que começámos esta crónica? A resposta é que ninguém nos vai devolver as mais de mil horas de vida e de espaço público que perdemos para este caso. Resta-nos, como prémio de consolação, aprender com elas. Tal como alguns comentadores compreenderam finalmente, com o populismo e tribalismo clubístico, os perigos do populismo e tribalismo político que menorizaram antes, pode ser que aprendamos todos que a saturação do espaço público tem consequências. E que não podemos continuar como até aqui: ou há auto-regulação ou deve haver uma ação da Entidade Reguladora da Comunicação Social que ajude a garantir um mínimo de relevância e diversidade nos conteúdos da nossa esfera pública televisiva.