Camarada, apresento-te o cupido

A Liga da Juventude Comunista, que Xi Jinping remeteu para um plano secundário, quer casar os jovens chineses. A política de filho único criou uma disparidade grande entre o número de homens e mulheres.

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Casamento, vestido de casamento, casamento
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Recém-casados tiram fotos em Pequim ROMAN PILIPEY/EPA
Xi Jinping, China
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Cai Jun no encontro de solteiros THE WASHINGTON POST

Cai Jun foi à festa de encontros amorosos organizada com o apoio do governo. Chegou cedo, de fato e sapatos engraxados, parecendo a versão chinesa da personagem Manny na série Modern Family. Escolheu um lugar na fila da frente. Ajustou os óculos. Manteve os olhos no telefone.

Quatro horas depois do início de “Amor em Hangzhou”, quando grande parte da multidão já tinha saído e o pessoal do som já embalava o material, Cai mal tinha conseguido falar com uma rapariga, quanto mais conseguido um número de telefone. Por isso, fez o que ninguém esperava que fizesse: saltou para cima do palco para cantar uma canção de amor.

“Estou à espera de um barco que ainda não chegou”, cantou.

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Cai Jun, à esquerda, e Cao Bin, mexem nos seus telemóveis, no encontro de solteiros em Hangzhou Emily Rauhala/The Washington Post

A Juventude Comunista quer ser esse barco. Ou quer trazer o barco, de preferência com uma esposa lá dentro. O que não quer é que Cai, ou as dezenas de milhares de pessoas na situação dele, fiquem solteiros.

Durante a maior parte da história chinesa, encontrar uma pessoa com quem Cai cassasse foi um projecto familiar. Apesar de Mao Tsetung ter proibido os casamentos arranjados nos anos 1950, estes perduraram a par dos casamentos organizados entre os operários das fábricas até aos anos 1980, quando a economia e o mercado dos casamentos começaram a mudar.

Quarenta anos depois da transformação económica da China, os jovens têm mais formas de namorar e de encontrar par do que nunca — uma regra que, porém, não se aplica a todos uma vez que os casamentos entre pessoas do mesmo sexo são proibidos. Mas os líderes chineses não gostam especialmente desta liberdade de escolha. No ano passado, decidiram que era preciso criar algumas regras.

Graças à política de filho único e à preferência por filhos do sexo masculino, a China tem mais homens do que mulheres. O número de homens solteiros entre os 35 e os 59 anos vai chegar aos 15 milhões em 2020, segundo as estimativas oficiais.

Preocupado com a possibilidade de o desequilíbrio entre o número de homens e mulheres provocar instabilidade, o Partido Comunista Chinês tentou primeiro envergonhar as mulheres solteiras — rotulou-as de “sobras e comparou-as a pérolas amarelecidas. Agora decidiu intervir de forma mais robusta: tornou-se casamenteiro.

Aulas de namoro

Em Zhejiang, uma província próspera do Sul da China, cerca de cem mil pessoas frequentaram as festas de encontros organizadas pela Liga da Juventude Comunista, segundo os dados da organização. E assim, numa tarde de domingo, algumas centenas de solteiros juntaram-se numa praia artificial junto às montanhas nos arredores de Hangzhou, e Cai tentou aproveitar o momento — e o microfone.

“Não podemos arranjar namorada se ficarmos sentados em casa”, disse. O homem responsável pelos encontros de solteiros em Hangzhou é Wang Huiqiu, de 35 anos, quadro do departamento de propaganda da Liga da Juventude Comunista. Na Primavera da semana passada, a cúpula da Liga anunciou que, a partir daquele momento, ia combater “o problema do casamento”, ajudando os jovens a ter “a atitude correcta” para encontrarem esposa.

Desde então, Wang, que é casado, passou as suas semanas a organizar estes encontros para solteiros e os fim-de-semana a supervisioná-los, uma missão que desempenha com zelo marxista.Wang considera que a sua função de juntar pessoas é natural numa organização de massas. As aplicações de encontros são populares, mas poucas têm o alcance da Liga da Juventude Comunista, que tem dezenas de milhares de membros, explica.

Diz aos jovens para serem cépticos em relação às aplicações onde abundam os esquemas e os preços são elevados. “Esta comercialização pode ser problemática”.

Apesar de Wang nunca o dizer, a outrora muito poderosa Liga da Juventude foi como que posta de lado pelo Presidente Xi Jinping. Esta função casamenteira pode ser uma forma de se manter relevante — ao mesmo tempo que serve o partido, claro.

Wang di-lo em termos económicos: “A procura do amor e do casamento não é flexível”. Acrescenta: “E claro, se os encontrares através da Liga da Juventude Comunista ficas a sentir-se naturalmente próximo de nós”.

Para alimentar essa proximidade, a delegação de Zhejiang criou uma “plataforma de interesse público para encontros” que reflecte o “socialismo de características chinesas”.

Depois de se inscreverem e de serem aprovados pelo departamento de segurança pública local, os membros podem navegar por milhares de perfis.

Também podem ler anúncios de pessoas à procura de uma relação ou ter “lição sobre relações românticas”, uma cortesia da Liga da Juventude Comunista. A lição — é mesmo no singular — diz que devemos casar o mais cedo que seja “humanamente possível”.

Elas devem ser sustentadas

Os homens são aconselhados a sustentar a casa, as mulheres são aconselhadas a encontrar, e cedo, quem as sustente. “Se ele estiver disposto a gastar dinheiro com a mulher que ama, é o homem certo para casar”, diz um dos conselhos.

Apesar de serem os homens jovens que correm o risco de ficar solteiros para sempre, o foco da campanha é a mudança na atitude das mulheres.

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As mulheres são encorajadas a procurar quem as sustente, eles a ter trabalho para sustentar uma família Jason Lee/REUTERS

Quando ia ponderando formas de fazer com que as camaradas casem antes de se tornarem — como ele diz — “exigentes”.

As mulheres querem “três coisas: educação superior, salários elevados e homens altos”, diz, mas não são fáceis de encontrar. “À medida que as mulheres ficam mais velhas e que a sua posição social sobe, querem homens melhores”, acrescenta. “Se a Liga da Juventude Comunista puder ajudar as mulheres quando são mais jovens, é mais fácil para elas. O mais cedo possível, idealmente aos 25 anos”.

Quando Wang chega ao local dos encontros, a multidão estava sentada em mesas longas voltadas para um grande palco. Os participantes verificavam as suas mensagens e tiravam selfies enquanto pelos microfones se ouvia Katy Perry, que recentemente foi impedida de entrar na China.Sentado na fila da frente, ao lado de Cai, estava um homem de 25 anos, Cao Bin, e uma mulher de 29, Zha Wei.

Cao foi ao encontro porque era co-patrocinado pela sua estação de rádio favorita; não parecia estar muito preocupado em encontrar uma mulher. Uma lesão recente, feira a jogar basquetebol, levou-o a pensar que era bom ter uma namorada. “Quero alguém que tome conta de mim”, disse.

Passou o dia a ensaiar frases: “Porque não me olhas nos olhos”, perguntou a uma rapariga. “É porque sou muito bonito?”

Quando ela o ignorou, perguntou-lhe: “O que foi, sou muito directo, é?”

Sentada no lugar do lado, Zha estava a levar as coisas mais a sério.

Zha não tem grande confiança na Liga da Juventude — “São profissionais nisto dos encontros? Não, não são” —, mas foi para maximizar as possibilidades de encontrar um homem.

Aos 29 anos, considera que já tem “um problema de idade” e está sob grande pressão para encontrar marido e ter filhos. “Quero que a minha família veja que me estou a esforçar, que estou a participar nestes eventos para encontrar pessoas, eles têm que saber que eu estou mesmo a tentar”.

O problema é que em eventos como estes, aquilo de que se orgulha, por exemplo o seu mestrado em Economia e a sua experiência de vida no estrangeiro, prejudicam-na, não a ajudam. “Todos os homens querem mulheres-rapariguinhas”.

Cai, o cantor, não contesta que as mulheres são mais pressionadas. “Os homens não envelhecem tão depressa como as mulheres”, diz, como se fosse um facto científico.

Gosta que estas reuniões da Liga da Juventude seja um pólo de atracção para jovens executivos, mas explica que a carreira não é a primeira coisa que “vê” numa mulher. Para ele, o que conta é “a ternura”.

No final, o Hangzhou Love uma reunião de encontros às cegas como são em qualquer parte do mundo — o que é estranho. As frases de engate de Cao Bin foram um fracasso. Zha Wei não conseguiu um par. E o acto de coragem de Cai — karaoke de surpresa — não foi recompensado nem com um número de telefone nem com o verdadeiro amor.

Ainda assim, Cai estava optimista quando questionado sobre o futuro. Ficou poético e falou em corações entrelaçados e começou a recitar um poema de amor da dinastia Tang: “Não tenho asas para voar contigo/ O nosso coração entrelaça-se/ Quando ouves o meu chamamento interior”?

Ainda está solteiro.

Com Shirley Feng ?Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post