O fabuloso destino de Ali, o último obstáculo de Portugal

Guarda-redes do Irão desafiou as probabilidades para chegar ao topo. E a família também.

Alireza Beiranvand, Diego Costa, Copa do Mundo de 2018, seleção nacional de futebol da Espanha, seleção nacional de futebol do Irã, Espanha
Foto
LUSA/JULIO MUNOZ

A 12 de Agosto de 2003, quando Cristiano Ronaldo assinou pelo Manchester United, Alireza Beiranvand ainda não tinha completado 11 anos. Nascido em Sarab-e Yas e filho mais velho de uma família de nómadas, o pequeno Ali vagueava pela remota e árida província iraniana do Lorestão, bem próxima da problemática fronteira com o Iraque. O seu dia-a-dia, era procurar pasto para o rebanho de cabras, o sustento da família. Mas Ali tinha um sonho. Por isso, um ano mais tarde, perante a objecção do seu pai em permitir que seguisse a carreira de futebolista, Ali fugiu. Com dinheiro emprestado por um familiar, apanhou um autocarro para a capital, Teerão, onde começou por dormir na rua. Catorze anos depois, Ali foi considerado um dos 15 melhores guarda-redes do Mundo pela FIFA. Hoje, em Saransk, será o último obstáculo de Portugal.

Os últimos números oficiais são de 2006 e revelam que nesse ano Sarab-e Yas tinha 1155 habitantes, e 232 famílias. Uma delas era a Beiranvand, mas Ali não entrou nesse recenseamento. Por essa altura, já estava em Teerão, uma metrópole com cerca de dez milhões de habitantes, a quase 400 km de distância, para onde fugiu para cumprir um desejo que, por vontade do pai, nunca se concretizaria em Sarab-e Yas.

Em 2004, quando Cristiano Ronaldo já pisava os grandes palcos internacionais com a camisola do Manchester United e da selecção portuguesa, Ali aventurou-se numa equipa de Sarab-e Yas. Começou como avançado, provavelmente inspirado por Ali Daei, ponta-de-lança que jogou no Bayern Munique no final dos anos 90 e marcou mais de 100 golos pelo Irão, mas numa história tão comum a guarda-redes, a lesão de um colega de equipa empurrou-o para a baliza. Afinal, era o mais alto. Uma defesa mais vistosa, convenceu-o a permanecer aí. Mas a Morteza Beiranvand não. Para o chefe da família, que não gostava de futebol, o filho mais velho deveria seguir um trabalho convencional. Com apenas 12 anos, Ali fez frente à oposição paternal e, sozinho, partiu para Teerão, onde dormiu na rua, nas redondezas da imponente Torre Azadi, um dos principais monumentos da capital do Irão.

Para ganhar dinheiro, varreu ruas, trabalhou num atelier de costura, lavou carros e entregou pizzas. Após conhecer um treinador dos escalões de formação do Naft FC, começou a treinar no clube. Acabou dispensado por se lesionar quando jogava por outra equipa. Tentou a sua sorte no Homa FC, outra equipa de Teerão, mas a experiência correu mal. Não conseguiu assinar contrato. Até que a telefone tocou com oportunidade com que sonhava. Do outro lado da linha, estava o seu antigo treinador no Naft FC. Perguntou-lhe se tinha assinado por outro clube. Ali estava livre. 

Hoje, oito anos depois, o número 1 do Irão, que não sofreu qualquer golo nos 12 jogos de qualificação para o Mundial 2018, será o último obstáculo de Portugal. Quem com ele tem trabalhado na Rússia confidencia ao PÚBLICO que é “um tipo sempre bem disposto” e “muito simpático, sempre a meter-se com toda gente”. “É uma pessoa humilde, que se dá e se relaciona da mesma forma com todos. É muito activo nas redes sociais, sempre num registo positivo e de gratidão, por tudo o que passou.” E tudo o que Ali Beiranvand passou podia estar escrito num qualquer romance saído da imaginação de Dostoiévski, Gogol, Tchékhov ou Tolstói.