Uma caverna de luz e sombra para contar o tempo

A arquitecta mexicana Frida Escobedo é a autora do pavilhão da Serpentine Gallery deste Verão, em Londres. É apenas a segunda mulher a ser convidado para o efeito, e a mais jovem de todos.

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Aos 38 anos, Frida Escobedo chega ao palco mediático da Serpentine Gallery NEIL HALL/EPA

Passados 18 anos sobre a iniciativa inaugurada, em 2000, pela arquitecta britânica-iraquiana Zaha Hadid (1950-2016), o projecto do pavilhão de Verão da Serpentine Gallery, em Londres, voltou a ser atribuído a uma mulher. A contemplada foi a mexicana Frida Escobedo (n. Cidade do México, 1979), que assim se tornou também no arquitecto mais jovem a assumir o desafio de desenhar um pavilhão efémero para animar, durante cerca de quatro meses, este lugar já incontornável na agenda estival dos jardins de Kensington.

O pavilhão de Escobedo abriu ao público já no passado fim-de-semana, convidando os visitantes a entrarem num pátio de luz e sombra, que, entre o relvado e as árvores, vai coando a luz solar e registando, como se de um relógio natural se tratasse, a própria evolução das horas e do dia.

“Para o pavilhão, incorporámos luz e sombra, reflexão e refracção, transformando o edifício numa espécie de relógio que marca a passagem do tempo”, disse a arquitecta na apresentação do seu projecto aos jornalistas, alguns dias antes da inauguração.

O director da Serpentine Gallery, Hans Ulrich Obrist — citado pelo site ArchDailly —, descreveu mesmo o projecto como “um relógio vivo no parque, alimentado pela luz e pela linha do Meridiano Zero [de Greenwich]”.

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Frida Escobedo desenhou uma estrutura formada por um grande rectângulo aberto num dos vértices para a entrada dos visitantes, que são recebidos por um espelho de água, que por sua vez reflecte as imagens de outro espelho instalado em parte da cobertura. O pavilhão é construído por uma malha de telhas de cimento, que funcionam como uma espécie de gelosia permeável, típica da arquitectura tradicional mexicana.

“O meu projecto é um encontro de inspirações materiais e históricas inseparáveis da própria cidade de Londres” — uma referência às telhas escuras caractrerísticas da cidade — “e de uma ideia que tem sido central para a nossa prática desde o início: a expressão do tempo na arquitectura através do uso inventivo de materiais quotidianos e formas simples”, acrescentou a arquitecta.

Entrando no pavilhão, o visitante como que acede a uma caverna banhada por reflexos de luz e sombra, que se multiplicam no contacto com uma piscina rasa de água — a proporcionar as mais curiosas reacções e espantos do público.

Aos 38 anos, Frida Escobedo chega agora ao palco mediático da Serpentine Gallery — “Quando recebi um email dizendo ‘Serpentine Gallery: Convite’, pensei que se tratava de um pedido para me associar a uma mailing list, recordou a arquitecta — na sequência de uma carreira em crescente afirmação internacional. “Tem havido aqui tantas belas invenções de arquitectos famosos, que é muito difícil apresentar ideias novas”, desculpou-se Escobedo, citada pelo jornal The Guardian.

Mas a verdade é que a arquitecta mexicana, formada entre a Universidade Ibero-Americana da Cidade do México e a Graduate School of Design da universidade americana de Harvard, tem já o seu nome inscrito no palmarés da sua disciplina em diferentes partes do mundo. Depois de criar o seu próprio atelier em 2003, no seu país, viu-se distinguida pela Associação de Arquitectura de Nova Iorque com o prémio Young Architect Forum, teve projectos representados nas bienais de Veneza de 2012 e de 2014, assinou uma instalação para o Victoria & Albert Museum de Londres e criou também um “palco cívico” para a Praça da Figueira, a convite da Trienal de Lisboa de 2013.