No cerco, a sardinha não se agrupa por quotas

Não sendo contra a preservação de stocks nem contra a fixação de limites na pesca da sardinha, os responsáveis do Camacinhos, traineira com quem seguimos viagem para acompanhar uma madrugada do cerco, defendem mais flexibilidade na aplicação dos métodos de controlo de forma a equilibrar uma actividade imprevisível que, apesar de um ano de bom peixe, não está a conseguir rentabilizar o esforço de um trabalho extenuante.

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Nelson Garrido
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São duas da manhã a aproximadamente 10 milhas da costa entre Ovar e a Torreira. Passam três horas desde que o Camacinhos desatracou de Leixões, em semana de São João, rumo ao sul.  O proprietário e o mestre da traineira, Francisco e Ricardo Pereira, pai e filho de quatro gerações de pescadores de Matosinhos, debatem para chegar a um consenso.

As outras embarcações que saíram do mesmo cais seguiram todas na mesma direcção e também pararam por ali. O sonar e a sonda indicam que podem estar por cima de um cardume de sardinha. Parecem estar reunidas todas as condições e por isso chegam a acordo.

Apostam as fichas todas naquela zona. Se a aposta for ganha dá para encher os 166 cabazes diários permitidos pela quota fixada para este ano – 3735 quilos por embarcação -, e voltam a terra mais cedo do que noutros dias. Se não correr como o esperado há que seguir para outra zona, talvez para norte, para voltar a procurar um peixe que é tão “imprevisível” como são os dias da safra.

Acreditam que não será o caso. Poderá ser um dos melhores dias do ano. “Só se correr muito mal, mas parece-me que há aqui tanto peixe que até vai sobrar”, arrisca Francisco, que aos 62 anos colecciona 40 anos de mar. Tradicionalmente a pesca da sardinha recorre à arte do cerco. Após lançada a rede cerca-se o peixe numa espécie de saco. É impossível de seleccionar a quantidade que fica lá dentro. Soltá-lo novamente implica que parte do cercado que volta ao mar já possa estar morto. Será a melhor solução deixá-lo lá ficar? Certo é que não se pode trazer mais do que o limite estabelecido, daí dizer-se que pode sobrar. Já lá vamos.

Dia longo de trabalho que pode ultrapassar 12 horas

Para os pescadores, no Cais dos Arrastões de Leixões, o dia de trabalho começa à noite. Pouco antes das 22h, vão-se juntando às embarcações para as quais trabalham. Na mão, todos eles trazem um balde. Servirá para de manhã o encherem com a “caldeirada”. Tradicionalmente, cada um leva para casa uma parte para consumo próprio.

Junto ao Camacinhos já está a tripulação toda. Monta-se o barco de apoio na ré para às 23h se seguir viagem. A essa hora, dentro da cabine de comandos está o proprietário e o filho, que aos 35 anos é um dos mestres mais novos de Matosinhos. Numa das janelas posiciona-se Américo, 56 anos, no ofício de toda a vida desde os 13. Antes de “andar à sardinha” trabalhou no “arrasto” do bacalhau, no norte da Europa. Virado para a proa, faz o primeiro turno num dos pontos de vigia da embarcação. Os olhos têm de estar sempre postos no mar.

Na noite anterior seguiu-se para norte, para Caminha. A rede lançou-se tarde. Chegaram já perto do meio-dia a Matosinhos com apenas 55 cabazes. Desta vez, os responsáveis pela embarcação decidem tentar a sorte mais a sul. Enquanto parte da tripulação vai descansando nos pisos inferiores, espreita-se o plotter para seguir nas cartas náuticas electrónicas os movimentos dos outros barcos que saíram de Leixões – cerca de 30. Francisco Pereira recorda-se de noutros tempos existir uma centena só naquele cais. Hoje diz não haver no país inteiro mais do que 70 traineiras. “A maior parte está em Matosinhos”, afirma.

Uma corrida contra o tempo

Segue-se na pegada das outras embarcações a cem litros de gasóleo por hora – 0,56 euros o litro. Não se paga imposto, mas se não se pescar aquele investimento passa a despesa.

O mar naquela noite está calmo, mas não é por isso que a ondulação não dificulta a tarefa de manter o equilíbrio. “Isso é para quem não está habituado. Hoje até tiveram sorte”, diz-nos a voz da experiência, que tem corpo que parece ter os pés colados no piso.

A caminho ouve-se apenas o motor e a ondulação do mar. Dali, à esquerda, ainda se vê a iluminação da costa. Do outro lado são vários os pontos luminosos que se avistam, projectados pelas luzes de presença das outras traineiras. Lançadas na mesma direcção seguem em balanço de corrida.

Das possibilidades que existem, vão todos para o mesmo sítio porquê? “O sistema de quotas instituído quase que nos obriga a que assim seja”, afirma o mestre, sublinhando que é a favor das mesmas, mas não do método usado para a sua aplicação.

“Temos um limite estabelecido para o ano e para o dia. Esse limite anual quando é atingido acabou a pesca para todos, Não interessa se uns pescaram muito e outros menos. Isso causa ansiedade a quem está a trabalhar porque temos de garantir os objectivos antes que essa janela de oportunidade se feche”, explica. Daí estarem em constante observação das movimentações dos outros barcos.

Uma luta contra o mar

Ao fim de três horas de viagem há sinais de que outras embarcações estão fixadas numa zona específica. Altera-se a rota para esse ponto. Os aparelhos tecnológicos de apoio confirmam a possibilidade de existir ali peixe. Decidido que é ali que se vai lançar a rede, do ambiente quase sonolento que se vivia até àquele momento passa-se para os antípodas. Dispara-se o sinal sonoro e toda a tripulação passa para a parte exterior da embarcação e aparentemente instala-se o caos que para quem passa por ele diariamente estará mais do que controlado.

O barco de apoio descai para o mar com dois homens e prepara-se o lançamento da rede enquanto se manobra constantemente a traineira a favor do posicionamento correcto. As instruções vão sendo berradas por Francisco num vocabulário perceptível apenas aos homens da arte. Só conseguimos identificar os nomes. Está lá o Zé, o Manel, o António e o resto dos colegas.

Já com a rede lançada, vai-se cercando a sardinha. Naquele momento luta-se contra o mar com a traineira em constante oscilação, enquanto a tripulação se equilibra nos limites da embarcação. Tudo parece acontecer a alta velocidade, mas até o mestre içar as primeiras sardinhas com a grua passam quase duas horas. Enchem-se as arcas com o peixe e gelo. A quota não permite que se leve mais, embora não seja possível durante aquele processo de esforço hercúleo e de uma concentração extenuante ter a certeza exacta do peso total de sardinha capturada.

A sardinha em excesso que chegar ao cais tem um destino que não representa lucro para a embarcação. A venda desse peixe reverterá para um fundo de solidariedade social. Porém, os valores do peso em excesso capturado entram para a contabilidade da quota permitida. Se essa sardinha for vendida com lucro para a embarcação são aplicadas multas. Os pescadores também não a podem levar para casa, além do tradicional balde, que nas últimas semanas tem sido, de acordo com os pescadores, alvo da atenção da Unidade de Controlo Costeiro da GNR, que terá apreendido algum desse peixe e nalguns casos autuado alguns profissionais, o que na semana passada motivou um protesto que levou os pescadores de Matosinhos a encerrar a lota.

Mais tarde esta secção da GNR disse ai PÚBLICO que apenas “exerce a sua acção de fiscalização e controlo, em conformidade com a legislação em vigor”.

É possível repartir esse peixe em excesso com outras embarcações que num determinado dia de trabalho não tenha atingido os limites? “Não é”, diz-nos Ricardo, que admite que há quem o faço e que é “essa solidariedade” que tem “aguentado” alguns barcos. Ilegal também é devolver o peixe ao mar. Considera o mestre que “crime é deixar passar uma oportunidade de trazer mais peixe” e ter de abrir a rede porque não se pode trazer mais. “Algum já não sobrevive”, adverte.

Pai e filho não são contra as quotas. “É um facto que é necessário renovar os stocks e apoiamos que não se vá ao mar na altura da desova”, defende o mestre. Este ano, desde Maio a Outubro, os limites estipulados pelo Ministério do Mar estão fixados em 14.600 toneladas entre Portugal e Espanha – cá pode-se pescar até 9.709 toneladas (66,7%) e no país vizinho 4.891 toneladas (33,3%). Os limites anuais de capturas de sardinha desceram entre 2011 (53.616 toneladas) e 2015 (13.387), tendo subido ligeiramente em 2016 (13.698) e 2017 (14.694).

Distribuição de quota mais equilibrada

Porém, discordam do método aplicado. “Quem definiu as regras não conhece a prática do trabalho no mar”, continua. O mais conveniente e mais “acertado” acredita ser seguir a via da divisão da quota por embarcações e não de forma geral para o total de barcos do país inteiro. “Dentro da época da safra cada barco tinha direito a X toneladas. Quando as atingisse parava. E assim não ia buscar a parte que deveria pertencer a outra embarcação”, afirma.

Defendem ainda que desta forma a preservação dos stocks continuaria a não ser posta em causa e não seria necessário estipular um limite diário. “Assim estamos a pescar às pinguinhas e não nos dá hipótese de mexer com as margens de lucro. A verdade é que é impossível prever qual a quantidade que vem na rede. E se podemos trazer mais quantidades porque é que temos de deixar passar essa oportunidade? Podíamos também desta forma planear o trabalho sem o stress que existe agora e sem nos atropelarmos uns aos outros”, apoia Francisco.

Mais cedo do que noutros dias, às 7h o Camacinhos encostava ao cais. Naquele dia havia motivo para celebrar. Chegou-se a terra com as arcas cheias, mas nem sempre é assim. Os baldes, naquele dia, também não foram vazios.   

Melhor sardinha mas mais barata

Por esta altura, noutros anos, os santos populares sempre representaram uma oportunidade para tirar melhores margens do resultado do trabalho. Se os cabazes, cada um com 22,5 quilos, já se venderam a 100 euros e por vezes até por um preço mais elevado, este ano, “com sardinha melhor” o cabaz está a ser vendido na lota por 20/30 euros para chegar aos restaurantes a cerca de 10 euros a dose, composta normalmente por seis sardinhas.

Há 42 anos a trabalhar no mar, José Folha, 57 anos, diz que nunca passou por um período profissional tão mau como agora. Desde que voltou ao mar, no final de Maio, o melhor ordenado que teve numa semana foi quando somou 80 euros. “O quinhão ainda é o que nos vai safando”. Os primeiros 50 quilos de venda (quinhão) são distribuídos pela tripulação.

Francisco Pereira diz que nunca viu os lucros diminuírem tanto como nos últimos anos. “Esta unidade já facturou um milhão de euros brutos por ano. Hoje anda nos 300/400 mil euros”.

O filho diz que essa descida também se deve à mudança de hábitos de consumo: “Muita da sardinha que chega por terra vem de Marrocos e do País Basco, que não têm de cumprir cotas. As pessoas estão a habituar-se ao congelado que nada tem a ver com a sardinha viva. Deixaram de depender de nós”. Porém acredita que esta altura menos boa será apenas uma fase. “Se não acreditasse que assim é já não estava no mar”, finaliza.