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La Valetta, a capital-fortaleza, é agora uma não-porta

Ninguém lhe consegue tirar o traje de gala. Está nos seus genes, cultiva-se no seu modo de vida. Barroca a fazer-se smart (e Capital Europeia da Cultura 2018), é a anfitriã perfeita de um país em miniatura, que corporiza uma ideia de mare nostrum — uma encruzilhada cultural, um camaleão do Mediterrâneo.
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A cozinha é ultramoderna, o edifício antigo — condizem com a conversa puxada pela “mesa”. No início, nem é “mesa”, se queremos ser rigorosos. É uma ilha gigantesca com 12 “estações” de cozinha, chamemos-lhe assim. Estamos na Mediterranean Culinary Academy (MCA), a manhã aproxima-se do final, vamos preparar o nosso almoço — e, no processo, aprender um pouco sobre a história de La Valetta e de Malta. A ementa é quase inevitável num workshop de comida maltesa: o prato principal é peixe. “O mar vê-se de qualquer ponto da ilha”, sublinha Keith Abela, um dos anfitriões-formadores. Aliás, continua, é um elemento constante em toda a sua história, “desde os templos megalíticos com peixes esculpidos às salinas que foram durante séculos um motor da economia e um modo de preservar a comida”. No século XXI faz-se uma escala de viabilidade, cortesia da organização não-governamental maltesa Fish4Tomorrow, que assumiu como missão criar uma cultura de consumo sustentável de peixe — à nossa frente dispõe-se um sargo. “Apesar de qualquer um o poder pescar, e apenas a um metro da costa, os números não estão a baixar”, afirma Keith, cujo avô tinha um restaurante — de peixe.

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É por ele que começamos, escalando-o. Haverá de esperar até ir para a frigideira. Entretanto, preparamos a salada de chicória, espargos e manjerona e preparámos as batatas — um dos ícones da cozinha maltesa (onde o prato nacional é coelho), cortadas finas com casca, assadas com funcho, coentro, alecrim, sal e azeite, devem ficar estaladiças por fora e tenras por dentro. São “sabores rústicos”, nota Michael Camilleri, outro dos anfitriões.

Estamos no rés-do-chão de um prédio de La Valetta resvés com a fortaleza — quantos não são assim nesta cidade-colmeia, encapsulada em muralhas? É a sede do estúdio de arquitectura Architecture Project (AP) desde 1991. De então para cá, La Valetta mudou muito. “Desde a nova porta [a obra de Renzo Piano, onde já iremos], a dinâmica transformou-se. Houve um período de declínio e agora está mais residencial e criativa”, explica Erica Giusta. A criatividade também passa pela AP, firma que trabalhou com Renzo Piano, projectou o elevador panorâmico nas muralhas e está a impulsionar um novo cluster a partir deste edifício. Foi como membro desse cluster que há seis meses se instalou aqui a MCA; o vizinho do lado é o FabLab (espaço de manufactura digital, com um irmão em Lisboa); e, do outro lado da rua estreita, o antigo restaurante The Lantern prepara-se para abrir com novo projecto. Novos projectos parecem abundantes em La Valetta, onde uma Smart City já faz parte de alguns roteiros, e o Design Cluster, no antigo matadouro, tem direito a integrar o programa de La Valetta Capital Europeia da Cultura (CEC) 2018. Será um dos seus legados, sendo que o porta-estandarte é o novo Museu Nacional de Belas Artes. A inauguração estava prevista para Maio, foi adiada para Novembro: os trabalhos prosseguem no antigo Albergue de Itália. É uma espécie de paradigma (e paradoxo?) maltês: o futuro arrasta (quase) sempre o lastro do passado.

O país-camaleão

Depois de séculos a resistir a invasões vindas do mar, agora Malta deixa-se invadir alegremente — os cruzeiros pelo Mediterrâneo têm invariavelmente escala na ilha-país-arquipélago situada bem no seu centro. E na fortaleza de La Valetta a porta principal é agora, na verdade, uma não-porta — o arquitecto italiano Renzo Piano interpretou o novo espírito maltês e rasgou as muralhas. Estas já não isolam, unem, revelando a verdadeira vocação de Malta como ponto de encontro de culturas (quase) natural, contrariada ao longo dos tempos por diferentes pretensões bélicas.

Entre África (Tunísia e Líbia) e a Europa (a Sicília fica a 90 quilómetros), a posição estratégica de Malta foi sempre cobiçada. Fenícios, cartagineses, romanos, bizantinos, árabes, normandos, suábios, aragoneses, Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João (que deixaram a marca mais indelével), franceses, britânicos — Malta foi passando de mãos em mãos. Os otomanos tentaram conquistá-la sem sucesso (o Grande Cerco continua a ser lembrado como a maior proeza da história do território), assim como as potências do Eixo, durante a II Guerra Mundial. Não se passa incólume a tantas invasões e Malta chega ao século XXI como uma síntese histórica singular, uma espécie de herdeiro de uma certa ideia de mare nostrum. O seu idioma oficial, o maltês, mistura o árabe (de onde retira a gramática e tantos evidentes topónimos) e o italiano, com a “pimenta” do inglês; a gastronomia mescla influências do Norte de África com Itália para uma síntese mediterrânica exemplar. Tão exemplar que Malta é uma espécie de camaleão do Mediterrâneo — veja-se o que já foi no cinema: Egipto, Turquia, França, Grécia...

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Na fortaleza de La Valetta a porta principal é agora, na verdade, uma não-porta — o arquitecto Renzo Piano interpretou o novo espírito maltês e rasgou as muralhas Emanuelle Cremachi/Getty Images

E agora a porta-não-porta é ponto incontornável de La Valetta (o que significa de Malta, ilha e país em miniatura) — e vem em “pacote” com o novo parlamento e o novo auditório ao ar livre (ambos com assinatura do mesmo arquitecto): este último, presença quase fantasmagórica de colunas com princípio mas sem fim, erguido nas ruínas da antiga ópera, bombardeada durante a II Guerra Mundial; o parlamento, uma espécie de reinterpretação da história geológica destas paragens, abundantes de fundas falésias de calcário dourado de formas excêntricas. É feito deste calcário, o mesmo que constrói muros defensivos por toda a ilha, a rodear urbes, em fortes, em torres de vigia: a identidade de Malta é militar — e religiosa, daqueles tempos em que a fé era pretexto para dilatar impérios.

Dessa religiosidade temos um relance quando o avião começa a descer para o aeroporto: o que vemos é um emaranhado que parece ininterrupto de edifícios cor de areia (e lembra-nos o Norte de África), onde se destacam cúpulas e torres. E o mar parece que está sempre ao lado porque a verdade é que nunca estamos longe dele em Malta, ilha de pequeno e enganador tamanho. O trânsito consegue ser infernal — aqui, definitivamente, as distâncias medem-se em tempo, não em (escassos) quilómetros.

De volta a La Valetta, o melhor é falarmos em metros — afinal, temos uma península de mil metros de comprimento e 600 metros de largura. Deixem-se os carros à porta (e as barracas de comida do terminal de camionagem, em redor da Praça Tritão, com o seu odor intenso: são os imagaret, pastéis recheados de cogumelos fritos em azeite), que as velhas calçadas maltesas foram feitas para caminhar. Sem pressas, e sempre de olhos postos nos edifícios, percorrem-se praças acolhedoras invariavelmente com esplanadas, ruas estreitas, por vezes empinadas (que ainda assim exibem pequenas esplanadas em equilíbrio duvidoso) a parecerem escorregas para o mar — e quantas fotos proporcionam essas nesgas de azul. E tudo se cruza na quadrícula rigorosa de uma cidade criada de raiz no final do Renascimento, Património Mundial da UNESCO desde 1980, no país que tem mais monumentos por quilómetro quadrado do mundo (e outros dois sítios distinguidos pela UNESCO).

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Sean Gallup/Getty Images

O falcão maltês

Se na Rua (Triq) da República — a mais comercial de La Valetta, lojas com nomes ingleses, italianos, malteses e as habituais cadeias internacionais — e na sua órbita as multidões são constantes, outras ruas parecem adormecidas, como um faustoso teatro barroco (e pitadas maneiristas e neo-clássicas), composto de igrejas, conventos, albergues, palácios, estátuas (as de santos em esquinas dos edifícios ficam na retina), à espera de carruagens e cavaleiros que o cruzem.

Voltamos atrás nos séculos. Corre o ano de 1565, Malta é assediada pelo império otomano. O Grande Cerco é rechaçado a partir de Vittoriosa, mas permanece a convicção de que haverá um próximo: o grão-mestre da Ordem dos Hospitalários, Jean de la Valette, ordena a construção de uma nova cidade-baluarte para a defesa da ilha. De Vittoriosa até La Valetta apenas se atravessou o Grande Porto e amuralhou-se toda uma península. No seu interior, “uma cidade de cavalheiros para cavalheiros”. Se calhar, de cavaleiros para cavaleiros. A Ordem dos Cavaleiros Hospitalários havia-se instalado na ilha em 1530, depois de ter sido expulsa de Rodes (e antes de Chipre e Jerusalém). De exílio em exílio até ao acordo com o imperador Carlos V: ficariam em Malta, protegeriam a cristandade e pagariam um tributo anual — um falcão maltês (que no primeiro ano foi de ouro, mas apenas na literatura e cinema).

Não é difícil imaginar outro maltês, cuja lenda é feita de uma (in)substância distinta, Corto Maltese, a flanar pelas ruas da sua infância e a sonhar com ataques de impérios e corsários árabes e vitórias maltesas, tão presentes na toponímia. Na Praça da Vitória, o Albergue de Castela e Portugal, agora residência oficial do primeiro-ministro, ostenta a “fachada mais bonita de La Valetta” (a opinião é do insuspeito guia maltês, Martin Morano), obra do grão-mestre português Manuel Pinto da Fonseca. Quase diante, a primeira igreja (e o primeiro edifício) construída na cidade, a Nossa Senhora da Vitória, e, prosseguindo, o Albergue de Itália (parênteses para a explicação de Martin: a ordem estava dividida etno-linguisticamente e havia oito “línguas”, cada qual com o seu albergue como quartel). Em processo de transformação em museu, antes funcionou aqui a Autoridade do Turismo de Malta, que Martin conheceu bem, já que foi seu funcionário até à reforma — agora é guia turístico porque não consegue desligar-se completamente. “Assisti ao boom do turismo aqui. Começou em 2008, até aí os números eram estáveis. Além da promoção, chegaram as companhias low cost, determinantes.” Não há muitas décadas, lembra, o único hotel em La Valetta era o Phoenician, que continua a ser um marco de luxo e se destaca extramuralhas com a sua arquitectura colonial britânica. Actualmente, muitos palácios estão a reconverter-se em hotéis boutique.

A Co-Catedral de São João guarda vários segredos dentro de portas Horacio Villalobos/Corbis

Não o Pallazzo Parisio, o actual Ministério dos Negócios Estrangeiros, que tem história “pública”: Napoleão passou aqui sete noites em 1798, quando os franceses invadiram a ilha — só ficaram dois anos, o suficiente para terminar os 268 anos de domínio da ordem. Para os expulsar, os malteses pediram ajuda aos ingleses. Resultado? Saíram os franceses, entraram os ingleses — em 1964, Malta conseguiu a independência, em 1974 tornou-se república.

Caravaggio e a pegada portuguesa

É novamente à Rua da República que regressamos para visitar o segredo de polichinelo que é a Co-Catedral de São João. A simplicidade exterior, muros austeros, quase de fortaleza, é ilusória: no interior está a pérola, em forma de brocado dourado. Não haverá porção de superfície que não esteja decorado, seja por pintura ou incrustação. Mesmo o solo se apresenta como único: uma tapeçaria de lápides de mármore de cavaleiros da ordem. Não surpreende que sejam proibidos os saltos e que as mochilas, avisam-nos, tenham de ser levadas à frente — não se podem correr riscos de riscos. As capelas laterais, de cada uma das “línguas” da ordem, replicam a ostentação e na de Castela e Portugal o que é considerado o mais belo túmulo de Malta, o do grão-mestre português António Manuel de Vilhena. O mais precioso tesouro da catedral, contudo, está no oratório e tem a assinatura — literal, num dos casos, e, já por isso, única — de Caravaggio. A história da sua estadia em La Valetta é de capa e espada: chegou fugido da justiça romana, acusado da morte de um homem, e foi feito membro honorário da ordem na esperança de conseguir indulto. Teve, no entanto, que fugir também de Malta, novamente por “desembainhar” a espada, desta feita contra um cavaleiro. Nos 15 meses que permaneceu na ilha, o mestre do chiaroscuro pintou cinco obras, entre elas destacam-se A Decapitação de São João Baptista, o seu maior quadro e o único assinado (e veja-se a “luz” no centro, como se viesse do céu), e São Jerónimo a escrever.

É para a luz que saímos nos bastiões de La Valetta. O mais conhecido é o que alberga os jardins da Upper Barrakka. Comecemos, contudo, pelo Jardim Hastings para seguir um pouco o legado português em Malta. Parece negligenciado e está quase deserto (o que é uma vantagem inestimável), mas a vista para o Forte Manoel, na ilha homónima, é imbatível. É um dos muitos cenários que Malta emprestou à primeira temporada da série Guerra dos Tronos — e é uma obra “portuguesa”. Foi o grão-mestre António Manuel de Vilhena, o terceiro português a ocupar o cargo, que o construiu na ilha que ficou conhecida como Ilha Manoel.

O seu nome, grafado Manoel, faz parte do quotidiano de Malta pela obra que deixou — e terá sido mesmo um dos poucos governantes da ordem querido pela população, pelas suas preocupações (também) sociais. Construiu Floriana (também conhecida por “Città Vilhena”), a parte extramuralhas imediatamente junto à porta principal de La Valetta, para responder ao aumento da procura de habitação (muita gente a deixar o interior para trabalhar no sector naval), e o único moinho de vento ainda em actividade, Ta’Xarolla, para servir as necessidades crescentes de alimentação. O Teatro Manoel, o segundo teatro mais antigo da Europa ainda em funcionamento, também foi mandado edificar por ele e em Mdina o palácio dos grãos-mestres tem o seu cunho.

Depois de Vilhena, o último grão-mestre foi outro Manuel, o já referido Manuel Pinto da Fonseca — o seu busto está diante do Albergue de Castela e Portugal, o cais de La Valetta foi sua obra, Qormi já foi Città Pinto, o seu monumento funerário é atracção turística.

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Os jardins da Upper Barrakah Getty Images

Cottonera ou Três Cidades

Agora sim, o Jardim da Upper Barrakah, idealizado para uso exclusivo dos cavaleiros, e conseguimos imaginar a sensação de invencibilidade — e de tranquilidade nesta espécie de oásis em território sempre na linha da frente de combate (o canhão que teima em disparar ao meio-dia não o deixa esquecer — há tradições que ainda são tradição e os turistas apluadem). A vista é uma das mais icónicas de Malta: o Grande Porto (o mais profundo do Mediterrâneo, “a única razão por que tantas nações queriam conquista e ficar com Malta”, considera Martin Morano), as Três Cidades e a própria fortaleza de La Valetta.

Entramos no postal — e saímos do postal (para um território tão pequeno, Malta tem-nos de sobra). Agora, os jardins Gardjola são o miradouro, em território das Três Cidades, para La Valetta. Estamos em Senglea na penúltima paragem do nosso tour geek pelas Três Cidades. Não é à toa o anglicismo: vamos nos pequenos carros eléctricos, à laia de carro de golfe, da Rolling Geeks. “Escolhemos buggies eléctricos porque esta zona é muito antiga, cheia de velhas vielas onde não há outra maneira de passar”, explicam-nos.  Um buggy inteligente, tira fotos, fala (em vários idiomas, diz-nos o que estamos a ver e dá dicas de cafés, restaurantes, mercados) e tem um GPS com sistema localizador e botão de emergência. É um hop and off privativo que nós experimentamos também com uma guia, Anna Sant.

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A partida faz-se do histórico cais de Birgu, cidade mais conhecida pelo seu título, Vittoriosa, mesmo ao lado do Forte de São Ângelo. Entre subidas que parecem a ponto de levar a melhor sobre a nossa viatura, passamos um arco triunfal e estamos em Cospicua, a mais antiga das Três Cidades, ocupada desde o Neolítico. São as suas muralhas que a distinguem, construídas para  proteger Cottonera, e parte da fortaleza foi convertida em vivendas sociais. Senglea, “a ilha”, deixou de o ser quando a ordem construiu a ponte para Cospicua — de território de caça, fez-se cidade que haveria de servir de modelo a La Valetta.

Birgu e Senglea, duas espécies de penínsulas a mirarem-se através da marina, nesta costa recortada. Em dobras desta vemos gigantescos petroleiros — este é território de estaleiros, concentrados em Marsa, que foram um motor importante da economia maltesa. “Até 1970, a indústria naval era a mais importante de Malta”, sublinha a guia, “tinha 60 mil homens a trabalhar”. Há algum lamento na sua voz, rapidamente ultrapassado quando nos aponta o Forte de São Ângelo — e estamos no Jardim Gardjola: “Foi a primeira sede da ordem em Malta e o quartel-geral da frota britânica no Mediterrâneo. Reparem que há duas bandeiras a flutuar: a de Malta e a da ordem. Um cavaleiro ainda ali vive.”

Novamente em Vittoriosa deixamos o buggy e trepamos a colina no encalço do que havíamos entrevisto. As igrejas em pequenas praças ligadas por escadas até à (inclinada) Praça Vitória, as ruelas empedradas (e imaculadas) de portas e caixilharias coloridas, com os seus azulejos dedicados a vários santos, os seus olhos de Osíris (terão chegado com os fenícios), os vasos transbordantes de flores. O silêncio. E regressamos à água. O cais de Vittoriosa abandonou a vocação militar e governamental dos tempos da ordem e dos ingleses e reconverteu-se em zona de ócio e cultura. Restaurantes, museus com vista para os iates atracados na marina — mas são os tradicionais dghajsa que atraem mais a atenção. Os barcos, com um formato tipo gôndola, que chegaram a estas paragens também com os fenícios, continuam a transportar passageiros entre Birgu e La Valetta, ainda que agora auxiliados por motores. Afinal, já conhecemos Malta: estamos no meio do passado e sabemos que este é um prólogo.

A Fugas viajou a convite do grupo IHG e da Autoridade do Turismo de Malta