Exclusivo TVI no Meo levaria 15% dos clientes a mudar de operador

Autoridade da Concorrência quis medir os efeitos que a compra da Media Capital pela Altice tinha na mobilidade dos clientes de telecomunicações. Um estudo que foi fundamental para chumbar o negócio.

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Margarida Matos Rosa preside à Autoridade da Concorrência desde Novembro de 2016 Rui Gaudencio

A Autoridade da Concorrência (AdC) não chegou a emitir a sua decisão sobre a compra da Media Capital pela Altice (que entretanto desistiu do negócio), mas deixou claro que estava preparada para chumbar esta operação. Segundo a entidade reguladora, havia o risco de a Altice/Meo impedir o acesso ou cobrar preços mais altos à Nos, à Vodafone e à Nowo pelos conteúdos e canais da Media Capital, ou seja a TVI.

Quantificando esse custo acrescido para os operadores rivais da Meo em 100 milhões de euros, a AdC considerou (num comunicado divulgado na terça-feira) que a Altice “passaria a poder utilizar o negócio de televisão de forma instrumental” para reforçar os lucros com os pacotes de serviços de telecomunicações, “à custa dos consumidores”, que acabariam por pagar os custos acrescidos dos restantes operadores.

Entre os seus argumentos, a AdC destacou “a importância que os conteúdos e canais TVI têm para os consumidores”, explicando que esta relevância foi confirmada “por via de um inquérito ao consumidor”. Este estudo de mercado (realizado através de entrevistas telefónicas a clientes dos vários operadores, entre 30 de Abril e 29 de Maio) que o PÚBLICO consultou, destinou-se a aferir a probabilidade de os clientes mudarem de operador em cenários hipotéticos de exclusividade dos conteúdos televisivos e de alterações de preços, que seriam possíveis numa potencial guerra travada entre a Meo e a Nos, e em que as armas seriam a TVI e a SIC, respectivamente.

O estudo evidencia que não são apenas os conteúdos da TVI que são considerados diferenciadores pelos consumidores. Num contexto em que “quase metade dos lares elege a SIC como um dos cincos canais mais vistos (48,5%), seguido de perto pela TVI, com 46,4%”, o estudo concluiu que 15,4% da base conjunta de clientes da Nos, da Vodafone e da Nowo disse estar disposta (numa escala de zero a dez, em que zero é “não muda de certeza” e dez é “muda de certeza”) a trocar de operador se a TVI (generalista) deixasse de estar disponível na sua grelha de canais. No que toca aos clientes da Meo, 19,2% escolheram a opção “muda de certeza” se fosse a SIC a sair da sua grelha televisiva.

O inquérito conclui assim que “a perda da SIC apresenta um maior impacto na classificação máxima de probabilidade de mudar de operador declarada pela base de clientes da Meo do que a perda da TVI no mesmo indicador apurado na base conjunta de clientes Nos, Vodafone e Nowo”. No conjunto dos clientes da Nos, Vodafone e Nowo inquiridos, 42,8% garantiu não estar disposto a mudar se ficasse sem a TVI, enquanto 26,1% dos clientes da Meo referiu o mesmo em relação à SIC.

Em todo o caso, segundo a análise, quando se compara os clientes da Nos, Vodafone e Nowo que se mostraram disponíveis para, num prazo de seis meses trocar de operador, constata-se que a probabilidade aumenta quando se coloca na mesa uma hipotética perda da TVI. Mas a mesma tendência é válida para os clientes da Meo quando em causa está a perda da SIC. Em sentido inverso, entre os clientes da Meo a probabilidade de trocar de operador recua perante a possibilidade de ter a TVI em exclusivo.

O estudo realizado pela QMetrics para a AdC também concluiu que parte dos consumidores que admitiram a probabilidade de mudar de operador se lhes fosse vedado o acesso a qualquer um dos canais admitiu manter-se cliente da mesma empresa em troca de um incentivo, ou seja, se o seu operador lhe reduzisse o preço do pacote de serviços.

Cerca de 90% dos clientes da Nos, Vodafone e Nowo evidenciaram disponibilidade para se manter no mesmo fornecedor, mesmo perdendo a TVI, metade dos quais mediante eventuais descontos de 2,5 euros, cinco euros, 7,5 euros ou superiores a este valor, acabando a percentagem dos clientes que não estão dispostos “a ser ressarcidos pela perda do canal” nos 8,3%.

No caso dos clientes da Meo, cerca de 78% dos clientes mostrou-se receptiva a ficar cliente, a grande maioria mediante descontos, caso perdessem a SIC, sendo que 12,8% garantiram que trocariam de fornecedor de serviço se não pudessem ter acesso ao canal, independentemente dos incentivos.

Além de procurar medir a apetência dos clientes da Meo para mudarem de operador sabendo de antemão que esta empresa seria a única a ter os canais TVI na sua grelha, o estudo também procurou aferir o valor que atribuem a esse produto. O inquérito concluiu que há alguns clientes disponíveis a sofrer um agravamento de preços para manter a oferta televisiva da TVI. No caso específico da TVI generalista, se 73% dos inquiridos disse não aceitar qualquer aumento da mensalidade, pelo menos 12,6% disse-se disponível para aceitar um agravamento de 7,5 euros.