Para falar de vinho, é melhor o YouTube ou a crítica clássica?

O encontro internacional sobre vinho, Must, termina hoje, no Centro de Congressos do Estoril, a sua segunda edição, na qual se discutiu, entre muitos outros temas, a melhor forma de comunicar o vinho. Falámos com o crítico Michel Bettane, um representante da "escola francesa".

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Michel Bettane durante a sua conferência no Must dr
Terno, Relações Públicas
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Michel Bettane dr
Vinho, uva comum
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Robert Joseph dr

Como é que se deve falar de vinho a quem não está muito familiarizado com ele? Quinta-feira, o primeiro dia do Must – Fermenting Ideas, a “wine summit” cuja segunda edição termina esta sexta-feira no Centro de Congressos do Estoril, começou com o confronto de duas escolas de pensamento que, por acaso (ou talvez não) tinham representantes de línguas diferentes: o crítico britânico Robert Joseph e o crítico francês Michel Bettane.

Na conferência inicial, Robert Joseph mostrou vários exemplos de publicidade ligada ao vinho e falou da importância de despertar emoções para levar as pessoas a interessar-se pelo vinho. “O sexo vende”, disse, mostrando estratégias publicitárias que apostam na sensualidade. E os youtubers também vendem – cada vez mais. Um dos exemplos a que recorreu foi o do sueco PewDiePie, que tem 63 milhões de seguidores no YouTube e que, num dos seus vídeos, fala (com um rigor bastante duvidoso) sobre as suas preferências em matéria de whiskey.

Robert Joseph acredita que a abordagem descontraída de muitos dos agora chamados influencers tem a vantagem de chegar a pessoas que se sentem intimidadas com a linguagem mais técnica da tradicional crítica de vinhos. Opinião oposta tem, naturalmente, Michel Bettane, que subiu em seguida ao palco, frisando que ia fazer uma apresentação “sem slides”, e que, no final, conversou com a Fugas sobre o que defende como linguagem para se falar de vinho. Quando a conversa terminou, agradeceu a oportunidade de mostrar que não é "o francês arrogante" que muitos acham que é.  

É possível haver uma terceira via, entre estas duas escolas de pensamento?
O mais importante é defender a continuação dessas vinhas interessantes que na Europa não conseguem vender ao preço necessário para garantir a sua continuidade. Hoje, milhares de hectares capazes de fazer vinhos muito interessantes não são vendidos a preços que permitam trabalhar a vinha e o solo de forma digna. A minha principal actividade é defender isso. O vinho industrial não precisa de mim para o defender. Não precisam de mim para fazer vinhos para principiantes.

Como proteger o lugar do vinho na sociedade? Temos o lobby contra o vinho, que não existe noutros países mas que nós em França conhecemos bem, da parte dos médicos, dos políticos.

É algo de organizado? 
É económico. É o lobby dos produtos farmacêuticos que hoje financia muitas coisas e tem interesse em financiar os medicamentos e em meter medo às pessoas para que elas tomem medicamentos em vez de beberem uma bela garrafa de vinho. Nós temos uma ministra da Saúde [Agnès Buzyn] que insultou milhares de produtores de vinho franceses dizendo na televisão que o vinho era a principal causa de cancro, que o álcool era terrível. Temos que nos bater, em França, para preservar o lugar do vinho na sociedade. Não é demasiado difícil fazê-lo pelas redes sociais, pela educação, as pessoas interessam-se pelo vinho, não são idiotas.

Eu perguntava se existe uma terceira via em termos de formas de comunicar.
As duas escolas devem sobrepor-se. Um bom professor pode dar o mesmo assunto mas não falará da mesma forma a uma parte dos seus alunos e a outra. Não há outras vias, há outras palavras, outras expressões e outros meios de comunicar mas para defender, no fundo, as mesmas ideias.

Reconhece então a necessidade de contar as histórias dos produtores, do que está por trás de um vinho.
Claro que isso é importante. O storytelling é muito importante. Mostrar a vontade e a dedicação humana por trás de um vinho, as dificuldades – quanto mais difícil é, maior a oportunidade de fazer vinhos bons. Um grande filósofo e escritor francês teve esta frase extraordinária, disse que não há grandes terroirs predestinados para fazer grandes vinhos, há apenas a teimosia de civilizações. Há o teimar em fazer vinho onde é mais difícil porque é o melhor, é aí que a inteligência humana tem mais trabalho.

E é importante perceber que o vinho faz parte daquilo que fez a força da civilização europeia. Não é por acaso que a oliveira e a vinha são os símbolos da paz e do conhecimento há milhares de anos. Porquê? Porque fazem trabalhar a inteligência humana, a relação entre as pessoas que partilham a mesma garrafa de vinho, derrubam as fronteiras porque é preciso vender vinho em todos os países, ajudam povos diferentes a viver melhor junto, permite conhecer a geografia, a botânica, de estar em contacto com a natureza, a ciência, a física, a biologia, porque a fermentação é a biologia.

O vinho é algo de extraordinário para a civilização e é preciso defendê-lo em toda a plenitude. Não é criar imagens ou ter um imbecil que diz que adora whiskey e tem 62 milhões de seguidores [referindo-se ao vídeo de PewDiePie mostrado por Robert Joseph], isso funciona uma, duas, três vezes, é um divertimento.

Qual o lugar da emoção na forma de se falar de vinho?
Da verdadeira emoção. Não da manipulada por imagens que se destinam a criar emoção. Os vinhos antigos, quando têm a sorte de envelhecer bem, dão-nos emoções extraordinárias. Vi pessoas chorar de emoção perante um vinho de 1865.

A comunicação é muito importante. A viticultura familiar é algo que é preciso preservar contra a industrialização mas as famílias são histórias, e há histórias a contar. Daí que os sites – e nisso Robert tem razão – dos pequenos produtores são muitas vezes mais interessantes do que os dos grandes produtores industriais.    

Muitas vezes as pessoas sentem-se intimidadas quando lhes é pedida a opinião sobre um vinho.
A isso, eu digo: para sabermos se um bife está bom ou não é preciso ter aberto 250 livros? Com o vinho é a mesma coisa. Não é mais complicado. É preciso que percam a timidez.

Como é que isso se consegue?
Sacudindo-as e dizendo que não precisam de mim, que podem dizer o que pensam. No fim, dizem e ficam felizes por o terem feito.

E se eu tiver uma emoção profunda com um vinho mau? 
Está no seu direito. O número de vezes que me enganei, eu que sou músico... A primeira vez que ouvi La Mer, de Debussy, disse ‘o que é este disparate de música?’. Há alturas em que fazemos erros monumentais, mas é assim que progredimos. Conseguirmos tornar-nos melhores, é isso que é preciso.

É preciso libertar as pessoas. Dou a impressão de ser arrogante, mas toda a vida provei vinho com as pessoas, é a melhor forma de estar com elas, mas depois é preciso que elas se exprimam, que aprendam, passo a passo, e cada um tem as suas ideias.

Metade da França é regional, por isso as pessoas têm o hábito de beber o vinho da sua região. Quando provam o de outra região, nem sempre o compreendem – isso acontece até aos grandes enólogos. Aprendemos em todas as idades, temos é que nos libertar. O vinho é como um sumo de fruta, é como uma maçã, um pêssego. É esta a forma, não é manipulando as emoções. As pessoas sabem coisas e não têm consciência de que as sabem.

Está a dizer que é uma questão de inteligência e não de respostas já prontas.
Exactamente. Foi isso que os Master of Wine [formados pelo Institute Master of Wine, no Reino Unido] nunca compreenderam. Estou em minoria. Sei que a facção dos Master of Wine vai vencer, mas o que fazem é dar lições e não se devem dar lições, deve-se deixar as pessoas descobrir as coisas por elas mesmas.

O gosto muda? Com quê?
Com a idade, com as modas, já não comemos as mesmas coisas que comíamos há 30 anos, os mesmos tipos de cozeduras, os mesmos temperos. E muda porque nós próprios mudamos, aprendemos coisas. Não é vergonha sabermos mais coisas. Aos 50 anos não gostamos dos mesmos vinhos que aos 30.

Fala de forma diferente do vinho a uma pessoa de 20 anos e a uma de 70?
Sim, é importante que os mais jovens descubram, que tenham o prazer da curiosidade, da descoberta. O mais importante é a capacidade de nos deslumbrarmos, o sense of wonder.