Alberto de Lacerda
Labareda: a poesia de Alberto de Lacerda situa-se do lado do sentimento em estado superlativo, de um patético que está sempre a transbordar e não se contém nos limites do equilíbrio e do rigor formais Fernando Lemos, 1949

Alberto de Lacerda: toda a luz e solidão do mundo

Passou a vida entre Londres e os EUA, privou com a elite cultural do mundo, viveu pobremente e reuniu um espólio único. Falta conhecê-lo. Labareda, o mais recente livro da colecção de poesia da Tinta-da-China, quer resgatá-lo para as novas gerações e estimular a curiosidade para uma poética e uma vida invulgares.

Há uma imagem que se vai construindo a partir da memória de quem conheceu Alberto de Lacerda: um homem caminha ao longo de uma rua, passo acelerado, levando quase sempre na mão um saco de supermercado cheio de jornais e livros. Na maior parte dos seus dias, a rua era Kings Road, em Chelsea, o bairro londrino de que mais gostava. Mas muitas vezes também foi a Commonwealth Avenue, a maior rua de Boston, cidade onde viveu e deu aulas na universidade. Um dia, no início dos anos 60, escorregou e caiu numa rua estreita de Lisboa, cidade onde viveu pouco tempo. Ou seja, esse homem coxeia. A imagem vai ficando mais clara à medida que se quer saber da sua poesia, da razão do quase esquecimento em Portugal, e é a partir dessa indagação que se chega à biografia de um poeta independente de grupos ou escolas, difícil de classificar poeticamente, amante de artes plásticas e de música, desde sempre leitor voraz e coleccionador compulsivo. Quando morreu, aos 78 anos, deixou mais de mil poemas por publicar e um espólio de milhares de livros, discos e obras de arte, um insólito, já que quando morreu, em 2007, vivia numa assoalhada em Londres. Agora, 11 anos após a sua morte e quando completaria 90 anos de idade, sai um volume que reúne parte da sua poesia e que quer dá-lo a conhecer a uma nova geração. Labareda revela a singularidade poética e biográfica de Alberto de Lacerda e traz 33 inéditos. 

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Um homem ambíguo, a viver entre a exaltação e a tristeza, a exuberância social ou a solidão mais profunda, a luz e a sombra Peter Vandermeer, 1989

São poemas escolhidos por Luís Amorim de Sousa, também poeta, amigo de Alberto de Lacerda e seu executor testamentário. É o autor do prefácio onde apresenta um homem ambíguo, a viver entre a exaltação e a tristeza, a exuberância social ou a solidão mais profunda, a luz e a sombra, o que transpôs para uma poesia cheia de referências e contágios do que lia, ouvia, das pessoas com quem se dava. Artistas e poetas como Octávio Paz, John Ashbery, Edith Sitwell, Elizabeth Bishop, T. S. Eliot, David Wevill, Louis Zukofsky, Robert Duncan, Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade, além dos portugueses Sophia de Mello Breyner, Mário Cesariny ou António Ramos Rosa, e de Paula Rego e Vieira da Silva, com quem teve intensa amizade. “De tudo o poeta retirava a matéria para os seus poemas. Neles se inscreve uma teia prodigiosa de evocações, referências, meditações, e a solidão que o amargurava”, escreve no prefácio Luís Amorim de Sousa, onde relembra a extensa teia de ligações de uma poesia sem artifícios nem muletas. 

Numa esplanada de Lisboa, longe de Oxford, onde vive, Luís revela uma memória apaixonada do amigo. Na juventude partilharam a mesma cidade, Lourenço Marques, mas só se conheceram em Londres, onde passaram a partilhar a vida. “Conheci o Alberto nos anos 50 nas páginas amarelas de uma revista que teve um número único e era publicada em Moçambique. Eu tinha uns 20 anos e o Alberto já estava em Londres”, conta, recuando ao grupo de amigos e ao modo como essa revista lhe chegou às mãos. “Eu pertencia a um grupo onde estavam o José Craveirinha, o Rui Nogar, o Rui Knopfli... Toda a poesia que fazíamos tinha de ser de combate. Era preciso combater o regime. Nesse grupo havia uma figura ausente, Noémia de Sousa, mulata com uma personalidade bem marcada. Só falei com ela ao telefone, mas o Rui Nogar queria mostrar a poesia dela e trouxe-me essa revista proibida dentro de um jornal desportivo. Na primeira página havia uma sequência de poemas do Alberto, entre eles um poema pequenino que é assim...” Cita, então, de cor o poema breve que só se alonga naquele momento porque é preciso conter a emoção. As lágrimas teimam e é com elas que Luís chega ao final porque esse final descreve o lugar onde se situa a poesia e a vida de Alberto de Lacerda: “Nos ímpetos de luz enfim desfeitos encontro a solidão definitiva.” Pausa curta. “Escreveu isto era um miúdo, tinha 17 ou 18 anos. Fiquei então muito emocionado; é de uma brevidade eloquente, a necessidade de luz e a escuridão definitiva que envolviam o jovem poeta. Mais tarde ele diria de si próprio: sou um ser solitário com uma vida social extremamente activa.”

É nesse mundo de contradição que Alberto de Lacerda se movimenta sempre, causando admiração, desconcerto e permanente efeito de surpresa. Nunca se revelava totalmente, estabelecendo um pacto tácito com os amigos: havia uma intimidade inviolável e ela era-lhe necessária. “Apesar de Alberto ter muitos amigos e deleitar-se na sua companhia, havia nele um aspecto impenetrável, uma privacidade ferozmente mantida. Ele podia ser tremendamente hospitaleiro mas nunca convidava ninguém a entrar em sua casa”, refere a escritora americana Jhumpa Lahiri num artigo publicado na revista Poetry. Conheceu-o em 1993, foi sua aluna num seminário sobre Pessoa na Universidade de Boston, onde, apesar de nunca ter completado o quinto ano do liceu, Alberto de Lacerda era professor de Literatura Comparada. Outro ex-aluno em Boston, Scott Laughlin, diz: “Alberto ensinou-me que ser escritor era um modo de vida”. O agora professor, tradutor e co-autor de um festival de que desde 2011 se realiza em Lisboa em memória de Alberto de Lacerda, sublinha que era um poeta em todos os sentidos. “A arte, poesia, literatura, pintura, dança, música eram elementos essenciais na sua vida, mas não estava encerrado numa torre de marfim. Era um homem do mundo e das pessoas. Ele marchou contra Salazar e foi preso. Deviam vê-lo a atravessar uma rua cheia de trânsito em Londres.”

Jhumpa e Scott foram alunos no seu último emprego, numa vida feita de trabalhos precários, entre uma passagem pela BBC, a escrita de artigos para jornais e revistas, os anos em que ensinou na Universidade do Texas, em Austin, e que Luís Amorim de Sousa descreve como os mais felizes da vida do amigo. No espaço e no tempo dividiu-se assim: Moçambique, Lisboa, Londres, Austin, Nova Iorque, Boston, Londres. Depois de Boston, regressou a Londres,  cidade que adoptou como casa. Mas em todo o lado era o homem que deambulava pelas ruas, galerias, teatros e cafés — considerava os cafés essenciais à civilização — sempre envolto numa nebulosa criativa.   

“Como o seu herói Picasso, acreditava que os artistas nasciam e se alimentavam do processo de estudar outros artistas”, continuava o artigo de Jhumpa Lahiri. No obituário que escreveu para o Independent, em Setembro de 2007, o poeta americano John Ashbery salientava a confusão que ele conseguia criar em quem se cruzava com ele no seu percurso habitual. “Pegaram-lhe no braço e expulsaram-no para sempre de uma galeria em Cork Street por ter exigido saber o preço de um Picasso; saiu da lista do seu centro de saúde depois de perguntar a nacionalidade à recepcionista. Evelyn Waugh também se enganou ao descrevê-lo nos seus dias de juventude como ‘um homenzinho moreno que parecia um judeu mas dizia ser português’.”

A língua e a amargura 

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda nasceu na Ilha de Moçambique a 20 de Setembro de 1928, filho de um administrador colonial. Passou os primeiros anos em itinerância até se fixar em Lourenço Marques onde fez o liceu. Tímido, solitário, lia compulsivamente e começou a escrever poesia aos 14 anos. Aos 18 foi para Lisboa aprender inglês e francês. Conheceu Almada Negreiros, Sophia de Mello Breyner, Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Júlio Pomar. O editor de Fernando Pessoa aceita publicar o seu primeiro livro de poesia. Morreu pouco depois e o projecto que ficou adiado. Em 1950 fundou a revista Távola Redonda, com António Manuel Couto Viana, Luiz de Macedo e David Mourão-Ferreira. Saiu depois de uma desavença e em 1951 foi para Londres com um contrato para a secção portuguesa da BBC. Começou o seu contacto com o mundo das artes numa Londres em ebulição criativa. “O Alberto era uma pessoa singularíssima, conhecia toda a gente na sua época”, sintetiza Luís Amorim de Sousa que o conhece em Londres vindo a trabalhar na mesma delegação das BBC. 

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Foto
Mário Cesariny, 1976

“Nasceu uma cumplicidade pessoal e criativa. O Alberto sentia-se bem no mundo de língua inglesa e eu também. As saudades que ele tinha de Portugal eram ligadas a valores muito nossos, a começar pela língua.” Uma ligação tão forte quanto ambígua. Colado a ela, inseparável dela — sempre escreveu em português —, a sua língua lembrava-lhe uma angústia: a de ser tratado pelos portugueses de Portugal como se não lhe pertencesse. Há um poema que trata dessa relação visceral. “Esta língua que eu amo/ [..] Esta maravilha/ Assassinadíssima/ Por quase todos que a falam/ [...] Esta língua/ É minha Índia constante/ Minha núpcia ininterrupta/ Meu amor para sempre/ Minha libertinagem/ Minha eterna/Virgindade”.

Vai-se alimentando dela com os amigos de Londres. Paula Rego, Helder Macedo e, claro, Luís, mas também na correspondência que mantinha e nas férias em casa de Vieira da Silva. O seu primeiro livro, 77 poemas, é publicado em 1955. Seguem-se mais 11 em vida, a maior parte na Imprensa Nacional Casa da Moeda. É traduzido para inglês. A vida corre e um dia anuncia que vai para o Texas. “Foi no dia em que Picasso, o seu ídolo, fez 80 anos. Havia um programa na BBC sobre as ofertas do Picasso em que participam o Alberto Lacerda e a Paula Rego, e estamos os três sentados na cantina quando o Alberto anuncia que tinha assinado um contrato com a Universidade do Texas. Fiquei angustiado. Imaginá-lo entre cowboys não era fácil”, comenta Luís Amorim.

Mais uma vez surpreendeu-se. Alberto parecia feliz. Tinha um ordenado, coisa a que não estava habituado, e “encontra uma América diferente, vibrante, e cheia de paixão. Foi o momento em que muitos americanos se opuseram à guerra do Vietname; em que aparecem os movimentos de libertação da mulher, dos homossexuais, dos negros”, continua Luís Amorim. Homossexual que dizia que a liberdade era a sua obsessão, Alberto de Lacerda sente isso, “está de repente num mundo de energia que lhe falava ao coração e encontra amigos. Octávio Paz, Christopher Middleton, David Wevill, primeiro marido de Assia Gutmann, a amante de Ted Hughes. E há convites para visitar o Robert Duncan em São Francisco e Louis Zukofsky em Nova Iorque.” Luís Amorim podia passar dias a contar histórias do amigo, desfazer equívocos, como diz, emocionar-se. “Há histórias contraditórias. O facto é que ele era um pobretanas que não tinha onde cair morto, comia um bolo seco ao almoço porque não tinha dinheiro para comer uma omelete e encheu a casa de tesouros porque se endividava para comprar coisas.” Assim fez o espólio que Mário Soares aceitou receber na sua fundação. “Quadros, desenhos, poucas coisas emolduradas, tudo em pastas, trabalhos em papel, sobretudo; discos, livros, catálogos, coisas a ver com o mundo da cultura. À chegada a Portugal, pesava 16 toneladas. Morre e deixa-me tudo nas minhas mãos.”

Tentou que o espólio não se dispersasse. Não aconteceu e o espólio está por vários lugares. “É inesgotável”, resume o homem que gostava que Alberto de Lacerda fosse mais lido. Ele mesmo selecionou os poemas que agora compõem Labareda, o mais recente da colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia na Tinta-da-China.

“É um poeta que me interessa por várias dimensões, uma é a ligação à cultura anglo-saxónica, à Inglaterra em particular, que se tornou hegemónica nas últimas décadas, mas que durante muito tempo era a excepção”, diz Pedro Mexia, justificando a entrada de Lacerda numa colecção que quer também recuperar nomes para as novas gerações. Já aconteceu antes com Ruy Cinatti e António Reis. Mexia fala de Labareda como o livro de apresentação de um poeta a quem nunca o leu e pode a partir daí querer saber mais. Da poesia e da singularidade do homem que acreditava que os poetas são feitos da mesma matéria que os sonhos. “Há um livro dele de que gosto especialmente, Elegias de Londres. Há ali um fôlego e um lado meditativo em que está tudo. Está África, está Portugal, está Londres. É um livro importante da poesia portuguesa. E há duas características notórias e que talvez dificultem a recepção do Alberto Lacerda por um leitor actual: um lado de êxtase e de maravilhamento que parece um contínuo. Embora tenha alguns poemas mais azedos, é um poeta distante de um certo sentimento cínico. Aquele lado e permanente descoberta da coisas — do corpo, da cidade, etc — talvez seja poesia de outro tempo, e também não era a poesia do seu tempo em Portugal.”

E Portugal parece não tê-lo compreendido no seu tempo. “É a tragédia de viver fora”, diz Mexia. Mas há coisas a acontecer. Por exemplo o tal festival Disquiet, organizado por Scott Laughlin, que todos os anos traz a Lisboa autores americanos. Nesta edição, Jorge Silva Melo irá ler Alberto de Lacerda. O encenador e actor recorda a primeira sensação ao ler Lacerda. “Surpreendeu-me a poesia muito diferente da poesia portuguesa. Muito lírica, elegíaca, muito próxima de alguma poesia inglesa.” Continuou a acompanhá-lo e lembra a fase americana, “próxima dos movimentos sociais. Muito whitmaniana, mais beat” e tenta levar essa diversidade para os recitais sobre ele. Assim será, no dia 10 de Julho, numa poesia que John Ashbery definiu como tendo uma potência pessoal e romântica, de alguém que é “tanto um mestre no soneto clássico como nos saltos da imaginação surrealista ou da perfeição minimalista oriental”, alguém que celebrava a paixão pela música, pela dança, pelo teatro pelo cinema e pelo quotidiano.