Crítica

A birra do morto

Retrato paródico da instituição literária, da vaidade autoral, das mundanidades político-culturais: O Fiel Defunto, de Germano Almeida.

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Daniel Rocha

A determinada altura, alude-se neste romance àquele peculiar e ambivalente fascínio que os escritores, sobretudo aqueles vocacionados para o realismo e para a crítica de costumes, costumam despertar nos seus círculos próximos, fascínio que se divide entre o receio que os supostos modelos do escritor sentem de poderem vir a reconhecer-se caricaturados ou censurados e a vaidade de se verem (ou lerem) romanceados e transfigurados em letra de forma.

Nesse sentido, O Fiel Defunto talvez pudesse ser lido como roman à clef. Mas só muito residualmente, pois a sátira mais recente de Germano Almeida — embora seja nela reconhecível o retrato paródico da instituição literária, da vaidade autoral, das mundanidades político-culturais e do generalizado novo-riquismo — é de tal modo descomedida e cómica que, não obstante os referentes concretos de tempos, personagens e lugares, depressa se transforma em farsa artificiosa e despudoradamente burlesca. Tudo por causa da birra legada em testamento pelo defunto fiel,  Miguel Lopes Macieira, assassinado “pelo seu maior e mais íntimo amigo” (alegadamente “em legítima defesa da sua integridade psicológica”) no início da cerimónia de lançamento de O Último Mugido, a obra involuntária e inesperadamente final do “grande escritor das ilhas”, que acabava de regressar ao heróico labor da escrita, após vários anos de dúplice impotência.

Não se preocupem os leitores mais sensíveis aos suspensivos prazeres de tramas e tramóias, pois não estamos revelando aqui nada que não esteja lido e sabido ao cair o pano do primeiro breve capítulo. Enfim, não fora o morto haver manifestado póstuma vontade de inaugurar nova atracção turística nas ilhas, sob a forma calorosa de uma incineração em praça pública, e tudo estaria bem. E morto e enterrado. Como deveria ser.