Reportagem

Em quatro dias já foram retirados do Tejo 400 metros cúbicos de lamas

Operação de limpeza junto a Vila Velha de Ródão arrancou na segunda-feira e vai durar até final de Julho. Guarda-rios vão voltar a vigiar o Tejo.

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Três gigantescos sacos permeáveis marcam por estes dias a paisagem na margem direita do Tejo junto às Portas de Ródão. Neles estão já acumulados cerca de 400 metros cúbicos (m³) de lamas com elevada carga orgânica. São o resultado de quatro dias de trabalho, que se iniciaram na segunda-feira, da operação de limpeza montada pelo Ministério do Ambiente junto a Vila Velha de Ródão. O local foi nesta quinta-feira visitado pelo ministro da tutela, João Pedro Matos Fernandes, que anunciou investimentos de 2,5 milhões de euros a quatro anos e o regresso dos vigilantes da natureza, antigamente chamados guarda-rios, ao Tejo.

A operação de limpeza, que vai durar até ao final do mês de Julho, é inédita em Portugal, e tem como objectivo retirar as lamas alojadas no fundo do Tejo naquela região, que podem chegar aos 30.000 metros cúbicos.

As empresas contratadas e a tecnologia usada são portuguesas e todo o equipamento adquirido pelo Estado é recuperável para ser usado em outras operações de limpeza do género que possa ser necessário fazer em Portugal ou no estrangeiro, segundo revelou Matos Fernandes.

Depois de um longo período de estudos e de escolha do local, levados a cabo na sequência da grave mancha de poluição detectada no Tejo a 24 de Janeiro, a operação arrancou nesta segunda-feira depois de, no dia 14, o Supremo Tribunal Administrativo ter recusado uma providência cautelar apresentada pela associação ambientalista Zero contra a deposição de lamas, removidas do rio Tejo, num terreno inserido numa área protegida das Portas de Ródão.

A operação é complexa. Começa a cerca de 1,2 quilómetros a Sul do local onde foi montado o estaleiro. Um grupo de mergulhadores numa barcaça leva até ao fundo do rio, a 60 metros de profundidade, onde estão acumuladas as lamas, a tubagem que suga a água e a carga poluidora. Só assim é possível recolher os sedimentos e deixar no seu local as areias e as rochas naturais.

As lamas são então bombeadas para uma espécie de estação de tratamento (um floculador, tanque com grande dimensão, com sete metros de altura e três de diâmetro), que separa a maior quantidade de água possível dos sedimentos contaminados e é devolvida ao rio, enquanto as lamas são acumuladas em sacos gigantes. O sistema montado tem capacidade para retirar 400 metros cúbicos de efluente do rio por hora, dos quais é subtraído 98% de matéria orgânica.

Mais tarde, dentro de cerca de três meses, essas lamas, já secas, podem ter dois destinos: as que podem ser valorizadas são reaproveitadas para, por exemplo, aplicação em terrenos agrícolas, ou não têm valor e seguem para um aterro sanitário.

Matos Fernandes assegurou que a operação está a resultar em pleno. "O terreno está completamente impermeabilizado e não vai sofrer rigorosamente nada. Não há um grama destas lamas que estão no Tejo que fiquem no terreno (…). Os resultados que temos estado a obter são, de facto, excepcionais. Não há maus cheiros e o rendimento está a ser francamente bom”, afirmou.

Matos Fernandes encontrou uma forma simples e feliz de explicar o que ali se está a fazer. Encheu um copo com a água e com sedimentos que é recolhida no fundo do rio – de cor castanha escura, quase preta – e outro com água depois de tratada e separada das lamas. Esta, que é devolvida ao Tejo, é clara, praticamente igual à que sai das nossas torneiras. “É isto que estamos a fazer aqui”, afirmou.

A operação de limpeza vai custar cerca de 1,7 milhões de euros e está a ser custeada pelo Estado. Porém, o Governo já admitiu reclamar essa verba às empresas de celulose sediadas em Vila Velha de Ródão, caso os processos judiciais em curso apurem serem elas as responsáveis pela poluição do Tejo.

O ministro aproveitou também a ocasião para anunciar a Operação Tejo Limpo, financiada pelo fundo ambiental em 2,5 milhões de euros e que será levada a cabo nos próximos quatro anos.

Fiscalização reforçada

Uma operação que Matos Fernandes diz ter três objectivos principais. O primeiro, passa pela concentração de toda a informação e a sua gestão, através da criação de uma plataforma tecnológica na qual os resultados do autocontrole diário de todas as fábricas e de todas as estações de tratamento de águas residuais vão ficar depositados.

O segundo diz respeito ao reforço de meios técnicos para a fiscalização do Tejo, com dois novos barcos e dois veículos todo o terreno, além de material de análise.

Já terceira dimensão do projecto passa pelo regresso dos antigos guarda-rios (vigilantes da natureza) ao Tejo. "A Agência Portuguesa do Ambiente irá contratá-los. Dentro de um mês, acreditamos que vamos ser capazes de lançar o concurso para termos cinco guarda-rios para o Tejo. Quando digo Tejo é essencialmente o rio, mas também a sua bacia hidrográfica”, revelou Matos Fernandes.

Estes vigilantes vão ter meios próprios para fazer a recolha de água para análise laboratorial sempre que necessário. Além disso, vão fazer detecção de incêndios nas áreas junto ao rio que lhes forem atribuídas, de caça e pesca ilegais e outras operações de vigilância e dissuasão. “Vamos estar muito mais perto quando os problemas surgirem", disse o ministro do Ambiente.

Sobre o estado das licenças atribuídas para descargas no rio, Matos Fernandes revelou que nove das 10 licenças prometidas já estão passadas, uma outra será atribuída em breve e, até final do ano, serão passadas um total de 40, sendo os valores permitidos de descarga permanente avaliados de acordo com as condições que o Tejo oferecer.

Questionado sobre uma alegada prevaricação da Celtejo em matéria de poluição do rio, o ministro explicou que toda essa questão é pública. "Eu vim aqui não para acusar ninguém. A IGAMAOT [inspecção ambiental] já disse o que tinha a dizer sobre esse processo. Tudo isso é público. Houve um conjunto de contra-ordenações passadas à Celtejo e não só à Celtejo. O que importa neste momento é que a qualidade da água não tem nada a ver com a de há seis meses, que nós conhecemos muito melhor o rio Tejo. Já sabemos que as pessoas estão com os olhos em cima do Tejo e isso é bom", concluiu.