Opinião

A fotografia com asas

Ensinaram-me a mudar o mundo. A ajudar a mudar o mundo. A fotografia, o fotojornalismo tem também essa função.

Sozinho. Perdido. Francisco olhava no vazio. A noite tinha sido de luta e de medo. O monstro poupou-lhe a vida. Bailou numa dança frenética e Francisco rezou fechado em casa. Ali estava agora. Na pequena praça com o chafariz esgotado de água. Tudo era cinza. Tudo era caos. Francisco, apoiado no seu cajado, procurava o amigo desaparecido. A má notícia chegaria mais tarde. O amigo morreu.

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Eu falei com Francisco. Dei-lhe ânimo. Ele retribuiu com o seu olhar puro. Agradeci as fotografias que lhe fiz. Fiz-me à estrada à procura da tristeza. Sabia que levava Francisco comigo na caixa negra. Não sabia é que o levava para toda a vida. Francisco imortalizou-se.

Foto
Adriano Miranda

Quando ontem pela tarde recebi a notícia que tinha ganho o Prémio Gazeta fiquei com suores frios. Ia na rua e apetecia-me gritar. Fiquei feliz. Felicidade só comparável ao  nascimento dos meus dois filhos. Desatei a enviar mensagens para os que mais gosto. Falharam alguns. Mas eles sabem o que esperam de mim. Fotografar é como respirar. Um dia deixarei de o fazer. Fotografar e respirar. Gostava que as fotografias que faço não fossem guardadas em arquivos bolorentos. Fossem lançadas ao mar, plantadas na terra, penduradas em árvores e que dessem frutos. São esses frutos que eu secretamente persigo ao fotografar. Frutos de felicidade e dignidade. Frutos solidários de luta pelos mais pobres, pelos descartáveis deste mundo. Ensinaram-me a mudar o mundo. A ajudar a mudar o mundo. A fotografia, o fotojornalismo tem também essa função. Também. É nisso que acredito.

Este prémio não é meu. É de todos nós que acreditamos e fazemos. Obrigado Francisco. Obrigado a todos os camaradas de viagem. Jornalistas de primeira água. Estou feliz e pronto para continuar a lutar.

E enquanto existirem “xerifes deste mundo” que colocam crianças em jaulas, indiferentes aos seus lamentos, fotografarei sempre. Com asas. Com liberdade.

Para ti Lucília.