Esquerda avisa Costa de que está a desviar-se do "lado bom da força"

PCP, BE e PEV questionaram Costa sobre professores, habitação e saúde. PSD e CDS concentram-se nas negociações com a Europa para os fundos europeus.

Debate quinzenal era sobre orçamento comunitário
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Debate quinzenal era sobre orçamento comunitário LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

O momento era propício a que ficassem a nu algumas divergências entre os parceiros de Governo. O Serviço Nacional de Saúde continua a levantar dúvidas, a esquerda não gostou do acordo de concertação social para a alteração às leis laborais, não há luz verde na negociação com os professores e, para dificultar o cenário, o primeiro-ministro levou ao debate quinzenal desta quarta-feira uma insistência: um consenso de 2/3 no Parlamento para aprovar o Programa Nacional de Investimentos 2030.

O cocktail tinha potencial explosivo para a esquerda, mas apesar disso até foi um debate morno, com poucas crispações: a habitual com Assunção Cristas e outra com Heloísa Apolónia, que sintetizou numa frase o sentimento da esquerda. "Custa-me que, chegando ao final da legislatura, esteja a fazer tantos acordos com o PSD. Isso deve fazer o país reflectir e também o Governo reflectir”.

António Costa não demorou muito a pensar na resposta e fez saber aos parceiros, através de uma intervenção menos branda do que costume para o PEV, que “não há novidade nenhuma” e que era do conhecimento de todos que o queria fazer, até porque estava no programa de Governo que em termos de programa de investimento queria estabilidade não dependente de ciclos políticos. Um programa que Jerónimo de Sousa fez saber lhe parece “aquém das necessidades do país”.

Os três partidos parceiros trouxeram um leque de preocupações, com a situação dos professores à cabeça. O secretário-geral do PCP considerou o impasse como uma “teimosia” do Governo que está apostado na “divisão” dos trabalhadores da função pública e perguntou até que ponto está disposto o primeiro-ministro a deixar arrastar a situação, causando “instabilidade” neste final de ano lectivo. Costa, que repetiria os argumentos a Heloísa Apolónia, disse que o compromisso assumido pelo Governo foi o de negociar “o tempo a ser contado, o modo e o calendário” e a reposição dos anos de serviço de forma integral e de uma só vez.

Habitação anima debate

Catarina Martins acabou por dar o mote para uma troca de acusações entre o primeiro-ministro e Assunção Cristas. A líder do BE levou ao debate o tema da habitação, dizendo que foi alterado o cálculo da renda apoiada, mas há quem hoje esteja em risco de despejo por ter recebido multas e juros de mora que estarão em dívida e que não consegue pagar. "Por um erro de Assunção Cristas, as famílias dos bairros estão a ser despejadas."

A bloquista falou também do Novo Regime de Arrendamento Urbano (NRAU), feito pelo anterior Governo e da lei de bases da habitação que está no Parlamento, procurando saber qual a disponibilidade do Governo. Pergunta mais do que suficiente para dar o argumento a Costa para fazer cair a responsabilidade da situação actual para a líder do CDS. "É preciso encontrar soluções para ter habitação acessível depois do "absoluto falhanço" das opções do Governo anterior. 

Foi sobre este tema que tudo aqueceu. A líder do CDS questionou Costa sobre a venda de um T2 pela Segurança Social a preços proibitivos e ouviu, na volta do correio, uma resposta que considerou ferir a sua honra. “Sobre habitação é melhor nem falar porque me lembro do desprezo com que me respondeu, quando era presidente da Câmara de Lisboa e com a deputada Helena Roseta a fui avisar sobre a calamidade social que iria provocar a sua legislação sobre rendas", respondeu Costa. Cristas pediu para se defender a dizer que não tem “duas caras” ao contrário do primeiro-ministro: “Sei muito bem o que me dizia a mim, o que dizia na rua para ganhar votos e o que dizia aos investidores privados".

Clima quente que não se verificou na troca de argumentos com o líder da bancada do PSD. Fernando Negrão concentrou-se na negociação dos fundos europeus, defendendo que “é pouco” o que o Governo conseguiu para a política de coesão e para a política marítima. "Há um acordo, mas isso não implica que haja a passagem de um cheque em branco do PSD ao Governo nestas matérias", afirmou o social-democrata.