Reportagem

Mudanças no exame de Português apanharam alunos de surpresa

Mais de 77 mil alunos prestaram provas a Português. Entre a Mensagem de Fernando Pessoa, menos questões de gramática e uma composição “interessante”, os alunos da Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa, saíram surpreendidos com a mudanças no exame.

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Esta manhã 170 alunos fizeram exame na Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa Rui Gaudêncio
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Exame de Português é o mais concorrido das provas nacionais Rui Gaudêncio
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Este ano estavam inscritos mais de 77 mil alunos Rui Gaudêncio

À pergunta “o exame era aquilo que esperavas”, nunca a resposta foi afirmativa. “Longe disso”, “muita coisa foi diferente”, “não foi esta a estrutura para a qual estudei”. O exame de Português do 12.º ano desta terça-feira foi diferente dos de anos anteriores e Ricardo Pereira, de 18 anos, viu repetir-se a partida que o exame de Física e Química lhe pregara no ano passado. A estrutura da prova mudou e tanto alunos como professores com quem o PÚBLICO falou dizem que não estavam à espera.

O Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo público responsável pela elaboração e classificação dos exames, garante que não houve alterações estruturais, apenas ajustamentos. Estes “resultam da análise de resultados de anos anteriores e visam melhorar a validade da prova e das classificações”, explicou o presidente do instituto, Hélder Sousa, questionado pelo PÚBLICO. Nenhuma destas alterações “implica informação prévia” porque não pressupõem uma “mudança nos processos de ensino e de aprendizagem”.

Já o conteúdo não surpreendeu: para interpretação saíram excertos da Mensagem, de Fernando Pessoa, e Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett, num dia em que vários alunos contaram que foram a provas sem terem notas internas atribuídas, devido à greve dos professores às avaliações. 

“Apanhou-me de surpresa. As cotações mudaram todas, incluíram um grupo C que não existia em qualquer enunciado anterior, havia muitas perguntas de interpretação e a parte de gramática ficou mais pequena”, enumerou Ricardo, aluno do 12.º ano na Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa.

Os colegas apontaram as mesmas mudanças: em vez das habituais sete perguntas de escolha múltipla e três de resposta aberta sobre gramática, o exame deste ano tinha cinco e duas, respectivamente. E pedia aos alunos que fizessem uma reflexão breve (o tal grupo C), que não existia nos exames anteriores.

O que deixou ainda os alunos apreensivos foi a falta de referência a um limite de caracteres para esta reflexão, onde tinham que distinguir o herói d’Os Lusíadas do da Mensagem. “Não sei se aquilo que é breve para mim será breve para um corrector de exames”, é a dúvida de Ana Raquel Alves, de 20 anos. De resto, “este texto era bastante fácil, nós debatemos bastante a intertextualidade em aula”, contou.

Mas perante o suspiro de alívio com que a maioria reagiu ao facto de o exame ter tido menos perguntas de gramática, Diogo Travassos atirou: “É péssimo, com uma resposta errada deixo de perder cinco pontos para perder oito." Para ele, as décimas podem fazer toda a diferença para entrar na licenciatura em Direito. Assim como para Wilson Oliveira que precisa da “melhor nota possível” neste exame para continuar os estudos em Inglaterra, na International Business School.

As mudanças no exame, a mais concorrida das provas nacionais, para a qual estavam inscritos mais de 77 mil alunos, incomodam: “Nunca foi referido que a estrutura ia mudar”, afirmou Diogo. “Não houve qualquer orientação”, completou Wilson.

Diogo Almeida também levou algum tempo a assimilar alterações, a ver como ia gerir a prova. “Era acessível, mas tínhamos tanto tempo como no ano passado para fazer mais coisas. Não era de todo o que estava à espera”, sublinha o jovem de 18 anos, futuro aluno do curso de Ciências Farmacêuticas.

Alunos sem notas internas

Só o toque do meio-dia veio interromper o silêncio em que tinha mergulhado esta secundária em Alvalade. Contaram-se pelos dedos, entre os 170 alunos que prestaram provas, os que saíram antes da meia-hora de tolerância dada depois das duas horas de exame. Sinal de que a prova, “embora acessível, exigia tempo”, confirmou Eva Santos, professora de Português.

“Era globalmente acessível para exame de final de 12 anos de escolaridade. O poema da Mensagem consta dos manuais adoptados e a prova corresponde àquilo que se esperava tendo em conta o programa da disciplina”, referiu a docente.

Também Fernanda Gregório, da Associação Nacional de Professores de Português, vê uma “prova muito bem conseguida”, que demonstra “sensibilidade pelos grandes autores de língua portuguesa e respeita integralmente” o programa e metas curriculares. “Não sendo muito fácil, é um instrumento que permitirá avaliar convenientemente os conteúdos adquiridos até ao final do 12.º ano”, considerou. E desvaloriza a mudanças no exame. “O texto C é um retomar do que tinha sido feito há uns anos e é dirigido aos alunos que realmente estudaram, confirmando a intenção de diversificar os níveis cognitivos das questões”, para que a prova teste efectivamente os conhecimentos de “todo o tipo de alunos”.

O facto de o poema ter sido analisado nas suas aulas faz com que Eva Santos preveja bons resultados, assim como a deixa optimista o tema da composição: o poder das palavras nas relações humanas. “É um tema que está ao alcance de qualquer aluno e deve suscitar-lhes interesse." Dito e feito: “interessante” foi o adjectivo a que recorreu a maioria dos alunos ouvidos pelo PÚBLICO.

O que parece colher menos interesse dos estudantes é o facto do quadro onde costumam ter afixadas as pautas com as notas dadas pelos professores estar ainda branco. As preocupações que poderiam ter por causa da greve dos professores às avaliações desapareceram quando estes lhes disseram qual a nota provável que iriam ter. “Isto é discutido durante a auto-avaliação. Os alunos têm noção da nota com que vão a exame, não vão às escuras”, garante Cristina Carvalho, professora de Português.

Nesta escola secundária apenas duas turmas têm as notas fechadas, depois de a greve ter impedido a realização da maioria das reuniões de avaliação.

O único senão para os alunos surge no caso deste impasse entre os professores e o Ministério da Educação se arrastar até serem conhecidas as notas dos exames. “Aí a questão sobe de tom. Como faço a minha candidatura à faculdade sem notas internas?”, questionava em antecipação Ana Raquel Alves. Ao que a professora Cristina Carvalho respondeu: “Espero que não tenhamos que chegar aí.”