As “duas generalas” disputam liderança do Partido Popular

As candidaturas de Soraya de Santamaría e de Dolores de Cospedal marcam o arranque da batalha pela sucessão de Rajoy. Está em jogo a recomposição do espaço político espanhol.

María Dolores de Cospedal, Soraya Sáenz de Santamaría
Fotogaleria
Cospedal com Rajoy Javier Barrencho/Reuters
Mariano Rajoy, Pedro Sánchez, Soraya Sáenz de Santa María, Espanha, Primeiro Ministro da Espanha, Moção de Confiança
Fotogaleria
Soraya Santamaría com Rajoy no parlamento Ballesteros/EPA

Soraya Sáenz de Santamaría, antiga vice-presidente do governo, e Maria Dolores de Cospedal, secretária-geral do Partido Popular (PP), entraram nesta terça-feira na corrida à sucessão de Mariano Rajoy. Havia já quatro candidatos declarados, entre eles Pablo Casado, vice-secretário de comunicação do PP, mas foi a renúncia do presidente galego, Alberto Nuñez Feijóo, que permitiu a entrada em cena das duas grandes rivais, o que augura, segundo a imprensa espanhola, uma “batalha cruenta”. Não estão em jogo apenas nomes mas o futuro do grande partido do centro-direita e a recomposição do espaço político espanhol.

O prazo de apresentação de outras candidaturas para as eleições primárias de 5 de Julho termina quarta às 14h (13h em Lisboa). Ignora-se o que fará Ana Pastor, presidente do Congresso de Deputados. Os outros nomes inscritos são José Ramón Garcia Hernández, chefe das relações internacionais do partido, José Manuel García-Margallo, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, e José Luis Bayo, das “Novas Gerações” (juventudes) de Valência. Quase todos falam em rejuvenescimento de um partido com o eleitorado envelhecido e na necessidade de recuperar os votos perdidos para o Cidadãos. Mas não se espera um debate ideológico.

É a primeira vez que o PP organiza eleições primárias, o que perturbou os virtuais candidatos. As bases nunca foram consultadas sobre nada. José-Maria Aznar foi eleito líder por indicação de Fraga Iribarne e Rajoy por escolha de Aznar. As primárias de 5 de Julho designarão os dois candidatos que disputarão a “segunda volta” no congresso de 20 e 21 de Julho. 

Para ser directamente eleito nas primárias, o vencedor terá de obter mais de 50% dos votos e mais 15% do que o segundo classificado e vencer ainda na maioria das províncias. Se a votação for equilibrada, haverá negociações e alianças entre vários concorrentes. Admite-se, por exemplo, que se Casado se mantiver na corrida e tiver uma votação razoável possa vir a ser o “árbitro” do congresso. Lembre-se que Casado está a braços com uma investigação judicial pela duvidosa obtenção de um master na universidade que deu o diploma a Cristina Cifuentes. 

O factor Feijóo

Feijóo era considerado o “sucessor natural” de Rajoy e o “candidato do consenso”, o que tornava muito arriscada a entrada em cena de Santamaría e Cospedal. As sondagens davam-lhe vantagem entre os eleitores do PP. É hoje criticado por hesitação e “falta de valentia”. A sua desistência desencadeou automaticamente a corrida das “duas generalas” do partido. 

Tanto Cospedal, 52 anos, como Santamaria, 47, são uma criação de Rajoy e a sua rivalidade vem de longe. Em 2008, Rajoy afastou algumas figuras mais ligadas a Aznar, nomeando Cospedal secretária-geral do PP e Santamaría porta-voz parlamentar. Depois da vitória eleitoral em 2011, Santamaría passou a ser vice-presidente do governo e a mais próxima colaboradora do líder. Cospedal foi ministra da Defesa no último governo de Rajoy. Ambas invocam o seu estatuto de mulheres. 

As suas divergências cedo se transformaram numa acesa rivalidade que Rajoy, adepto dos equilíbrios, geriu com habilidade. Santamaría passa por querer abrir o partido e Cospedal por representar uma posição mais à direita. Cospedal reivindica ter “dado a cara” pelo partido nos escândalos de corrupção, enquanto Santamaría se demarcava. Divergiram também na gestão da crise da Catalunha, que esteve em grande parte nas mãos de Santamaría. Mas, muito mais do que diferenças ideológicas, o que sempre esteve em jogo foi uma disputa de poder, além de ajustes de contas pessoais. 

Isto abre o cenário que Rajoy queria evitar, uma decisão com “vencedores e vencidos” e o risco de uma campanha “suja” que dilacere o partido. Ambas têm posições fortes e uma polarização pode romper o PP. Como será depois do congresso? Os “barões” desejavam uma “candidatura única” para afastar uma “guerra interna” e assegurar a unidade. Os seus dirigentes ironizaram muitas vezes sobre as “guerra civis” do PSOE, nos congressos e nas primárias.

“O PP é um partido conservador em vias de viver a vertigem de dar um passo para uma mudança radical no seu funcionamento”, escreve Fernando Garea no El Confidencial. “É uma maquinaria pesada que abandona a placidez e acelera o passo para um abismo por trás do qual não sabe se haverá rede. Travar não é uma opção. Um universo novo e desconhecido para o PP.”

O problema é mais fundo. O PP formou-se aglutinando as diversas sensibilidades da direita sociológica, o que inclui conservadores, liberais e democratas-cristãos, o que lhe permitiu a hegemonia sobre o espaço do centro-direita. Esta situação começou a ser questionada em 2014 com a crise do bipolarismo. O PP ficou sob a ameaça de ser devorado pelo Cidadãos. Por isso, “procura hoje um líder que tenha o antídoto” contra o partido de Albert Rivera. O mesmo aconteceu ao PSOE, que sofreu uma hemorragia de eleitores para o Podemos e o Cidadãos. Mas, ao contrário do PP, os socialistas parecem ter hoje a oportunidade de recuperar posições.

A ultradireita

Falou-se numa “refundação” do PP. A candidatura de Feijóo teria significado, pelo menos, uma mudança de pessoal. Que renovação esperar do confronto entre as duas mais próximas colaboradoras de Rajoy? O que está em jogo vai para lá das palavras. Uma renovação não pode significar uma viragem ao centro e, muito menos, o abandono do seu “território” na direita. O centro foi largamente ocupado pelo Cidadãos, o que retirou ao PP e ao PSOE o “monopólio” do poder. 

O mais perigoso para a democracia espanhola seria a perda do espaço da direita pelo PP, um partido europeísta. A Espanha e Portugal são uma excepção numa Europa que assiste a uma expansão da extrema-direita, do nacionalismo xenófobo e do eurocepticismo. Haverá muitas razões, a começar pela experiência das ditaduras ibéricas. 

A nova direita populista não tem encontrado espaço em Espanha. Existe, no entanto, uma semente, o partido VOX, que tem tido resultados eleitorais insignificantes mas que se prepara, com o apoio de forças congéneres europeias, para lançar uma ofensiva sobre o PP nas eleições europeias de 2019. O PP é o dique de contenção desta ultra-direita nacionalista. O seu recuo, disse alguém, “seria o Waterloo do Partido Popular”.