Draghi garante que será “paciente” na escolha do momento para subir taxas de juro

Presidente do BCE explica em Sintra porque é que o banco central está a reduzir os estímulos, mas conforta quem receia uma mudança repentina para uma política muito restritiva.

Mario Draghi, Banco Central Europeu, Europeiska centralbankens ordförande
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LUSA/VALDA KALNINA

“Paciente, persistente e prudente”, é assim que a política monetária na zona euro vai ser conduzida, mesmo depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter decidido, na semana passada, colocar um ponto final no programa de compra de activos com que tem estado a estimular a economia nos últimos anos.

A garantia foi dada esta terça-feira por Mario Draghi na abertura do Fórum do BCE que está a decorrer na Penha Longa, em Sintra, num discurso marcado pelas decisões tomadas na passada quinta-feira pelo conselho de governadores do banco central. O presidente do BCE, ao mesmo tempo que explicou porque é que a autoridade monetária acha que é tempo de reduzir os estímulos dados à economia, fez também questão de deixar a garantia de que não iremos assistir agora à imposição repentina de uma política monetária muito restritiva. E que, em particular, ainda vai demorar algum tempo até que as taxas de juro de referência do BCE voltem a subir.

“Vamos manter-nos pacientes na determinação do momento da primeira subida das taxas de juro e teremos uma abordagem gradual no ajustamento da nossa política a partir daí”, afirmou Draghi, acrescentando depois mais dois adjectivos para caracterizar a forma como o BCE pretende actuar: “persistente e prudente”.

Já seria de esperar que a intervenção do presidente do BCE fosse marcada pelas decisões tomadas na semana passada. Na quinta-feira, Mario Draghi anunciou que o banco central iria, já a partir de Outubro, reduzir o seu programa de compras de activos nos mercados (principalmente títulos de dívida pública emitidos pelos Estados da zona euro) de 30 mil milhões de euros por mês para 15 mil milhões, eliminando-o depois por completo no final de 2018.

É o fim de uma das principais medidas de estímulo monetário com que o BCE tentou reanimar a economia da zona euro, esperando que a taxa de inflação começasse a subir para níveis mais próximos do objectivo, que é de “abaixo mas próximo de 2%”.

Em Sintra, esta terça-feira, explicou em detalhe que a decisão foi tomada porque existem agora sinais mais claros de que a taxa de inflação vai caminhar progressivamente para o seu objectivo e que, portanto, o BCE não precisa de continuar a oferecer tantos estímulos à economia. Um dos sinais, afirmou Draghi, vem dos salários, onde se assiste finalmente a uma subida mais próxima do que seria de esperar face ao cresceimento da economia e à redução da zona euro de que a zona euro tem vindo a beneficiar.

Ainda assim, depois de todas essas justificações para o fim das compras de dívida pública, Draghi gastou quase tanto tempo a dar garantias de que outras medidas de estímulo, como a manutenção das taxas de juro a níveis mínimos históricos, são para manter durante mais algum tempo.

Na passada quinta-feira, o BCE tinha garantido que as taxas se manteriam pelo menos “durante o Verão de 2019”. Draghi acrescentou a ideia de que o BCE será “paciente” na escolha do momento de subir taxas de juro e que assim esse processo se iniciar será sempre conduzida de forma progressiva.

As garantias de Draghi foram dada num dos países que mais pode ter a perder com uma inversão significativa da política monetária do BCE. Portugal, com os seus elevados níveis de dívida pública e privada pode ressentir-se, não só com o fim das compras de dívida pública por parte do banco central, como seria afectado por uma subida das taxas de juro de referência, que rapidamente se reflectiriam num aumento das taxas Euribor, às quais estão indexados muitos dos empréstimos concedidos em Portugal.