Crítica

A feira das ladras

A versão girl power de Ocean’s Eleven é gelado de marca branca que engana o paladar em vez da luxúria artesanal do original de Soderbergh.

Falta a Ocean’s Eight a leveza, a precisão, o virtuosismo,  em suma, o swing dos originais
Fotogaleria
Falta a Ocean’s Eight a leveza, a precisão, o virtuosismo, em suma, o swing dos originais
Sandra Bullock, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Ocean's 8, Onze do Oceano, Debbie Ocean, Ocean's
Fotogaleria
8 do oceano, Helena Bonham Carter, Oceano de Danny, Oceano de Debbie, Oceano, cinema, filme do assalto
Fotogaleria
Anne Hathaway, Sandra Bullock, Ocean's 8, Met Gala, Debbie Ocean, Museu Metropolitano de Arte, Ocean's
Fotogaleria
Sandra Bullock, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Minding Kaling, Ocean's 8, Danny Ocean, Gary Ross, Onze do Oceano, Debbie Ocean, Oceano
Fotogaleria

O facto de ter havido duas sequelas inferiores e de agora surgir esta versão inteiramente feminina não fará nunca esquecer a perfeição do Ocean’s Eleven que Steven Soderbergh dirigiu em 2001. Esse remake de um filme menor do Rat Pack de Sinatra & cª, infinitamente superior ao original, era a cristalização purificada da essência do heist movie, e uma demonstração de virtuosismo estilístico escondida por trás do grande espectáculo popular. Escusado será dizer, nem Ocean’s Twelve nem Ocean’s Thirteen (mesmo que assinados por Soderbergh) são recordados com o mesmo carinho. E se no papel poderia haver algo de subversivamente contemporâneo na ideia de uma variação inteiramente feminina sobre o tema, em que os 11 homens profissionais do crime de George Clooney são convertidos em oito mulheres profissionais do crime sob a liderança de Sandra Bullock, Ocean’s Eight só muito a espaços cumpre essa subversão.

Essencialmente, este é um remake do filme de 2001 que se limita a trocar o sexo: quem sai da prisão é Bullock (cuja Debbie Ocean é a irmã de Clooney), e o seu golpe impossível (roubar uma jóia valiosa durante a gala do Metropolitan Art Museum de Nova Iorque) envolve igualmente uma relação passada (Richard Armitage em vez de Julia Roberts). Ora, Gary Ross (Pleasantville, Os Jogos da Fome), por muito que tente, não é Soderbergh (aqui apenas produtor). Falta a Ocean’s Eight a leveza, a precisão, o virtuosismo, em suma, o swing dos originais, substituído por um profissionalismo eficaz mas francamente anónimo que não é capaz sequer de aproveitar o elenco em ouro que tem à frente. Onde Soderbergh foi capaz de explicar com duas cenas toda uma personagem (e tinha muitas mais do que aqui), de criar um grupo que respirava como um todo, Ross não consegue mais do que apontamentos que desaproveitam o talento reunido (raramente teremos visto Cate Blanchett tão apagada) ou as encerram em gavetas (o número de excêntrica que há muito conhecemos a Helena Bonham Carter).

O que se salva, então, deste entretenimento de verão? Anne Hathaway, numa extraordinária performance cómica que a confirma actriz sistematicamente subaproveitada pela Hollywood contemporânea, roubando completamente o filme; e James Corden que, entrando apenas já no último acto, lhe dá uma fervilhante injecção de energia. Ocean’s Eight é melhor por eles fazerem parte do filme, mas onde antes tínhamos gelado de luxo, Ross fica-se pelo gelado de marca branca que engana o paladar mas não é a mesma coisa. Soderbergh habituou-nos mal, agora paciência.