Presidente da Audi detido por causa do dieselgate

Pressionado pelo escândalo das emissões fraudulentas, Rupert Stadler foi detido preventivamente nesta segunda-feira.

Rupert Stadler dirigia a Audi há 11 anos
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Rupert Stadler dirigia a Audi há 11 anos LUSA/LUKAS BARTH

Dias depois de se saber que a Volkswagen (VW) aceitou pagar uma multa de mil milhões de euros, por causa da fraude com a medição de emissões gasosas em carros com motor diesel, eis que a indústria automóvel alemã sofre outro abalo: o presidente da Audi (subsidiária da VW), Rupert Stadler, foi detido nesta segunda-feira de manhã, devido ao mesmo caso, que ficou para a história como o dieselgate. Presente a um juiz de Munique, este ordenou a sua prisão preventiva, por causa do risco de destruição ou ocultação de provas, segundo informam as edições online de alguns jornais alemães.

Stadler, de 55 anos, dirige a Audi há 11 anos. Há uma semana, o Ministério Público anunciou que ele e outro membro da administração da Audi estavam indiciados pelos crimes de fraude, após a investigação preliminar da justiça alemã, noticia a Spiegel. O processo tem neste momento 20 arguidos e Radler é responsabilizado por não ter mandado travar a venda de carros equipados com software que manipulava as medições de gases poluentes, levando assim a apresentar valores mais baixos do que os reais.

A polícia alemã fez buscas nas casas de Stadler e de um ex-director de desenvolvimento de motores da Audi. A sede da Audi também já tinha sido alvo de duas incursões judiciais em duas ocasiões, Março de 2017 e Fevereiro de 2018. Segundo o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, os procuradores envolvidos na investigação deram credibilidade a correspondência encontrada nas buscas e que indiciam que Stadler e outros administradores e responsáveis da Audi conheciam o problema e teriam tentado ocultá-lo.

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Herbert Diess (esq.), líder da VW, estava a contar com Rupert Stadler para a reorganização do grupo REUTERS/Michael Dalder

Herbert Diess, líder da VW, prometeu reformar a gestão da casa-mãe da Audi e do grupo, na sequência deste escândalo de proporções mundiais. Segundo a imprensa alemã, Stadler fazia parte dos planos de Diess para uma nova vida do fabricante alemão. Uma equação que, pelo menos para já, ficará em aberto.

Detido em casa

De acordo com a imprensa alemã, Stadler foi detido em casa, em Ingolstadt (Baviera). "No âmbito de uma investigação relacionada com motores diesel da Audi, a procuradoria de Munique executou um mandado de detenção emitido contra o Professor Rupert Stadler", comunicou a procuradoria. Tanto a Audi como a VW (sediada em Wolfsburgo) apressaram-se a pedir respeito pela presunção de inocência a que o detido tem direito. A Porsche SE, holding sediada nos arredores de Estugarda que é a maior accionista (31,5%) da VW, anunciou, por seu lado, que a detenção em causa irá ser analisada nesta segunda-feira pelo conselho de supervisão.

O Süddeutsche Zeitung, de Munique, acrescenta que Stadler deveria dirigir-se nesta manhã para Wolfsburgo, para participar nessa reunião, cuja agenda era outra e vai ser necessariamente mudada.

A Reuters refere que a Audi terá vendido cerca de 220 mil viaturas a diesel equipados com o software que manipulava a medição dos níveis de emissão de gases poluentes.

A casa-mãe da Audi confirmou a detenção de Stadler, através de um porta-voz, remetendo mais comentários para depois. Do ponto de vista da hierarquia, Stadler é o mais graduado executivo a ser detido no âmbito do dieselgate.

Trambolhão na bolsa

A cotação das acções da VW no mercado alemão estavam a cair 3%, depois de a detenção ter sido divulgada.  Em Maio, a Audi tinha admitido que 60 mil unidades dos modelos A6 e A7 equipados com motor a gasóleo tinham problemas com o referido software. Esta quantidade junta-se aos mais de 850 mil carros que a Audi tinha chamado às oficinas em 2017, para verificações.

O dieselgate começou nos EUA, onde foi detectada pela primeira vez, em 2015, a utilização abusiva de um software fraudulento que baixavam artificialmente as leituras de gases poluentes emitidos por uma diversidade de motores germânicos. A VW confessou ter vendido 600 mil unidades com este problema nos EUA. Em todo o mundo, haverá 11 milhões de carros desta marca equipados com o mesmo sistema.

Nos EUA, a VW pagou até agora 4000 milhões de euros em multas relacionadas com este caso, depois de ter chegado a um acordo com os reguladores norte-americanos.

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Os riscos de sonegação de informação ou ocultação de provas que agora levaram à detenção do primeiro executivo de topo de um fabricante germânico de carros eram reais segundo a justiça bávara, que não terá ignorado o facto de já em Janeiro de 2017 a VW ter sido acusada de destruir ficheiros e emails quando o dieselgate foi conhecido. No mesmo ano, um estudo publicado na revista científica Nature indicava que o dieselgate fora responsável por 38 mil mortes prematuras.

Um ano antes, em 2016, a Comissão Europeia abriu processos contra sete Estados-membros, incluindo Alemanha e Reino Unido, por não terem cumprido as obrigações face às manipulações de emissões de gases em carros da VW.