Opinião

A Europa e toda a miséria do mundo

O problema migratório é o desafio existencial mais sensível que hoje se coloca à Europa.

“Vitória!”, exclamou Matteo Salvini, líder da Liga e vice-presidente do novo Governo de Roma, todo ufano por ter proibido o desembarque dos 629 imigrantes recolhidos pelo Aquarius nos portos italianos. Se a desumanidade é sempre repugnante e obscena, a exibição de Salvini reflecte bem a imagem dos populistas de extrema-direita que estão a minar os alicerces da União Europeia. Não acontece apenas em Itália mas na generalidade dos países do Leste, Norte e Centro da Europa, onde cresce a chantagem populista a pretexto da vaga migratória – mesmo onde ela não se faz sentir ou é um fantasma projectado pelo medo, incluindo um que até pode ser real: o terrorismo.

Quaisquer veleidades de reforma das instituições europeias, de que Macron pretendia ser o inspirador e campeão – mas precisando para isso da cumplicidade de Merkel –, estão hoje condicionadas pela pressão que a extrema-direita tem colocado sobre a direita tradicional, receosa de perder terreno no plano social e eleitoral para os seus concorrentes populistas (é o caso dos aliados mais conservadores de Merkel). Macron ensaiou uma reprovação moral da atitude de Salvini, mas acolheu no Eliseu o novo chefe do Governo italiano, Giuseppe Conte, com quem acabaria por mostrar-se compreensivo, reincidindo numa duplicidade apaziguadora já ensaiada com Trump, mas cujos limites – e hipocrisia – estão bem à vista. Aliás, a política migratória do Governo francês tem sido criticada pela sua insensibilidade (não apenas à esquerda e por intelectuais conhecidos, como o Nobel da Literatura Le Clézio, mas também entre apoiantes de Macron).

Quem terá querido salvar a honra dos valores humanistas europeus foi o novo Governo socialista espanhol, quando se propôs acolher os imigrantes a bordo do Aquarius, mas percebeu-se depois que essa abertura não seria tão generosa como pareceu à primeira vista. Ora, isso foi aproveitado por Macron para um novo volte-face, ao anunciar que a França estava disposta a acolher uma parte desses imigrantes. Coincidência: ao mesmo tempo, Merkel distanciava-se dos seus aliados mais conservadores da Baviera, apesar da chantagem da extrema-direita, arriscando uma ruptura na coligação.

Mas para além destes jogos de poder, o problema migratório é, de facto, o desafio existencial mais sensível que hoje se coloca à Europa, pelo menos aquele que condiciona todos os outros, independentemente da irracionalidade dos medos inspirados por uma vaga que se avolumou notoriamente depois da guerra na Síria mas que logo ultrapassou o universo dos refugiados desse conflito sangrento. Com efeito, dos 629 imigrantes registados no Aquarius nenhum é de origem síria mas provenientes de 26 nacionalidades (a grande maioria africanos, de países tão diversos como a Argélia, Marrocos, Sudão do Norte e do Sul, Etiópia e Eritreia, Somália, Costa do Marfim, Senegal e Nigéria, mas também do Afeganistão, Paquistão e Bangladesh). Já não estamos perante refugiados de guerra, mas de imigrantes movidos pela pobreza extrema, aliciados por redes de traficantes e em busca de um mítico el dorado europeu.

Regressamos, assim, à tão citada frase de Michel Rocard: “A Europa não pode acolher toda a miséria do mundo.” Pois é cada vez mais óbvio que não pode, por muitos argumentos que se avancem sobre o crescente défice demográfico de que sofrem tantos países (incluindo o nosso). Mas para fazer face a isso – e para além das falsas soluções securitárias e repressivas, tão ao gosto dos populistas – seria preciso colocar em primeira linha uma estratégia consequente, europeia, de ataque ao problema. Se não há soluções mágicas para uma questão que condiciona todas as outras, é absolutamente prioritário que todos os meios sejam mobilizados tendo em vista a sobrevivência da Europa e, também, dos imigrantes que a buscam já não apenas para escapar às guerras mas à procura de um destino que a Europa não está, actualmente, em condições de oferecer-lhes.