Opinião

Temos a responsabilidade de investir nas pessoas e de desenvolver uma globalização justa que sirva todos

No âmbito da edição de 2018 do Dia do Jornalismo de Impacto, o Secretário-Geral da ONU analisa o caminho a percorrer para atingir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

A identificação e partilha de iniciativas positivas levadas a cabo por cidadãos, empreendedores sociais, governos e organizações institucionais traz-nos esperança e pode ajudar-nos a superar obstáculos e a alcançar os nossos objectivos globais em conjunto.

Há três anos, os líderes mundiais adoptaram unanimemente Agenda Global para o Desenvolvimento Sustentável 2030. A negociação neste contexto de um melhor futuro e dos respectivos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável durou três anos e implicou centenas de reuniões, milhares de documentos e milhões de pessoas – essa foi a parte fácil. O trabalho mais difícil está a decorrer: pôr o plano em prática.

Os Objectivos foram adoptados com um entusiasmo justificável abrangendo tudo desde a energia à educação, passando por infra-estruturas, instituições, urbanização e inovação. São um roteiro holístico para fazer face às adversidades do mundo, aplicam-se a todos os países, reflectem as prioridades de todos os países e foram acolhidos por todos os países. Presidentes e primeiros-ministros deram o seu apoio à principal promessa dos Objectivos, a de não deixar ninguém para trás.

Ao terceiro ano de implementação, continuamos a ganhar ímpeto. Muitos países estão a conciliar as suas políticas e orçamentos com os Objectivos; cada vez mais empresas estão a reconhecer oportunidades para investir em novas tecnologias, abrir novos mercados e desenvolver a economia sustentável e inclusiva do século XXI. As organizações da sociedade civil estão a recorrer a estes Objectivos globais para promover mudança a nível local.

No entanto, o progresso é demasiado lento para cumprir as metas até 2030. Os conflitos armados e as crises humanitárias estão a desviar o nosso percurso e é particularmente urgente que se actue em três áreas.

Primeiro, as alterações climáticas. Os nove anos mais quentes desde que há registo ocorreram nos últimos 13 anos. No último ano, o custo económico de catástrofes relacionadas com alterações climáticas atingiu um novo recorde – 320 mil milhões de dólares. Vidas estão a ser destruídas e é necessária mais ambição, incluindo um corte de 25 por cento nas emissões até 2020. Estes são os factos, mas felizmente existe outra realidade onde há mais esperança: a energia limpa está mais acessível e competitiva do que nunca. Recentemente, a Organização Internacional do Trabalho reportou que as políticas económicas ecológicas de senso comum podem criar 24 milhões postos de trabalho até 2030. As alterações climáticas continuam a avançar a um passo mais rápido do que o nosso e o desafio que temos pela frente consiste em inverter essa situação.

Em segundo lugar, e à semelhança das temperaturas, a desigualdade continua a aumentar. A globalização trouxe consigo benefícios notáveis: o aumento da riqueza, um crescimento global da classe média e importantes avanços contra a pobreza. No entanto, mais de 800 milhões de pessoas continuam a viver em condições de pobreza extrema e muitas pessoas, sectores e regiões sentem que estão a ser deixados para trás, excluídos da sua parte desta prosperidade visível, o que compromete a coesão social e acentua o apelo do populismo e da xenofobia. Temos a responsabilidade de investir nas pessoas e de desenvolver uma globalização justa que sirva todos.

Por último, não será possível combater a desigualdade ou travar as alterações climáticas, nem atingir nenhum dos nossos objectivos partilhados, sem capacitar as mulheres e raparigas em todo o mundo. Ainda assim, há ainda uma discriminação de género enraizada e a representação feminina na vida política e no mundo empresarial, embora maior, tem crescido a um ritmo lento. Mesmo no universo familiar, as vozes das mulheres são frequentemente abafadas, e a violência e o assédio estão omnipresentes, muitas vezes de forma impune. É fundamental alterar as dinâmicas de poder – é uma questão de direitos básicos, mas também porque a participação das mulheres torna as economias mais dinâmicas, as sociedades mais resilientes e os acordos de paz mais duráveis.

O desenvolvimento sustentável também depende da preservação dos direitos humanos e da garantia da paz e da segurança. Afinal de contas, não deixar ninguém para trás é ajudar primeiro os mais desfavorecidos: aqueles que enfrentam conflitos armados, falhas nos sistemas de governo, e repressão e instabilidade políticas. Por esta razão, o âmbito de trabalho inclui um objectivo dedicado a sociedades inclusivas, ao acesso à justiça e à responsabilização das instituições. O desenvolvimento sustentável é um fim, mas é também a melhor forma de impedir crises e de construir um mundo mais seguro.

Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável estarão presentes até ao ano 2030, mas já hoje temos de olhar para o horizonte mais distante que as questões transfronteiriças delineiam. A inovação tecnológica continua a oferecer respostas a muitos desafios importantes, mas os desenvolvimentos nos campos da inteligência artificial, manipulação genética e ciberespaço têm também os seus lados obscuros que irão agitar os mercados de trabalho, a segurança a nível global e a sociedade em geral. Temos de trabalhar conjuntamente com todas as indústrias e garantir que os benefícios da quarta Revolução Industrial sejam desfrutados por todos. 

Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável representam o nosso caminho para um mundo mais justo, pacífico e próspero, assente num planeta mais saudável, mas são também uma convocatória à solidariedade intergeracional. Não há dever maior do que o investimento no bem-estar dos jovens para que estes possam utilizar todo o seu potencial. Estou determinado em garantir que as Nações Unidas, de forma eficaz e com as devidas reformas, estejam à altura do desafio de capacitar as pessoas em todo o mundo no presente e no futuro, atender às suas necessidades e concretizar as suas aspirações.

Tradução de Francisco Ferreira