EUA separaram 2000 crianças das famílias na fronteira em seis semanas

“Odeio que as crianças estejam a ser levadas”, diz Trump. Mas foi a sua Administração que decidiu acusar criminalmente os adultos que vêm do México. Pediatras falam em “danos irreparáveis” para os menores envolvidos.

Fronteira entre México e Estados Unidos, Sede do Setor de Patrulha de Fronteiras dos EUA, Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos
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Nas seis semanas contabilizadas pela Administração entraram nos EUA mais crianças do que adultos Loren Elliott/Reuters
Jack Kelley, barreira México-Estados Unidos
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Agente da patrulha fronteiriça a tapar uma abertura na vedação Adrees Latif/Reuters

Já se sabia que as ordens tinham mudado, que os adultos estavam a ser detidos e as crianças que com eles passam o México e chegam ao lado americano da fronteira retiradas aos cuidados dos seus familiares. Estimava-se que seriam 700 desde Outubro mas a realidade só pode ser muito superior: o Departamento de Segurança Interna diz agora que só entre 19 de Abril e 31 de Maio 1995 crianças foram separadas de 1949 adultos, alvo de processo criminais.

Não se sabe a idade destes menores, mas têm sido divulgadas imagens de crianças muito pequenas. Há uns meses estavam a ser recebidas em centros de detenção no Texas ou colocadas em casas de acolhimento de crianças para adopção. Agora, diz a Casa Branca, estão a ser levadas para um acampamentos de tendas no mesmo estado. O processo é gerido pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

Este é o resultado da política de” tolerância zero” decidida pela Administração de Donald Trump e defendida nos últimos dias com recurso a citações da Bíblia pelo seu attorney general (procurador-geral, responsável pelo Departamento de Justiça), Jeff Sessions, e pela porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders. Face a repetidas perguntas dos jornalistas, esta insistiu, na quinta-feira, que “fazer cumprir a lei” é algo defendido em “várias passagens bíblicas”.

As perguntas às quais Sanders se escusou a responder, referindo “as leis da nação” que “antes não eram cumpridas” e responsabilizando os democratas por não ter sido ainda possível alterar as leis sobre imigração, surgiram depois de uma intervenção de Sessions, horas antes.

Respondendo ao cardeal católico Daniel DiNardo, que afirmou que separar mães de bebés é “imoral”, Sessions evocou uma passagem da Bíblia para justificar esta política. “Citaria o Apóstolo Paulo e a sua ordem clara e sábia, em Romanos 13, onde diz que obedeçam às leis do Governo porque Deus as ordenou com o propósito da ordem”. E acrescentou: “Os processos legais e ordeiros são bons por si próprios e protegem os fracos.”

“A anterior Administração não acusava os imigrantes ilegais que entravam no país com crianças”, disse Sessions, numa intervenção em Fort Wayne, na Virgínia. “Era na realidade [uma política de] portas abertas”. O que acontecia antes era que a maioria dos que entrava irregularmente no país pela primeira vez não era acusada criminalmente, sendo considerado que tinha cometido uma infracção (ou delito menor).

Apesar de haver famílias separadas antes, foi em Abril que Sessions decidiu acusar todos os que atravessam a fronteira, incluindo os que o fazem acompanhados de crianças pequenas.

“Os democratas estão a forçar a separação de famílias na fronteira com a sua agenda legislativa cruel e horrível”, escreveu entretanto Trump no Twitter, numa tentativa de conquistar a opinião pública. “Odeio que as crianças estejam a ser levadas”, garantiu na sexta-feira através da mesma rede social.

Ryan desconfortável

O apontar de dedo aos democratas começa a soar demasiado a desculpa esfarrapada, mesmo porque são vários os republicanos que se opõem à actual política. Falando a jornalistas, o presidente da Câmara dos Representantes (que anunciou em Abril não pretender recandidatar-se em Novembro), Paul Ryan, afirmou não se “sentir confortável” com as “actuais tácticas” praticadas na fronteira onde Trump prometeu erguer um muro.

E esta política, que a ONU pediu que seja imediatamente travada, já abre brechas na base conservadora de apoio ao Presidente. Depois de a Conferência de Bispos Católicos e da Convenção Baptista do Sul terem divulgado comentários a criticar a separação das famílias, o reverendo Samuel Rodriguez, que liderou uma oração na tomada de posse de Trump, assinou uma carta onde descreve esta prática como “horrível”. Outro apoiante do chefe de Estado, o pastor Franklin Graham, que até agora o apoiara em todas as polémicas, falou numa política “terrível” e “vergonhosa”, escreve o jornal Washington Post.

A Academia de Pediatras Americanos diz que esta prática provocará “danos irreparáveis” nas crianças afectadas.

De acordo com o mesmo diário, a ideia de Trump é insistir nesta política para forçar os democratas a sentarem-se à mesa e a votar com os republicanos. Uma estratégia à imagem da que adoptou o ano passado, quando quis ganhar apoios para as suas exigências sobre imigração ameaçando retirar (e retirando) a protecção dada por Barack Obama aos que entraram nos EUA quando eram crianças.

Gastar dinheiro

São os chamados Dreamers, perto de 800 mil pessoas que chegaram levadas pelos pais e estavam protegidas pela lei DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), aprovada em 2012 pelo anterior Presidente. Sem lhes conceder a cidadania, a lei dava uma protecção renovável de dois em dois anos a estas pessoas, impedindo que fossem deportadas – muitas nem falam a língua dos pais nem visitaram nunca os países de origem, estudando ou trabalhando há anos nos Estados Unidos.

A estratégia de Trump fracassou e o Congresso nunca chegou a acordo para uma nova lei que substitua a DACA. Tanto num como noutro partido, os congressistas não vêem grandes possibilidades de conseguirem aprovar uma nova lei geral de imigração (pondo fim à separação das famílias). Apesar de tudo, os líderes republicanos estão a tentar mediar um entendimento entre conservadores e moderados para uma proposta que permita às famílias permanecerem unidas, ao mesmo tempo que desbloqueie mais fundos para o muro, ofereça um caminho para a cidadania aos Dreamers e impondo novos limites à imigração legal.

A Casa Branca deu sinais que apoiaria esta lei se os legisladores a conseguirem aprovar. Mas alguns republicanos de linha dura recusam apoiar qualquer texto que abra a porta a conceder cidadania aos que chegaram quando eram crianças ou que mantenha as famílias actualmente a serem separadas juntas, ao mesmo tempo que não será fácil conquistar democratas para uma proposta que desse mais dinheiro para construir o muro.

Numa entrevista, o republicano Steve King, membro da Câmara dos Representantes eleito pelo Iowa, justificou: “Não vejo uma razão para gastar dinheiro nisso”, referindo-se a qualquer tentativa para não separar as crianças das suas famílias.