Crónica

Quando um filme superou a barreira das "duas Macedónias"

Para os gregos, a Macedónia não é apenas uma província, é um património histórico de máximo valor nacionalista, berço de Alexandre Magno.

A cena ocorreu em 1994, em Salónica, capital da Macedónia, no Norte da Grécia. Para os gregos, a Macedónia não é apenas uma província, é um património histórico de máximo valor nacionalista, berço de Alexandre Magno, de onde ele tinha partido para construir um império. 

Mas nos Balcãs vivia-se então uma situação conturbada com o desmembramento da Jugoslávia, e na Bósnia-Herzegovina perdurava mesmo um sangrento conflito (os acordos de paz de Dayton seriam assinados apenas no ano seguinte). Acrescia um conflito diplomático: a Grécia recusava-se a reconhecer uma das repúblicas da ex-federação, aquela mais a sul, a Macedónia. A designação era património grego, nem pensar em reconhecer esse nome noutra entidade! 

A História era acidentada. De facto, quando ocuparam os Balcãs e a Grécia, os romanos integraram um antigo reino, a Paónia, na Macedónia, o que perdurou durante o Império Otomano. Mas em 1913, após a Segunda Guerra dos Balcãs, esse território foi incorporado na Sérvia, tornando-se a seguir à II Grande Guerra uma das repúblicas da federação jugoslava, precisamente com o nome de Macedónia.

Quando a independência foi declarada, em 1991, a Grécia, oponente feroz, moveu todos os esforços, na Comissão Europeia e nas Nações Unidas, para que a nova república não fosse reconhecida enquanto mantivesse o nome de Macedónia. Um termo provisório viria a ser adoptado, o do FYROM, Former Yugouslavian Republic of Macedonia, “antiga república jugoslava da Macedónia” – algo de inédito no mundo, isto de um estado ter um nome provisório! Mas como os gregos continuavam a sentir-se ultrajados, várias outras designações foram sendo aventadas ao longo dos anos, por exemplo República de Skopje (a capital).

Em 1994 a disputa estava ao rubro.

Encontrava-me em Salónica para o Festival Internacional de Cinema, que tem duas competições, uma nacional, e outra internacional, especificamente para primeiras obras. Estava lá para integrar o júri da segunda, presidido por um mestre do cinema, o brasileiro Nelson Pereira dos Santos (falecido há algumas semanas).

Em Salónica, na Macedónia, há um culto obsessivo de um remoto passado glorioso. O aeroporto chama-se Megalexandros, nós estávamos instalados num hotel de nome Megalexandros, situado na artéria principal da cidade, a marginal, de designação, inevitavelmente… Megalexandros, isto é, à letra, Alexandre, o Grande, que referenciamos como Alexandre Magno.

Embora a minha estrita obrigação fosse ver primeiras obras, tenho sempre em festivais a curiosidade de ver mais. E um filme particularmente chamou-me a atenção.

Não tinha ido ao Festival de Veneza. O Leão de Ouro tinha sido atribuído ex-aequo a Vive l’Amour do taiwanês Tsai Ming-Liang e a Before the Rain de Milcho Manchevski, o primeiro filme realizado na FYROM. Precipitei-me para ver este, apresentado numa sala de cinema chamada… Macedónia! E foi assim que testemunhei como um filme superou as barreiras entre as “duas Macedónias”!

Mais de 20 anos passaram, a situação absurda de um país ter um nome provisório manteve-se. Anuncia-se agora um acordo pela qual a FYROM adoptará o nome Macedónia do Norte (uma das diversas hipóteses recusadas pela Grécia no passado, diga-se). Mas sejamos prudentes: não é nada ainda seguro que o parlamento grego aprove o acordo, não só pela hostilidade já declarada da oposição da Nova Democracia, como porque o insólito aliado do Syriza no governo são os Gregos Independentes, conservadores nacionalistas, que dificilmente se imagina possam aceitar o acordo.

Entretanto, revivo as imagens de uma sala de cinema de nome Macedónia, em Salónica, a abarrotar para ver um filme provindo do lado adversário na disputa pelo nome.