Rosa Madeira, o relojoeiro que desvendava os segredos de outros tempos

A descoberta da escrita do Sudoeste da Península Ibérica está associada a José Rosa Madeira, “um homem invisível” — e avô do ministro da Cultura — que aprendeu a ler nas pedras a história da humanidade

Projecto Estela
Fotogaleria
Projecto Estela Pedro Barros
,
Fotogaleria

Uma das primeiras estelas com a escrita do Sudoeste da Idade do Ferro, entregues no museu municipal de Faro foi oferecida por um relojoeiro que passava grande parte do seu tempo de lazer a desvendar os segredos da história. José Rosa Madeira (1890-1941), avô do actual ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, é neste sábado homenageado na sua terra-natal, freguesia do Ameixial (Loulé). O neto preside à cerimónia inaugural da escultura evocativa do “homem invisível, muito à frente do seu tempo” que se entregou à descoberta da escrita de há 2500 anos

O artista plástico Miguel Cheta, autor da peça, inspirou-se no lado “quase clandestino” de uma pessoa que recolheu cerca de 90 peças de arqueologia e etnografia, que integram as colecções do Museu Municipal de Faro e Museu Nacional de Arqueologia. A primeira estela foi descoberta no Monte da Portela, um dos sítios da freguesia do Ameixial que se encontra em processo acelerado de despovoamento. A média de ocupação deste território, na serra do Caldeirão, situado no limite do concelho de Loulé com o Alentejo, é de apenas de 3,5 habitantes por hectare.

Miguel Cheta implantou na praça central da aldeia uma peça de arte contemporânea, rompendo com algumas convenções. “A escultura é uma desconstrução do busto”, diz o autor, destacando que se serviu de um texto, da autoria do arqueólogo Pedro Barros, para definir a forma da linha metafórica da personalidade do homenageado. O contorno do busto, explica, está acima do olhar. As letras que narram a biografia integram a peça, feita em aço Corten, com 2,10 metros — pesa mais de uma tonelada. Entrar no seu interior é percorrer o mundo de José Rosa Madeira, que foi relojeiro em Loulé, onde fez amizade com António Aleixo, tornando-se admirador e divulgador dos seus versos. A relação que tinha com o tempo, refere Pedro Barros, está também patente no gosto pela imagem. “Foi um dos primeiros utilizadores da fotografia no concelho de Loulé”

O museu Municipal de Faro fez, em 2014, uma exposição dedicada ao acervo de José Rosa Madeira, lembrando que a sua recolha “constitui uma das mais importantes colecções do museu, quer em qualidade, quer em quantidade”. Em termos cronológicos, abrange da pré-história à época moderna. Em Lisboa, no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), do conjunto das 40 estelas ali depositadas, cinco foram encontradas por Rosa Madeira no Ameixial. Na Península Ibérica são conhecidas cerca de uma centena de estelas, que se estendem de Sevilha a Lagos (Bensafrim) e de Lagos a Cáceres.

O arqueólogo Pedro Barros, um dos responsáveis pelo Projecto Estela, juntamente com o colega Samuel Melro, diz que Rosa Madeira sabia “identificar bem” as estelas que fazem parte da história dos montes do Ameixial, bem como interpretar o sentir da população local.

O ex-director do MNA, Manuel Heleno, num dos trabalhos que publicou sobre a escrita do Sudoeste, refere-se a Rosa Madeira como sendo um “conhecedor da região e curioso dos assuntos arqueológicos”. Em criança chegava a calcorrear cerca de 30 quilómetros a pé para ir à escola de 15 em 15 dias. “Quis mostrar neste trabalho a sua persistência e o gosto por aprender”, concorda Miguel Cheta. O amor pela sua terra, mais tarde, levou-o a oferecer o primeiro relógio da torre sineira da Igreja de Santo António, no Ameixial.

As caminhadas do Walking Festival Ameixial é um dos programas que, nos últimos anos, tem vindo a ser realizado nesta freguesia para chamar a atenção da riqueza paisagística e cultural da zona serrana. Sobre José Rosa Madeira, a câmara de Loulé diz que é um “homem singular a quem o país deve parte da sua história e identidade”.

Miguel Cheta criou um retrato do “homem invisível”, lembrando que descobrir as estelas da Escrita do Sudoeste não foi tarefa fácil “Só um indivíduo com predisposição para ver o quase invisível as detectava”, remata. O neto, ministro da Cultura, vai nesta sábado em busca das raizes familiares. A inauguração é às 14h30.