A cidade cresceu por onde lhe deram de beber

Pode a história da expansão de Lisboa contar-se pelos seus bebedouros? No ano em que se comemora o 150.º aniversário da EPAL, regressamos aos núcleos do Museu da Água para ver como as diferentes fases de abastecimento foram transformando a cidade. Do alto do aqueduto ao subterrâneo das galerias.

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“Aqui temos a nossa máquina a vapor, uma jóia de arqueologia industrial”, aponta Margarida Filipe, técnica do serviço educativo do Museu da Água de Lisboa. À nossa frente, um dos quatro volantes imensos roda ao toque de um botão, dando arranque a uma sucessão de engrenagens, que sobem e descem e giram. Apitam e silvam num ronco ensurdecedor que contrasta com a suavidade dos movimentos das peças de diferentes tons metalizados, tão polidas ao longo da sala límpida que custa acreditar que o trabalho aqui foi duro, quando a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos laborava continuamente ao ritmo das caldeiras a carvão.

Durante quase 50 anos, a água que chegava do rio Alviela era aspirada e comprimida por estas máquinas, para fazê-la subir pela canalização até às zonas mais altas da cidade. “O que a máquina fazia era gerar energia para que a água atingisse velocidade suficiente para virar a rua, subir a calçada dos Barbadinhos e chegar aos reservatórios da Penha de França e da Verónica”, explica Margarida Filipe. Dali, o líquido precioso seguia para a zona do arco das Amoreiras e depois para o reservatório da Patriarcal, no Príncipe Real. Mas aí já era a velha força da gravidade a delinear o caminho, tal como em todo o sistema protagonizado pelo Aqueduto das Águas Livres. O que a tecnologia do vapor trazia era possibilidade de contrariar o destino e vencer as colinas, levando a cidade a novos bairros. “Foi um marco”, define a responsável. A infra-estrutura, inaugurada em 1880, tornar-se-ia obsoleta com a chegada da electricidade a Portugal, em 1928, substituída pela maquinaria eléctrica que se encontra para lá das janelas e que ainda hoje faz parte do abastecimento de água na capital portuguesa.

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Dos quatro núcleos do Museu da Água espalhados pela cidade, a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos é a mais recente, como se começássemos a contar pelo fim a história da distribuição de água em Lisboa. Mas é aqui que damos início à visita, não só porque o edifício do século XIX é sede do museu, com a exposição permanente disposta em painéis modernos na antiga sala das caldeiras, como foi com a estação e o aqueduto do Alviela, que a serve, que nasceu a Companhia das Águas de Lisboa, em 1868, empresa que anos mais tarde se transformaria na EPAL. É esta data, e o seu redondo aniversário, que a empresa está a comemorar este ano, com entradas gratuitas nos diferentes núcleos do museu ao fim-de-semana e um programa diverso de actividades (ver caixa).

Do arco do aqueduto ao arco das Amoreiras

Mas voltemos ao princípio. Aos tempos em que a cidade pouco se afastava da zona de Alfama, por ser ali que a bacia hidrográfica existente dava de beber ao povo. Conta Margarida que, desde os romanos, “Lisboa vai ter imensa dificuldade em conseguir ter água potável suficiente para a população”. Uma situação que se tornou mais dramática com a “grande expansão da cidade depois dos Descobrimentos”. “Vamos ter cerca de 150 mil habitantes a subsistir apenas com os chafarizes medievais.” Era tanta a escassez que os relatos da altura diziam não se conseguir distinguir “entre o que era água e o que era sangue” de “tanto nariz partido” durante as disputas junto aos fontanários.

O Aqueduto das Águas Livres, mandado construir por D. João V no século XVIII, é a “primeira solução concretizada para tentar resolver o problema”. O objectivo era recolher água de cerca de 60 nascentes na zona de Belas e transportá-la até à cidade de Lisboa, num sistema gravítico de aquedutos e galerias com um comprimento total de 58 quilómetros. “É uma obra que vai demorar imenso tempo.” O imposto Real de Água, cobrado sobre os bens de primeira necessidade, vai começar a ser recolhido em 1728 e só terminará em 1799. As obras vão prolongar-se por mais 35 anos.

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A travessia sobre o vale de Alcântara, no entanto, já estaria terminada em 1744, tendo sobrevivido ao grande terramoto de Lisboa, onze anos depois, com pouco mais danos que umas “rachinhas”. É sobre o icónico troço do aqueduto, mais precisamente no cimo do maior arco do mundo construído em alvenaria de pedra, que nos encontramos agora, de olhos sobre um mar de vias rápidas e casario desengraçado. O arvoredo de Monsanto sobe à nossa frente, enquanto lá ao fundo vislumbramos uma nesga de rio e a Ponte 25 de Abril. O arco que pisamos, lê-se numa placa de pedra, tem 296,75 palmos ou 65,29 metros de altura e 131 palmos (28,86 metros) de largura entre os pegões. Recentemente descobriu-se que no interior dos arcos de pedra sobe “uma infra-estrutura em ferro que suporta o aqueduto”, revela Margarida pouco antes de continuarmos caminho.

Apesar de a arcaria em pedra ser de inspiração romana, “o aqueduto também é uma das peças barrocas na cidade de Lisboa”, defende a responsável. Por isso, o estilo arquitectónico acaba por ser “muito diferente em meio rural e depois em meio urbano”. “O rei queria que quando o aqueduto chegasse a Lisboa entrasse com uma estética pujante [na cidade], daí que todos os elementos tenham sido revistos e com muito detalhe.” Os lanternins que sobem acima da galeria do aqueduto, por exemplo, foram acrescentados depois, para decoração mas também para servirem de respiradouros. E o arco das Amoreiras, “o nosso pequeno Arco do Triunfo”, seria “inaugurado com pompa e circunstância” por D. João V em 1748.

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É dentro dele, na galeria que corre incógnita sobre a arcada do jardim das Amoreiras, que seguimos agora em fila, até desembocarmos no varandim sobranceiro à cascata da Mãe d’Água das Amoreiras. O reservatório foi o único construído para guardar o líquido que chegava do aqueduto – tão pouco que as outras duas cisternas previstas nunca saíram do papel.

Da água nasceu uma nova cidade

Subimos, por momentos, ao terraço do Reservatório da Mãe d’Água para perceber como um líquido pode delinear uma cidade. Onde antes havia uma sucessão de grandes quintas e campos agrícolas, vão surgir novos palacetes, quarteirões endinheirados e, mais tarde, o “primeiro bairro operário” de Lisboa, com a chegada da indústria. “Vamos ter uma profunda mudança estética e urbanística desta parte da cidade, com bairros a surgir em redor dos novos chafarizes.” Rato, Bairro Alto, Campo de Santana, Necessidades, Príncipe Real. A cidade cresce e consolida-se porque tem de onde beber.

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No horizonte da Mãe d’Água começa a erguer-se a nova “zona nobre e elitista de Lisboa”. O Palácio dos Marqueses de Monforte, hoje sede do Partido Socialista, é do início do século XIX. Assim como o Palácio dos Duques de Palmela, actual Procuradoria-Geral da República, que avistamos lá ao fundo. Mais tarde, já com Marquês de Pombal, instalam-se no bairro a Fábrica das Sedas, a Fábrica dos Pentes, a Real Fábrica. “Todos estes grandes edifícios vão ser construídos aqui também porque teriam acesso directo à água.” Em primeira instância, estaria o abastecimento dos 30 novos chafarizes, mas depois vão sendo concedidos favores às classes sociais mais abastadas, com distribuição directa a alguns palácios, conventos e fábricas.

É o caso da “casa das onze portas”, como ficou conhecido o palacete cujo nicho de abastecimento vemos agora numa das paredes da Galeria do Loreto. “Retiravam o tampão que existia aqui e a água subia por pressão para um tanque que existia no jardim do outro lado”, aponta Margarida. A Galeria do Loreto é um dos cinco canais subterrâneos por onde a água corria até cada um dos chafarizes. Descemos ao túnel pela antiga Casa do Registo, no Reservatório da Mãe D’Água, e haveremos de percorrer cerca de 1,5 quilómetros (são 2835 metros no total) até ao miradouro de São Pedro de Alcântara. A meio do trajecto, vemos a ligação a outras duas galerias, a do Rato, que alimentava o antigo chafariz do bairro, e a da Esperança, que descia para São Bento.

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De Sintra a Lisboa, é possível percorrer todo o aqueduto por dentro, descendo os caminhos utilizados pelos trabalhadores que faziam a limpeza das caleiras, antigamente dispostas ao longo dos rodapés destes corredores. “Tínhamos água muito calcária a passar por canalização de pedra calcária, por isso vinham muitos sedimentos agarrados e bloqueavam as condutas”, conta a responsável. É por isso que, a partir do século XIX, a canalização de pedra vai ser substituída pelo ferro. Grossos tubos que vemos atravessarem em direcção ao Reservatório da Patriarcal, situado por baixo do lago do Jardim do Príncipe Real. É o quarto núcleo do museu, aberto apenas aos fins-de-semana, construído para receber água do rio Alviela. Tal como a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, faz parte da segunda fase de abastecimento da cidade, quando a água começa finalmente a chegar a cada casa. Daqui até à actualidade é um pulo. Em minutos estamos de volta à superfície, com parte de Lisboa aos pés.