Apoiantes de Adrião abandonam movimento com críticas à sua liderança

Dissidentes não aceitam que pessoas que estão a ser investigadas ou envolvidas em processos judicias façam parte dos órgão nacionais do PS.

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Daniel Adrião disputou as directas com António Costa para secretário-geral do PS xx direitos reservados

A decisão de manter Paulo Campos, ex-secretário de Estado das Obras Públicas de José Sócrates, nos órgãos nacionais do PS por indicação da própria lista de Daniel Adrão, abriu a porta à saída de elementos do Movimento Resgatar a Democracia (MRD), fundado há quatro anos por Adrião, que disputou as directas com o secretário-geral do PS.

Daniel Adrião integra a nova Comissão Política Nacional (CPN) do PS e com ele entraram mais nove elementos do seu movimento. O dirigente é acusado de se “vender à direcção do partido ao deixar o seu apoio implícito a António Costa, enquanto primeiro-ministro, e a Carlos César, recém-eleito presidente dos socialistas”, no Congresso do Batalha, declara Joaquim Gomes da Silva do MRD. 

Na hora de bater com a porta, este militante diz não aceitar que um movimento que faz do combate à corrupção uma das suas bandeiras, “promova” pessoas que estão sob investigação. E não fala apenas de Paulo Campos que está a ser investigado por alegada gestão danosa nas Parceiras Público-Privadas rodoviárias feitas durante a governação de Sócrates. Fala também de Ana Maria Barroso. Esta militante de Famalicão, diz, "está envolvida num processo de fraude fiscal. Em Novembro de 2016, foi detida por integrar uma rede que terá defraudado o Estado em 15 milhões de euros também”.

“Não me sinto confortável em fazer parte de um movimento que não muda nada no PS, pelo contrário, e que decide incluir nas suas listas pessoas que estão sob investigação”, afirma Joaquim Gomes da Silva, ao PÚBLICO, revelando que a sua colaboração com o MRD cessou.

Salvaguardando nada ter contra Paulo Campos, até porque não foi condenado por nada, Joaquim Gomes da Silva diz-se desiludido com o líder do MRD que – nota – “deixou cair as bandeiras" pelas quais se batiam. “Daniel Adrião anda há quatro anos candidatar-se a secretário-geral e a tentar impor as suas ideias e, ao mesmo tempo, apoia António Costa”. E afirma que o líder do movimento "é apenas mais um a quem o secretário-geral do PS prometeu um lugar no futuro Governo ou na próxima lista de deputados”.

Hirondino Isaías não esconde a sua desilusão com Adrião e, no último dia do Congresso do PS, “desvinculou-se” do MRD. As razões da sua saída não decorrem de ver de novo Paulo Campos na CPN, porque isso já esperava, mas à “falta de estratégia" do movimento.

Em declarações ao PÚBLICO, o dissidente deixa implícito que a “preocupação de Daniel Adrião tem a ver com lugares nos órgãos do partido” e atira: "Ele não é um bom líder”. Em contrapartida, diz que as ideias do movimento ”são correctíssimas” e elogia alguns dos seus elementos. “Há pessoas com uma enorme capacidade de trabalho, mas há dois ou três elementos que estragam tudo. Existe uma enorme desorganização”, lamenta o ex-mandatário financeiro nacional da candidatura de Adrião, que o PÚBLICO tentou ouvir.

Este militante deixa uma crítica generalizada ao PS, declarando que o partido “está muito jotizado”. O que pretende dizer é que “qualquer militante que não pertença ao aparelho dificilmente será eleito”, um sistema que – frisa – deixa de fora os mais capazes.

De saída está também Rui Martins, da federação da Área Urbana de Lisboa do PS. Rui Martins afastou-se quando soube que Paulo Campos tinha sido indicado para os órgãos nacionais. Afastado do MRD, Rui Martins vai retomar a sua participação na Corrente de Opinião Transparência Socialista que fundou juntamente com Fernando Faria, José Cardoso, Manuela Rodrigues, Hurry Beefun, Vitor Teixeira,  Paulo Ferreira e Filomena Araújo.