Comey foi “insubordinado” e (como Hillary) também usou o email pessoal

As críticas são apresentadas num relatório de 500 páginas elaborado pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Comey já reagiu no Twitter, reforçando que fez o que achava correcto
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Comey já reagiu no Twitter, reforçando que fez o que achava correcto Jonathan Ernst

James Comey foi “insubordinado”, mas não agiu com base em interesses políticos. A conclusão foi apresentada nesta quinta-feira no relatório do Departamento de Justiça norte-americano, que olhou para o comportamento do ex-director do FBI durante a investigação aos emails de Hillary Clinton.

Entre as 500 páginas que compõem o documento, o inspector-geral do Departamento de Justiça destaca que Comey quebrou “dramaticamente algumas normas”.

Entre os protocolos de segurança ignorados está o recurso ao seu email privado para assuntos profissionais, a mesma razão que marcou a investigação à ex-secretário de Estado de Obama e candidata democrata nas eleições presidenciais de 2016.

No relatório agora conhecido, o ex-director, demitido por Donald Trump em Maio de 2017, é acusado de ter exposto publicamente informação sensível acerca da investigação que decorria à democrata Hillary Clinton, durante o período de campanha eleitoral. O Departamento de Justiça não poupou críticas à decisão que, nos últimos meses, James Comey tentou defender, socorrendo-se do argumento de transparência.

No livro A Higher Loyalty: Truth, Lies and Leadership (Uma maior lealdade: verdade, mentiras e liderança, em tradução livre), publicado em Abril, Comey reconhece que as palavras escolhidas para descrever a conduta de Hillary Clinton poderão ter influenciado o resultado das eleições. No entanto, no mesmo livro, Comey reforçou que não lamenta ter avançado para a reabertura à investigação ao caso dos emails de Clinton, a um mês da ida às urnas. Apesar de a investigação não ter resultado em qualquer acusação por violação das leis de sigilo e segurança nacional ao utilizar um servidor de email privado, o rótulo de negligente ficaria colado à então candidata democrata. Muitos dos apoiantes de Hillary Clinton e alguns especialistas continuam a acreditar que a decisão de Comey foi decisiva na derrota da democrata nas eleições presidenciais norte-americanas.

Agora, o inspector-geral do Departamento de Justiça, Michael Horowitz, rejeita o argumento repetido por Comey e considera que, apesar de acreditar que o então director do FBI não agiu com base em interesses políticos, “ao quebrar tão clara e dramaticamente as normas do FBI e do departamento, as suas decisões tiveram um impacto negativo na percepção do FBI e do departamento como órgãos justos de administração da Justiça".

Apesar das duras conclusões do relatório, Michael Horowitz não pede nenhuma acusação para Comey. “Não encontrámos qualquer prova de que as conclusões do departamento foram afectadas.”

Responsável pela investigação à candidata democrata pelo recurso a um servidor de email privado, Comey respondeu que “achava que não havia problema”, quando confrontado por ter também ele usado o seu Gmail na troca de correspondência ao serviço dos Estados Unidos. Comey defendeu-se dizendo que apenas usou o seu email pessoal em casos em que sabia que a informação seria tornada pública.

No Twitter, Hillary Clinton já reagiu, partilhando as revelações acerca do email de Comey com um irónico “But my emails.” (“Mas os meus emails”, em português), numa referência a uma das frases mais repetidas pelos eleitores anti-Clinton (“But her emails”).

Comey não é o único membro do FBI a ser criticado. A investigação do Departamento de Justiça norte-americano aponta ainda que houve uma quebra na hierarquia quando a então procuradora-geral Loretta Lynch acedeu à investigação que decorria a Clinton.

Além disso, a investigação revelou trocas de mensagens entre funcionários do FBI, que, apesar de não terem afectado as investigações — nomeadamente à suspeita de ter havido intervenção de Moscovo nas eleições norte-americanos —, podem fragilizar a credibilidade do FBI.

Comey também já reagiu ao relatório. O ex-director do FBI considera que as conclusões são “razoáveis”, apesar de não concordar com todas elas. “As pessoas de boa-fé podem encarar uma situação sem precedentes de forma diferente. Espero que mais nenhum director [do FBI] a enfrente”. 

Por sua vez, o Presidente Donald Trump aproveitou o relatório para acusar os democratas de fabricar um crime e defender-se novamente do que qualifica como uma "caça às bruxas". "Pagaram uma fortuna para fazer com que o crime [de intervenção da Rússia] parecesse real, revelaram ilegalmente (Comey) informação sensível para que fosse nomeado um procurador especial e depois criar esta pilha de lixo que tomou forma através de fake news!", escreveu no Twitter.