Os donos da bola

Vamos imaginar que trocam as camisolas aos jogadores ou que há uma interferência na transmissão de um jogo que não permite distinguir as duas equipas em campo. Se em acção estiver a selecção espanhola, nem tudo estará perdido. Pela simples forma de circularem a bola, pelos posicionamentos adoptados, pelas acções de pressão, um observador atento será capaz de perceber de que formação se trata. E o reconhecimento desta identidade é o melhor dos elogios que podem fazer-se à Espanha actual.

É verdade que esta versão de La Roja não é mais do que a evolução natural de uma ideia de jogo que redundou num título mundial e em dois títulos europeus na última década. Mas também não é menos verdade que, antes de Julen Lopetegui, esta fórmula começava a ser posta em causa face à saída de jogadores influentes (como Xavi Hernández) e ao rotundo falhanço no Campeonato do Mundo de 2014, em que a fase de grupos foi a última estação da viagem. A etapa de qualificação rumo à Rússia provou que o ADN do futebol espanhol não deve ser regateado.

Acima de tudo o resto, está a bola. Pode parecer uma evidência, mas não é uma obsessão ao alcance de todos - e muito poucos conseguem uma percentagem de posse tão esmagadora. A verdadeira questão é a forma como Espanha a rouba, a atrai, a circula. Uma arte na qual não recebe lições de ninguém e que deriva, em primeiro lugar, da qualidade tremenda dos intérpretes e, em segundo, de uma ideia de jogo tão arrojada quanto rigorosa.

Entre os princípios de jogo advogados por Lopetegui (e que serão seguramente prosseguidos por Fernando Hierro) destacam-se uma fortíssima reacção à perda da bola, facilmente detectável nos timings e nas zonas de pressão escolhidos. O normal é vermos, nesses momentos, a equipa disposta em 4x1x4x1, francamente subida e a condicionar a saída do adversário logo nas imediações da grande área. E aqui todos trabalham com alta intensidade, desde Iniesta a Isco, passando por Koke, David Silva e pelo avançado de serviço.

Este subtema, o do protagonista da posição nove, também tem sido alvo de intenso debate desde a retirada de David Villa, oscilando a equipa entre um avançado mais fixo e forte fisicamente, como Diego Costa, ou um falso nove que pode muitas vezes ser Asensio, Rodrigo e até David Silva. Seja qual for a escolha (que deve ainda levar em linha de conta Iago Aspas), na base deste exercício está uma das chaves deste quebra-cabeças — a mobilidade. É a permanente movimentação do trio do meio-campo, dos alas e dos laterais (que no 4x3x3 da Roja em organização ofensiva activam um constante vai e vem) que dificulta a acção dos adversários.

Jogando muitas vezes em cerca de 40 metros e instalada no meio-campo do rival, a selecção espanhola recorre como ninguém ao jogo do toca e foge, com futebol apoiado, de passe curto, sempre à procura de “paredes” para tabelar e sair a jogar de frente. E a estes predicados junta agora, mais do que nunca, também uma aptidão refinada para verticalizar o jogo a partir de trás, seja com o contributo de um passe de ruptura de um dos centrais ou de um dos talentosos médios de que dispõe, com Busquets e Thiago Alcântara à cabeça na primeira fase de construção.

Diante de Portugal, um adversário igualmente habituado a viver com bola, medir-se-á a natureza do risco que Espanha estará disposta a correr. Se optar por um bloco tão alto como aquele que tem utilizado, terá mais possibilidades de impedir que o rival construa de forma apoiada e em progressão a partir da zona central, mas será forçada a enfrentar o reverso da medalha e a acautelar a defesa da profundidade. E a ameaça que daí advém poderá levar Fernando Hierro a fazer baixar ligeiramente o posicionamento da linha defensiva. 

De resto, nos recentes embates com a Suíça e com a Tunísia foi possível detectar que é possível encontrar alguns pontos de fuga na rede muito coesa montada pelos espanhóis. Ora superando a primeira linha de pressão, chegando às laterais com critério para explorar, já em vantagem ou igualdade numérica, as costas de Odriozola ou Jordi Alba; ora activando um futebol mais directo, com passes a média e longa distância à procura da velocidade dos extremos. E neste contexto a capacidade de explosão de talentos como Gonçalo Guedes, Bernardo Silva e até Gelson Martins poderá encontrar terreno fértil para dar frutos. 

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