Entrevista

Trinta e cinco anos depois este é o tempo dos Telectu

Na década de 1980, quando lançaram os primeiros discos, nem todos os compreenderam. Agora esses registos são alvo de atenção internacional e nacional, e esta sexta-feira, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, haverá um concerto dos Telectu de revisitação a Belzebu, 35 anos depois da sua edição. “Estou surpreendido, mas feliz”, diz Vítor Rua.
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Vítor Rua e Jorge Lima Barreto, os Telectu originais, em 1983

Quando começaram, na alvorada dos anos 1980, poucos os compreenderam. O rock feito em Portugal, enquanto fenómeno industrial, era coisa recente, com Rui Veloso, UHF ou GNR, dos quais Vítor Rua havia sido um dos co-fundadores. Eles, ou seja, o guitarrista e compositor Vítor Rua e o músico e musicólogo Jorge Lima Barreto, que morreu em 2011, pouco ou nada tinham que ver com esse cenário. A sua música estava nas margens de diversas correntes (minimalismo, ambientalismo, concreta, improvisada, jazz) sem se fixar, procurando o ângulo experimental.

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Não espanta que se tenham sentido muitas vezes à margem, ou procurado a cumplicidade internacional. Existia um vazio, mediático e de circuito, para os compreender e acolher aqui. De alguma forma o concerto desta sexta-feira, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde Vítor Rua, 56 anos, na companhia de António Duarte, vai revisitar o álbum Belzebu (1983), é um momento feliz. Mesmo nos anos 2000, quando começou a ser notório que existia uma nova geração portuguesa conectada com as músicas exploratórias, raramente o nome dos Telectu era referido. Isso mudou. Hoje não são apenas os admiradores de sempre que os seguem. Há um novo público que os descobre, como se fosse a primeira vez. As novas gerações perceberam que há ali uma memória que vale a pena conhecer, porque faz sentido nos dias de hoje, e, por outro lado, Vítor Rua entendeu que existe um legado que vale a pena perpetuar.

Foi apanhado de surpresa com o desafio que lhe foi endereçado para revisitar, 35 anos depois, o álbum Belzebu (1983) dos Telectu?

R. – Fiquei surpreendido, mas também muito feliz, porque vai haver o concerto à volta de uma obra iconográfica, 35 anos depois do seu lançamento, e o disco vai ser reeditado em breve, inaugurando o catálogo da nova editora Holuzam. Mas o mais interessante é os Telectu irem reinterpretar a sua música e isso deixa-me feliz. Já havia essa ideia da museologia ligada à clássica ou ao jazz, e agora parece-me que chegamos a uma fase semelhante em relação a outras linguagens. Vê-se isso com rock, com muitos grupos a reinterpretar de forma o mais fiel possível álbuns por inteiro, ou seja, essa ideia da reinterpretação como acontecia na música clássica está a passar para outras tipologias.

Neste caso, curiosamente, vai-se ouvir uma interpretação que os Telectu originais não conseguiam oferecer por questões tecnológicas.

Sim, é verdade, vamos abordar o disco de uma forma como ele nunca foi interpretado, nem mesmo pelos Telectu originais. Vamos utilizar as partituras e os mesmos instrumentos – a mesma guitarra, sintetizador, tudo igual, até vou usar a mesma palheta… [risos]. O Telectu escreveram todos os discos em partituras – o Belzebu (1983), o Off Off (1984), o Halley (1986) ou o Rosa-Cruz (1987) – até chegarmos à fase da improvisação total. Depois, o facto de o António Duarte ter adquirido todo o acervo instrumental dos Telectu permite-nos, com as partituras, tocar de uma forma que nem na altura acontecia porque, nesse tempo, fugíamos sempre um pouco ao que estava inscrito. Agora vamos ser fiéis à partitura. E claro que ao meu lado vai estar o António Duarte. Era a opção óbvia. Colaborou connosco desde o início e mais do que ninguém viu e absorveu toda a técnica de tocar do Jorge.

Quando voltou a tomar contacto com as partituras e os ensaios com som para preparar o concerto, que tipo de sensações é que teve?

Sabia do poder que a música tem de nos transportar no tempo. Levar-me ao tempo do Bach pode ser um exercício interessante, mas nunca vivi no tempo do Bach. Agora estar a ensaiar e de repente ser transportado para 1983 e voltar a sentir aquilo tudo, isso nunca me tinha acontecido. Quando terminou o primeiro ensaio, olhei para o lado e vi o António Duarte, mas por momentos pensei que ia ver o Jorge. E as poucas pessoas que assistiram também tiveram esse tipo de reacção. É uma viagem no tempo, não só pela instrumentação, mas pela perfeição e semelhança ao disco com que a coisa vai ser apresentada, algo que os Telectu nunca conseguiram, porque não tínhamos sistema para utilizar som de separador. Não havia tecnologia para isso. Por exemplo, há sempre dois sintetizadores no disco, o que nunca aconteceu ao vivo, porque não havia tecnologia para a reprodução e isso agora vai ser feito. E também vamos juntar aquelas que eram as características de um concerto dos Telectu naquela altura, com multimédia e vídeo. Estou contente. Parece-me um momento relevante para a música portuguesa.

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"Vamos abordar o disco de uma forma como ele nunca foi interpretado, nem mesmo pelos Telectu originais. Vamos utilizar as partituras e os mesmos instrumentos – a mesma guitarra, sintetizador, tudo igual, até vou usar a mesma palheta." Vítor Rua Ilda Teresa Castro

A última vez que falámos, no ano passado, reflectíamos que parecia haver um divórcio geracional entre os agentes das músicas exploratórias em Portugal. Este momento parece representar uma espécie de pacificação, havendo cada vez mais gente nova a respeitar o legado dos Telectu.

Sim. Existe realmente cada vez mais gente a nova a interessar-se pelos Telectu. E está longe de ser algo apenas referente ao contexto português. Há pouco estive em Berlim, o centro da música electrónica e da dança, e passam Telectu nos clubes, em especial os primeiros discos. E em Portugal também sinto esse renovado entusiasmo quando ouvem os discos dos Telectu, perguntando como foram feitos e que instrumentos é que utilizávamos. Reconhecendo que aquilo que ouvem acaba por estar a par do que se faz hoje e que eles costumam ouvir.  

Há um lado paradoxal nisso que é o facto de, nos anos 1980, não haver propriamente um circuito onde vos enquadrar. Tanto iam a um programa da RTP do Júlio Isidro como tocavam ao lado de grupos rock. Agora, finalmente, mesmo se o contexto ainda contém fragilidades, dir-se-ia que há mais espaço para se sentirem acolhidos.

Sim, é isso mesmo. Não havia um caminho definido. Tivemos de o trilhar. Agora sim, passados estes anos, já existem espaços, clubes, media ou festivais. Ainda bem para todos. Sentimos que abrimos muitas portas a muita gente e a imensas coisas que acontecem agora.

O vosso primeiro álbum, Ctu Telectu (1982), mantém também essa actualidade que hoje é reconhecida em Belzebu, mas parece uma obra com a qual têm uma relação mais distante. É mesmo assim?

Do ponto de vista musical, não. Se tivesse de escolher três discos dos Telectu, esse estaria no lote. Lembro-me de o Jorge, um dia, me perguntar: “Mas que tipo de disco é que você quer fazer?” Eu respondi-lhe que queria um disco que daqui a 30 anos ainda se ouvisse. Acho que se conseguiu. E mesmo agora seria avançado para o que se passa. Muitos músicos estrangeiros ouvem-no e comparam: “Mas o que é que se fazia a nível de pop e rock naquela altura?” E o mais avançado seria o Remain in Light dos Talking Heads. Há um antes e um depois desse disco no campo pop-rock. Na altura em que o nosso disco saiu fomos a Nova Iorque, a uma das melhores lojas de discos, com cinco exemplares para vender. O tipo que nos atendeu disse se podia ouvir, aquilo começou a tocar e de imediato uma pessoa que estava na loja – recordo-me que tinha um disco do Thelonious Monk na mão – perguntou o que era, e ele apontou para nós. Ficou com um exemplar e o tipo da loja comprou os restantes. Enfim, só para ilustrar que suscitávamos curiosidade junto de quem estava a par do que acontecia.

Os Telectu vão também ao Semibreve de Braga, em Outubro. O que é que esta redescoberta significa para o futuro, tendo em atenção que com a edição do álbum como Vítor Rua & The Metaphysical Angels, no ano passado, o seu percurso a solo também se fortaleceu?

Dentro de 15 dias vai sair o segundo CD duplo dos Metaphysical Angels, e para o ano vai sair o terceiro do tríptico. E de repente surgem os Telectu de uma forma inesperada mas bem-vinda. E temos já concertos marcados até Junho do próximo ano, inclusive uma digressão por Madrid e Barcelona. E isto só através do boca a boca. Para já a ideia dos Telectu é interpretar o Belzebu e discos que venham a ser alvo de reedições futuras e que já estão apalavras como o Off Off, Rosa-Cruz e Halley. É a mesma lógica que preside quando vamos à Gulbenkian assistir a um concerto de clássica: espera-se que alguém interprete da melhor forma as peças deste ou daquele compositor. É isso que faremos. Não existe nenhum projecto para um disco novo dos Telectu. Poderá acontecer, mas não agora. Tudo isto é muito recente.

Este ano, se tudo correr bem, para lá da reedição do Belzebu e dos Metaphysical, haverá um projecto com o Chris Cutler, com ele na poesia e bateria, eu na composição e guitarra, e pessoas como o Nuno Reis no trompete, a Helena Estoval no violoncelo, a Barbara Lagido na voz e a Leonor Devlin, de 15 anos, na harpa. Há editoras interessadas, mas gostávamos que fosse a Drag City e vamos tentar. Trata-se de empregar o mesmo método composicional que utilizei no Metaphysical, mas mais ligado à pop. E na improvisação tenho também dois projectos a sair este ano, com a Susana Santos Silva em trompete nos dois discos, mudando o percussionista. Num deles é o Luís San Payo e, no outro, o Eddie Prévost. Não tenho mãos a medir, o que é óptimo.