Crítica

Pusha puxa a moral de Kanye West para cima

Pusha T aproveita o regresso de Kanye West à boa forma para assinar um trabalho sólido e cheio de ganchos.

West na produção e Pusha na voz: um trabalho que tem momentos deveras entusiasmantes
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West na produção e Pusha na voz: um trabalho que tem momentos deveras entusiasmantes

As últimas semanas têm sido agitadas para os lados da GOOD Music e os grandes responsáveis são nada mais, nada menos do que o seu fundador (Kanye West) e o actual presidente (Pusha T): se, na semana passada, gabávamos Ye (o novo álbum do primeiro), DAYTONA é produto, digamos, “corporativo”, no sentido em que junta West na produção e Pusha na voz para um trabalho que, não sendo brilhante, tem momentos deveras entusiasmantes. Sobretudo, importa destacar, pelo talento de West na concepção de instrumentais surpreendentes, sempre fora da caixa (Infrared e, especialmente, Hard Piano soam a inspiradas peças de trip-hop), embora com uma linha distinta dos que se lhe ouvem no seu LP em nome próprio, o que demonstra uma preocupação autoral em separar as águas. Em The Games We Play, canção de soberba e conhaque definida de uma ponta à outra pela linha bluesy de guitarra (bem à medida de um western revanchista, revisionista, de Jordan Peele), Pusha, antigo elemento dos Clipse, explica, para quem tivesse dúvidas, ao que vem: “This ain’t for the conscious, this is for the mud-made monsters / Who grew up on legends from outer Yonkers” (cidade do estado de Nova Iorque de onde são originários rappers como Jadakiss, DMX ou Styles P). O que é interessante, porém – e, de resto, extensível a todo o rap que se assume, genericamente, como cru ou agressivo –, é que todo este discurso “egotripesco”, de auto-engrandecimento, vai sempre produzindo – ou deixando-se contaminar por – importantes anotações sobre os EUA, seus mitos e paranóias, do sonho americano à obsessão materialista, do sufoco das minorias e dos mais pobres a uma (compreensível) arrogância nova-riquista (“See these diamonds in this watch face? / All that shit came from pressure”, desabafa Pusha em Come Back Baby), realidades que, porventura, nós, europeus ocidentais, nunca chegaremos a compreender por completo.

Houve quem já se interrogasse sobre a razão para o fascínio de alguns críticos (onde não nos incluímos, isso é certo) pelo fascínio, por sua vez, de certos rappers com o dinheiro. É uma questão válida e à qual Pusha T poderá dar uma ajuda na resposta com estes dois versos: “They say don’t let money change you / That’s how we know money ain’t you”. Por outras palavras: quem nunca esteve na situação de nada ter senão uma família tragicamente disfuncional e um quotidiano de tráfico, armas e pobreza e de um dia passar a desfrutar de tudo e mais alguma coisa provavelmente não conseguirá jamais compreender, enfim, how money does change you (mas é também por isto que os rappers são dos músicos contemporâneos mais fascinantes, pela capacidade de fazerem conviver um arrazoado ostentatório com um objecto extraordinariamente poético). E por isso é que o show off de Pusha, afrontoso e descomplexado, prossegue, cheio de ginga, personalidade e humor, no extraordinário beat de Come Back Baby, momento mais alto do EP em que West, depois de principiar com um sample da voz do lendário The Mighty Hannibal sobre a dependência de drogas (ecoando, afinal, os tormentos do próprio West, que escolheu para capa do EP uma fotografia do apartamento de Whitney Houston na noite da sua morte), aplica à canção uma estrutural dual (um dos seus habituais, mas sempre frescos, métodos): sample soul dulcíssimo no refrão (voz de George Jackson que, note-se, prolonga a ideia de dependência, narcótica e amorosa: “I’m like an addict hooked on drugs, you’re my habit, baby”) cortado depois abruptamente (e arriscadamente, tais são as diferenças rítmicas e melódicas) por um bounce electrónico tão moderno quanto reminiscente dos beats de alguém como o excêntrico Kool Keith de finais dos 90 (conferir esse grande LP Black Elvis/Lost in Space). Contexto temporal que Pusha, cuja expressividade vocal parece carregar segredos e conspirações, prorroga ao rimar com uma ginástica e uma jactância insuperáveis (evocadoras de uns Mobb Deep ou Lords Of The Underground), sobretudo neste impressionante trecho (é preciso ouvi-lo, a leitura não permite apreender a coisa por inteiro): “They don’t miss you ‘till you gone with the wind / And they tired of dancin’ like a Ying Yang Twin / You can’t have the Yin without the Yang, my friend / Real niggas bring balance to the game I’m in”. Trabalho que nos devolve um Kanye próximo do seu melhor nível, o EP mostra também como, de facto, a Internet e as “redes sociais” nunca deveriam ter existido para certas pessoas – trocando por miúdos, é quando está no estúdio a fazer música, e não a tentar fazer passar-se por uma mente iluminada planetária, que West brilha. A este respeito, não deixa de ser curioso o dueto que mantém com Pusha em What Would Meek Do? (momento mais introspectivo do EP, juntamente com Santeria, na qual 070 Shake brilha no refrão), desde logo porque este último afirmou já publicamente o quão afastado está das posições políticas de West, que referencia o seu tristemente famoso boné MAGA (Make America Great Again) de forma especialmente problemática /perversa quando compara a paragem hostil de carros conduzidos por negros pela polícia com o seu “barramento” mediático em virtude do apoio a Trump. De acordo com a promessa feita há tempos por West, ficamos agora a aguardar pelos lançamentos, todos pela GOOD Music, dos novos discos de Nas, Teyana Taylor e, sobretudo, do seu muito esperado trabalho colaborativo com Kid Cudi (Kids See Ghost).