A estranha morte dos incríveis embondeiros africanos

Nove dos 13 embondeiros africanos mais velhos, com idades que rondam os dois mil anos, morreram na última década. A causa da morte ainda não é clara mas as pistas dos investigadores apontam para as alterações climáticas.

Avenida dos Baobás, Árvore
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JONATHAN BRADY/EPA

“A morte da maioria dos maiores e mais antigos embondeiros africanos nos últimos 12 anos é um acontecimento de uma magnitude sem precedentes”, escrevem os autores de um artigo publicado na revista científica Nature Plants. A equipa de investigadores conta em apenas três páginas a história da rápida e inesperada morte de nove dos 13 mais velhos e de cinco dos seis maiores embondeiros de África. Sem conclusões sobre as causas do estranho declínio, avançam com a suspeita de um fim associado às mudanças climáticas nesta região do planeta.

O embondeiro está nos livros, poesias, contos, provérbios, lendas e crenças no continente africano e fora dele. Dizem que parece estar virado ao contrário (com os seus fortes ramos a confundirem-se com uma raiz) e que é sagrado. Conta-se que serve de morada aos espíritos humanos e que a árvore simboliza a sabedoria, uma vez que nenhum homem consegue abraçá-la sozinho. A imagem de um postal de África cola-se à imponente silhueta de um embondeiro num por do Sol.

A equipa de investigadores que anuncia a morte dos maiores e mais antigos embondeiros de África investigou e datou mais de 60 árvores do Norte e do Sul de África durante o período de 2005 a 2017, durante o qual procuraram exemplares muito grandes e potencialmente antigos. A datação foi feita com radiocarbono e alguns dos segredos da estranha arquitectura das árvores que assegura a sua longevidade e tamanho são descritos no artigo. Mas, escrevem, “o facto mais inesperado e intrigante é que, desde 2005, nove dos 13 espécimes mais antigos de embondeiros africanos e cinco dos seis maiores indivíduos morreram ou pelo menos as suas partes maiores e/ou mais velhas entraram em colapso e morreram.”

As inesperadas mortes, acrescentam, “não foram causadas por uma epidemia e também houve um rápido aumento nas mortes aparentemente naturais de muitos outros embondeiros maduros”. “Suspeitamos que o desaparecimento de embondeiros monumentais possa estar associado, pelo menos em parte, a modificações significativas das condições climáticas que afectam particularmente o Sul de África. No entanto, mais investigações são necessárias para apoiar ou refutar essa suposição”, concluem.

Entre os vários casos detectados, a equipa destaca três histórias de três árvores: Panke, Platland e Chapman. Panke era um embondeiro considerado sagrado numa área remota de Matabelelândia Norte, no Zimbabwe. A descrição deste indivíduo inclui “um anel definido por três hastes fundidas em torno de uma falsa cavidade com uma entrada baixa” e ainda “três hastes adicionais”. Em 2010, os ramos começaram a quebrar-se e sucessivamente a colapsar e, depois, as hastes dividiram-se e tombaram uma após a outra ao longo de mais de um ano. “Recolhemos e datamos várias amostras de seus restos mortais”, dizem os investigadores no artigo, revelando que a amostra mais antiga revelou que se tratava de um exemplar com 2450 anos. Ou seja, Panke era o mais antigo embondeiro africano e morreu em 2011.

Platland, também conhecido como embondeiro de Sunland, ergueu-se na província do Limpopo, na África do Sul, e “foi provavelmente o embondeiro africano mais promovido e visitado”. O mais célebre, portanto. Uma notoriedade conseguida talvez pelo impressionante “volume total de madeira de 501 metros cúbicos”. No enorme tronco encontravam-se duas estruturas em forma de anel com duas cavidades falsas interconectadas. “A maior unidade separou-se quatro vezes em 2016 e 2017 e os seus cinco caules acabaram por tombar e morreram.”

Por último, os investigadores descrevem-nos o fim de Chapman, localizado perto de Makgadikgadi (o maior lago seco salgado do mundo), no Botswana. O embondeiro baptizado com o nome do caçador sul-africano James Chapman, que visitou a árvore em 1852, tinha uma estrutura em forma de anel aberto, com seis hastes parcialmente unidas que pertenciam a três gerações, uma com 1400 anos, outra com 800 a mil anos e a terceira com 500 a 600 anos. “A 7 de Janeiro de 2016, os seis ramos de Chapman caíram ao mesmo tempo e morreram.”

Num artigo publicado na revista The Atlantic, Adrian Patrut, da Universidade Babes-Bolyai, na Roménia, que catalogou estas mortes de árvores milenares não esconde a desolação: “É triste que, nas nossas curtas vidas, seja possível assistir a uma coisa destas.”

Os troncos ocos, com enormes cavidades internas, são uma das características mais distintivas dos embondeiros. Se na maioria das árvores um buraco significa doença e morte, nestas é sinal de vida com as suas enormes hastes, unidas num anel, a formar o espaço oco ano após ano. Segundo os investigadores, e apesar de ter sido uma das primeiras coisas em que pensaram, nenhuma das árvores tinha qualquer sinal de infecção. Resta o clima para culpar. Adrian Patrut refere mais especificamente que podemos estar perante o trágico resultado de “uma combinação sem precedentes de aumento de temperatura e seca no Sul da África, nos últimos dez a 15 anos”. Com menos água a cair do céu, sofreram os embondeiros que para se manterem de pé precisam absorver entre 70 e 80% de seu volume em água.

Entre as muitas histórias que existem sobre o embondeiro, há uma que ameaça quem se atrever a colher uma flor desta árvore com o triste destino de ser devorado por um leão. Se se confirmarem as suspeitas dos investigadores e se a morte dos maiores e mais antigos embondeiros de África estiver ligada às alterações climáticas e sabendo que estas são em grande medida o resultado das nossas (más) acções, qual será o castigo que nos reserva?