Cerca de 27% dos alunos têm negativa a Matemática no 2.º ciclo

Matemática, Inglês, Português e História e Geografia de Portugal são as disciplinas com mais negativas no 5.º e 6.º ano de escolaridade.

Papel, design, escrita, design de produto
Foto
Nuno Ferreira Santos

Mais de um quarto (26,5%) dos alunos do 2.º ciclo de escolaridade do ensino público (5.º e 6.º anos) acabam o ano com nota negativa a Matemática e a cerca de 13% acontece o mesmo na disciplina de Português. Esta foi a situação detectada pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) depois de ter comparado as notas dadas pelos professores aos alunos do 2.º ciclo entre os anos lectivos de 2011/2012 a 2015/2016.

Das 10 disciplinas que fazem parte do plano curricular do 2.º ciclo, as que contam com maiores percentagens de negativas são Matemática, Inglês, Português e História e Geografia de Portugal (HGP). As primeiras três disciplinas figuram também entre as que têm piores desempenhos no nível de escolaridade seguinte (3.º ciclo), como ficou provado num estudo semelhante realizado pela DGEEC que tinha como universo os alunos do 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade. Este estado crónico tende aliás a agravar-se no 3.º ciclo, com 33% dos alunos a acabarem este nível com nota negativa a Matemática.

No 5.º ano as percentagens de notas negativas a Matemática oscilam entre 23 e 28%, a Inglês entre 12% e 16%, a Português variam entre 10% e 16% e a HGP entre 11 e 14%.

No 6.º ano a situação agrava-se nas disciplinas de Matemática e Inglês, com percentagens de notas negativas que oscilam, respectivamente, entre 22% e 30% e entre 14% e 19%. E atenua-se um pouco no que toca a Português (com percentagens de notas negativas entre 9% e 15%) e a HGP (com oscilação entre os 9% e os 13%).

Para a presidente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas, a inclusão desta disciplina na “lista negra” dos alunos que têm entre 10 e 12 anos de idade pode explicar-se pelo facto “de nunca existirem classificações muito altas a Português” e que por isso, estando as notas em média “situadas entre o insuficiente e o suficiente, rapidamente podem resvalar para negativas”.

"Não estão a ter uma formação básica"

Já a presidente da Associação de Professores de Matemática, Lurdes Figueiral, tem encarado os dados revelados pela DGEEC com “preocupação”, sublinhando que mostram que “os alunos não estão a ter uma formação básica” nesta disciplina, conforme comentou ao PÚBLICO quando em Março passado foram divulgados os dados relativos ao 3.º ciclo.

Uma das novidades destas análises aos resultados por disciplina prende-se com o facto de a DGEEC seguir o percurso individual de cada aluno ao longo do nível de escolaridade em estudo de modo a perceber, por exemplo, “até que ponto a atribuição de uma classificação negativa é, ou não é, para a maioria dos alunos, um acidente passageiro e facilmente recuperável”. E qual é a conclusão? “A resposta que os dados nos dão é que a percentagem de recuperações depende fortemente da disciplina em causa”, refere.

Entre as quatro disciplinas com maiores percentagens de negativas, constata-se que a recuperação desta nota para positiva é mais difícil a Matemática e a Inglês. Nos cinco anos em análise, apenas 23,2% dos alunos que passaram do 5.º para o 6.º ano com negativa a Matemática conseguiram chegar ao fim do 2.º ciclo com nota positiva a esta disciplina. O mesmo aconteceu a 22,5% dos que transitaram do 6.º para o 7.º ano de escolaridade numa situação idêntica. A Inglês, as percentagens de recuperação situam-se entre 32,8% (do 5.º para o 6.º ano) e 40,3% (do 6.º para o 7.º ano).

Já, por exemplo, a Português quase metade (48%) dos alunos que passaram do 5.º para o 6.º ano com nota negativa a esta disciplina conseguiram recuperar desta situação no final do 2.º ciclo de escolaridade. Mas esta maior facilidade de recuperação a Português pode ser originada por um “efeito perverso”, alerta Filomena Viegas. E que é o seguinte. Segundo a presidente da APP, “com a introdução do exame a esta disciplina no final do 2.º ciclo, em 2012 [estas provas acabaram quatro anos depois], houve uma tendência geral para reter os alunos mais fracos logo no 5.º ano e por isso no 6.º só estavam os mais bem preparados”.

Refira-se a este respeito que entre os alunos que chumbaram no 5.º ano, 90% tiveram negativa a Português. A Matemática este valor sobe para 96,4%. Neste grupo, o dos alunos que chumbam de ano, estas duas disciplinas são as que contam com uma maior proporção de negativas.