Opinião

Os emigrantes são a nova "geringonça"

E ainda há mais um 10 de Junho (que deverá ser celebrado em África) antes das eleições de 2019. E de 2021, pois claro.

Os portugueses sabem sempre receber. Seja nos EUA ou em Paris, há um afecto que nos adocica e que nos transforma em seres hospitaleiros. Dizem o povo e os turistas. Disse-o também, pelas suas palavras, o Presidente da República. “Nós, os portugueses, adoramos unir, não dividir”, explicou Marcelo, em Boston, perante uma plateia de emigrantres e luso-descendentes.

“Temos uma coisa que é muito nossa: os afectos. Nós gostamos da nossa Pátria, da nossa gente, mas gostamos das outras pátrias onde vivemos. Adaptamo-nos bem a tudo: à língua, aos costumes, ao clima, à maneira de ser”, descreveu. Não era um comício. Não falou de coisas dos políticos. Por isso foi aplaudido com tanto sentimento.

Entre 1996 e 1997 passei uns tempos no estrangeiro, mais precisamente em Bordéus, a estudar. Não me lembro de ter ido lá nenhum político fazer promessas eleitorais e acho que, se tivesse acontecido, me lembrava. Quando estamos fora do país, tudo o que diz respeito a Portugal tem muito mais importância. Sobretudo quando acontece pertinho – um concerto, uma loja, uma festa, uma visita. Lembro-me, por exemplo, que fui a um concerto de Amélia Muge. As notícias de “casa”, essas, são hipervalorizadas. Ardeu o sótão da Câmara de Lisboa quando estava fora e, de longe, parecia o fogo do século. E quem se lembra de nós ganha um cantinho no nosso coração.

A comunidade portuguesa que se espalhou por França, pelo Brasil ou pelos Estados Unidos - países onde foi celebrado o 10 de Junho desde que Marcelo é Presidente (porque se Cavaco Silva descentralizou as celebrações para outros pontos de Portugal, Marcelo exportou-as para outras zonas do Mundo) - não se vai esquecer destes momentos de pura emoção e de insuflação da auto-estima. É como quando se come finalmente um pastel de nata e se bebe o primeiro café, no regresso, depois de um longo período fora do país. O instante marca-nos.

Agora, António Costa já não está debaixo do chapéu de chuva que o Presidente segura, mas continua na fotografia. E com um objectivo claro. Ou dois. O primeiro: lançar uma ofensiva diplomática destinada a redescobrir os Estados Unidos e a recriar laços entretanto enfraquecidos. Quis o sentido de oportunidade da diplomacia que o pontapé de saída para essa iniciativa fossem as comemorações do Dia de Portugal, que levaram uma comitiva de peso para terras do Tio Sam. O segundo: apresentar às comunidades o novo sistema de recenseamento eleitoral que muito possivelmente já estará em vigor em 2019 e que permitirá a qualquer emigrante com cartão do cidadão votar em eleições nacionais.

Costa nem sequer o escondeu. Em pelo menos dois discursos narrados pela comunicação social que acompanha a visita, o primeiro-ministro surge a explicar que com a “recente introdução do recenseamento automático”, qualquer titular do cartão do cidadão fica “habilitado a participar não só na vida política dos EUA, mas também nas eleições para o Parlamento e a Presidência da República em Portugal”. Feitas as contas (pelo secretário de Estado da tutela, José Luís Carneiro), com este novo sistema os cadernos eleitorais no estrangeiro podem crescer dos aproximadamente 300 mil eleitores actuais para uns exactos 1.373.439. 

A operação de charme fora de portas também faz sentido vista por este prisma. E ainda há mais um 10 de Junho (que deverá ser celebrado em África) antes das eleições de 2019. E de 2021, pois claro. Porque este mesmo caminho dos afectos entre a comunidade portuguesa pode servir duas eleições: as legislativas e as presidenciais (nas autárquicas os emigrantes votam, mas é nos países onde vivem). É só a mim que me parece que emigrantes podem ser a nova "geringonça"?