Opinião

Stupid Trade”: Trump, as tarifas e o inferno

A solução de Trump não é boa. Uma guerra comercial tem potencial para travar o crescimento global e é pouco provável que melhore a situação destas pessoas. Mas sabemos agora que as perdas sentidas por partes da população devido à liberalização do comércio internacional são factuais.

Este fim de semana foi animado por mais um folhetim com Donald Trump como ator principal, que contou com uma partida antecipada da cimeira do G7, uma troca de galhardetes com Justin Trudeau, e muitas linhas escritas acerca dos diferentes ângulos fotográfico-políticos da reunião. A troca de palavras com Trudeau foi especialmente ácida, com este a acusar Trump de insulto, a propósito da justificação das tarifas sobre alumínio e aço em nome da segurança nacional americana, sendo em troca qualificado de “muito desonesto e fraco” e brindado com uma promessa de um “lugar especial no inferno”.

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É muito provável que o comportamento de Trump na cimeira do G7 agrade à sua base de apoio. Os últimos resultados da sondagem da Gallup (final de Maio) mostram que há 42% de americanos que aprovam o desempenho do presidente, valor que sobe para 52% quando nos restringimos a eleitores brancos. E sobe ainda mais, para 87%, quando consideramos apenas o eleitorado republicano. Nas pessoas que se dizem “republicanas conservadoras”, esta taxa é de 90%. Já nos democratas é de 10%, e entre os “democratas liberais” é de 4% – são os que aplaudem de pé o “fuck Trump” de Robert de Niro. A América assim polarizada serve os interesses de Trump, cujo capital político está de pedra e cal entre as pessoas que o levaram ao poder, que aparentemente apreciam o seu estilo cacofónico e novelesco de fazer política estrangeira.

Acontece que a base de apoio de Trump não se contenta apenas com a forma; a agenda “stupid trade” do presidente ecoa nas vidas de muitos americanos. Num artigo publicado em 2016 na Review of Economics and Statistics, a economista Shushanik Hakobyan e o economista John McLaren analisaram os efeitos do acordo de comércio livre norte americano entre o Canadá, EUA e México (no original NAFTA – North American Free Trade Agreement). Embora este artigo analise a concorrência das importações mexicanas – que não foi o foco do G7 do fim de semana – os efeitos identificados ajudam a explicar o sentimento anti-comércio de partes da população. Os autores documentam também uma concentração regional dos perdedores, o que dá substância a histórias, popularizadas pelos media, de cidades arrasadas pelo encerramento massivo de empresas em certas indústrias e é explorado politicamente com o objetivo de ganhar votos em circunscrições eleitorais cruciais para uma vitória.

Os autores utilizam dados sobre cerca de dez milhões de trabalhadoras e trabalhadores americanos. As tarifas sobre as importações mexicanas foram diminuindo gradualmente entre 1990 e 2000, com diferentes calendários de implementação para diferentes sectores de atividade. Isto permitiu aos autores isolarem o efeito da diminuição de tarifas, comparando sectores de atividade que, num mesmo ano, enfrentavam diferentes níveis de concorrência das importações mexicanas. Juntando esta informação à importância de cada sector no emprego de uma determinada região, os autores identificam “regiões vulneráveis”: aquelas em que há uma grande percentagem do emprego em sectores que tiveram uma forte diminuição de tarifas. A análise permite concluir que o NAFTA afetou os salários dos trabalhadores de baixas qualificações, ao passo que os trabalhadores com formação universitária não são afetados. O efeito nos rendimentos dos trabalhadores que não terminaram o secundário e vivem em regiões vulneráveis é claro: salários 8% mais baixos para quem trabalha em sectores não afetados pela concorrência mexicana, e 17% mais baixos para quem trabalha no sector diretamente afectado. Ou seja: a concorrência dos baixos salários mexicanos levou a uma perda de rendimento também de quem trabalhava, por exemplo, na restauração, um sector protegido da importação pela própria natureza do serviço prestado.

A solução de Trump não é boa. Uma guerra comercial tem potencial para travar o crescimento global e é pouco provável que melhore a situação destas pessoas. Mas sabemos agora que as perdas sentidas por partes da população devido à liberalização do comércio internacional são factuais. Podiam até não ser, que nisto da política a percepção conta mais do que os factos. Em qualquer dos casos, chegou o momento dos líderes do G7 e também da União Europeia unirem esforços para pensar numa forma mais igualitária de partilhar os ganhos do crescimento que a globalização trouxe ao mundo. Senão, mais cedo do que tarde, teremos uma cimeira do G7 em que populistas como o Trump serão a norma e não a exceção. Nessa altura, estaremos todos no inferno com Justin Trudeau.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico