Crítica

A casa das bonecas vudu

Hereditário promete muito, tem ideias, tem estilo – mas acaba por ser mais do mesmo embrulhado de maneira vistosa.

Hereditário, Toni Collette, Festival de Cinema de Sundance de 2018, Filme
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Hereditário: o sabor amargo de termos sido enganados pelo embrulho vistoso para algo que já vimos muitas vezes
Annie Graham, Annie Graham, Cinema, Filme
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Alex Wolff, Hereditário, Sundance Film Festival, Centro Australiano para a Imagem em Movimento, Filme
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Toni Collette, Hereditária, Alamo Drafthouse Cinema, Cinema, Cinema
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Hereditário chega-nos como a mais recente revelação do novo terror independente, género onde o que não têm faltado têm sido propostas mais ou menos originais e interessantes: de cabeça, lembramo-nos de jovens realizadores como David Robert Mitchell (Vai Seguir-te), Jennifer Kent (O Senhor Babadook), Trey Edward Shults (Ele Vem à Noite), Nicolas Pesce (Os Olhos de Minha Mãe) ou Robert Eggers (A Bruxa), para já não falar de fenómenos como Foge de Jordan Peele e Um Lugar Silencioso de John Krasinski. É nessa “linhagem” de terror mais cerebral e menos “chapa quatro” que Ari Aster se inscreve com esta primeira longa, que ao início até parece justificar o entusiasmo que temos lido em muita crítica internacional.

Com uma paciência implacável e metódica de cientista em experiência laboratorial, Aster filma a lenta desintegração de um núcleo familiar aparentemente funcional (mãe, pai, filha e filho adolescentes), mas que esconde uma disfunção muito profunda e muito antiga, que começa a vir ao de cima quando a avó morre.

A referência ao entomologista não é casual: a mãe (interpretada por Toni Collette) é uma artista especializada em dioramas meticulosíssimos, a meio caminho entre a casa de bonecas e a maqueta arquitectural, com algo de perturbantemente autobiográfico, que parecem descrever tudo o que acontece na casa isolada onde mora. Aster filma esta tragédia familiar em câmara lenta como se todos não passassem de marionetas manipuladas por uma divindade fora de campo, enquanto lança dúvidas sobre a verdadeira natureza dos eventos (psicose ou sobrenatural?). O problema é que o realizador se enamora de tal modo do estilo que deixa a narrativa começar a rodar em seco (prolongando-se pelo menos meia hora para lá do que devia). E, na recta final, Aster não é capaz de manter a ambiguidade genuinamente perturbante que passou duas horas a montar pacientemente: depois de fazer fintas ao género o filme todo, admite derrota e cede nos últimos 15 minutos, com um final que reduz tudo a uma espécie de coitus interruptus. É pena e, sobretudo, não havia necessidade: Aster é um tipo com talento evidente e ideias interessantes, mas Hereditário deixa-nos com o sabor amargo de termos sido enganados pelo embrulho vistoso para algo que já vimos muitas vezes.