Pompeo acredita no desarmamento da Coreia do Norte até 2020 e só depois serão levantadas as sanções

Os Estados Unidos garantem que há muitos entendimentos que não couberam no documento final da cimeia de Singapura. Os media de Pyongyang celebraram o desempenho do seu líder na “reunião do século”. Pompeo garante que fim das sanções só acontecerá depois da desnuclearização.

Donald Trump, Kim Jong-un, Pyongyang, 2018 Cúpula da Coreia do Norte-Estados Unidos, Estados Unidos
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Curiosos, os norte-coreanos espreitam a cobertura da cimeira nos jornais do país Kyodo/Reuters
Mike Pompeo, Vincent K. Brooks, Estados Unidos, Pyeongtaek, Coréia do Norte, oficial do exército, soldado, secretário de Estado dos Estados Unidos
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Pompeo foi recebido em Seul pelo general que comanda as tropas dos EUA na Coreia do Sul Jung Yeon-je/REUTERS

Um dia depois da cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, aterrou em Seul para tranquilizar o aliado sul-coreano. E depois de um texto tão vago como aquele que os dois líderes assinaram no fim do encontro de Singapura, Pompeo sentiu-se na obrigação de fazer alguns esclarecimentos e assegurar que “nem tudo o que foi trabalhado apareceu no documento final, mas houve muitos entendimentos alcançados que não podiam ser reduzidos por escrito”.

Questionado por jornalistas sobre se os Estados Unidos acreditam ser possível obter uma importante desnuclearização de Pyongyang durante o actual mandato de Trump, que acaba a 20 de Janeiro de 2021, Pompeo respondeu: “Oh, sim, de certeza. Absolutamente… vocês usaram o termo importante, um desarmamento grande, importante, algo como isso? Acreditamos que podemos conseguir isso em dois anos e meio”.

No documento saído de Singapura, a Coreia do Norte concorda em trabalhar no sentido da “completa desnuclearização da Península Coreana”, sem que sejam avançados quaisquer detalhes ou prazos sobre o processo para tornar isso uma realidade. “Estou confiante que eles compreenderam que vai haver uma verificação profunda” do desarmamento, disse ainda Pompeo, admitindo que falta ainda “uma quantidade de trabalho considerável” de negociações com o regime de Kim.

Quando as conversações forem reiniciadas, em Seul, todos estes problemas serão abordados e resolvidos, afirma Pompeo. Isso, crê, irá acontecer “na próxima semana ou perto disso”.

Mike Pompeo garantiu ainda que as sanções à Coreia do Norte não serão levantadas nem aliviadas até que a “completa desnuclearização da península coreana” seja uma realidade. Apesar de afirmar que a cimeira de Singapura foi um “ponto de viragem” nas relações com o regime de Pyongyang, o secretário de Estado norte-americano insistiu que o objectivo dos EUA continua a ser uma desnuclearização completa, verificável e irreversível da Coreia do Norte”.

“Vamos conseguir a desnuclearização completa e só depois levantaremos as sanções. Um dos erros do passado foi haver apoio económico antes da desnuclearização total”, acrescentou o chefe da diplomacia americana.

A grande questão continua, no entanto, a ser como vai ser verificada essa desnuclearização. E o tema parece irritar a administração dos EUA. Questionado sobre se Trump e Kim tinha discutido essa verificação, nomeadamente se serão enviados inspectores de armas à Coreia do Norte, Pompeo irritou-se: “Acho essa pergunta insultuosa, ridícula e, francamente, absurda”, respondeu. “Isso é um jogo e não devemos jogar jogos com assuntos sérios como estes.”

De regresso a Washington, Trump congratulou-se com a cimeira, assegurando que a “ameaça nuclear norte-coreana” desapareceu. Muitas vozes se ouviram entretanto, criticando a falta de pormenores do comunicado conjunto, para além das concessões a Kim: os EUA, prometeu o seu Presidente, vão pôr fim aos “jogos de guerra” com a Coreia do Sul. Em causa estão os exercícios militares regulares que os dois aliados realizam. Trump acrescentou que gostaria de “trazer para casa” os 32 mil militares americanos estacionados no país.

Kim também já voltou para casa e os media norte-coreanos, todos estatais e fortemente censurados, celebraram o seu desempenho na “reunião do século”. Na primeira notícia sobre a cimeira, a agência de notícias oficial KCNA descreveu o brilhantismo demonstrado pelo líder do país, referindo-o pelo nome 16 vezes.

Já a primeira página do jornal do partido único, o Rodong Sinmum, traz fotografias de apertos de mão sorridentes entre Kim e Trump e escreve que o encontro aconteceu para pôr fim às “relações extremas, hostis” entre os dois países”.

Trump, escreve a KCNA, “apreciou que tenha sido criada na península e na região uma atmosfera de paz e estabilidade, apesar do extremo perigo de confrontos armados de há poucos meses, graças às medidas proactivas em nome da paz desencadeadas pelo respeitado líder supremo desde o início do ano”.

Apesar do exagero – ninguém na Coreia do Sul ou no Japão acredita que a estabilidade seja já um bem adquirido –, a verdade é que, desde o discurso de Ano Novo, Kim fez uma histórica visita à Coreia do Sul, iniciando conversações para assinar, por fim, a paz, e reuniu-se com Trump, algo impensável o ano passado, quando Pyongyang se entretinha com ensaios nucleares e os dois dirigentes trocavam impropérios.

“A nossa reunião sem precedentes prova que a mudança real é possível”, festejou Trump num dos seus tweets desta quarta-feira. Questionado sobre se confia no ditador norte-coreano, o Presidente respondeu: “Sim”.

Menos confiantes estão os seus aliados asiáticos. O Japão já fez saber que continuará a realizar exercícios militares de defesa, enquanto nos jornais sul-coreanos se leu como “a cimeira ficou aquém das expectativas ao não incluir um guião para a desnuclearização”. Tóquio diz ainda que “os exercícios conjuntos [com soldados sul-coreanos e americanos] e a presença militar dos EUA na Coreia do Sul são vitais para a segurança da Ásia Oriental”. com Hugo Daniel Sousa