Editorial

Ai, Europa

Ontem, Espanha salvou 629 pessoas de um desastre. E salvou a Europa de uma catástrofe histórica. Mas não é possível aceitar que se trate de cada embarcação como se fosse a última – e mais nenhuma viesse.

O problema não é só a Itália, que agora é comandada por Salvini. São também outros governos que não se ouvem, quando há 629 imigrantes num barco à procura de um porto seguro e já sem comida a bordo. São também outros governos de outros países que bloquearam as entradas e fizeram de Itália um refúgio incerto para tantos, empurrando o país para um governo de extremos.

O problema chama-se Europa e somos nós todos, porque há muito vivemos juntos, mas ainda não aprendemos a conviver. Porque temos medos assimétricos e não assumimos um método comum para os combater. Se esta é a nossa Europa, há muito que não somos capazes de encontrar nela um máximo denominador comum. Sobrou um mínimo.

Ontem, Espanha tudo fez para salvar 629 pessoas de um desastre. E pode ter salvo a Europa de uma catástrofe histórica. Mas não é possível aceitar que se trate de cada embarcação como se fosse a última – e mais nenhuma viesse. Como não é possível resolver isto isolando a Itália ou responsabilizando-a sozinha.

No final deste mês a Europa terá mais uma oportunidade para sair deste beco. Angela Merkel e Emmanuel Macron, os líderes que restam na Europa, vão pôr na mesa do conselho uma proposta sobre a vigilância da nossa fronteira comum, mas também sobre as nossas leis do asilo. O objectivo da chanceler é desbloquear: que quem procure refúgio na Europa não escolha só os países onde a lei é mais favorável; que outros governos tenham mais abertura para receber o próximo barco perdido.

É só um ponto de partida para uma reunião difícil, porque lá também se vai discutir uma nova segurança comum; porque ali se lançará a muito adiada reforma da zona euro, na qual a Alemanha deu já um passo em frente: aceitou transformar o Mecanismo Europeu de Estabilização num FMI europeu, porque aceitou mais uma fatia da partilha de riscos, com o orçamento que Macron propôs para proteger economias face a choques assimétricos. 

Se lhe parece uma questão menos urgente, ontem, numa conferência do PÚBLICO, Klaus Regling e Mário Centeno explicaram por que não: a próxima crise não virá longe e os líderes não podem “dormir sobre os louros alcançados”. E se as soluções lhe parecem feitas a régua e esquadro para evitar um novo impasse e ultrapassar o que é permitido pelos tratados, lembre-se que até essas soluções permanecem ameaçadas pela primeira palavra do novo Governo de Itália. 

Esperança, mesmo assim: a cimeira virá já em pleno Mundial de Futebol. Que ele proteja os líderes europeus da pressão interna que terão em cima. Uma saída para esta Europa seria o melhor troféu para 28 nações.