Selecção divide o Brasil em duas equipas

O futebol costuma ser um factor de união no maior país da América do Sul, mas a política tem influenciado o fenómeno popular de apoio à "canarinha".

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Os brasileiros estão com dúvidas sobre se devem apoiar a selecção brasileira Bruno Kelly/Reuters

Apoiar ou não a selecção brasileira a poucos dias do Mundial da Rússia tornou-se um debate nacional no Brasil. Instaurou-se numa parte da população o medo de torcer publicamente pela equipa de Neymar para não ser acusada nas ruas e nas redes sociais de alienação política. É um sentimento semelhante ao vivido no período do Mundial 1970, quando, em plena ditadura, vestir a camisola amarela era quase um uniforme de adesão ao regime militar que governava o Brasil. Actualmente, o amarelo tornou-se símbolo do movimento que apoiou o impeachment da antiga presidente Dilma Rousseff.

Este receio de que a histeria do Mundial dilua a consciência política em ano de presidenciais e enfraqueça a luta contra a corrupção é confirmado pelos resultados de um estudo de opinião do Instituto Paraná Pesquisas, realizado em Maio. Das 2170 pessoas ouvidas em todo o país, 77,7% disseram que têm mais interesse na Operação Lava Jato do que no Mundial. Em Abril, 65,8% dos brasileiros estavam pouco ou nada interessados.

No jogo entre o Brasil e a Croácia, que a selecção “canarinha” venceu por dois golos a zero num particular disputado em Liverpool, Neymar e Roberto Firmino marcaram pela selecção. A cada golo, a actriz Isabel Guéron foi gritar na janela de seu apartamento em Laranjeiras, zona Sul do Rio de Janeiro. Não era apoio à selecção, mas um pedido de liberdade para o antigo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há dois meses em Curitiba para cumprir pena de 12 anos por corrupção e branqueamento de capitais após decisão do juiz Sergio Moro, da Operação Lava Jato. “Estou triste com a prisão do Lula. E vou gritar ‘Lula livre!’ em cada golo. Aliás, eu já grito diariamente da minha janela, eu e parte da vizinhança”, diz Isabel Guéron.

A actriz é mãe de duas crianças que gostam de futebol, mas nem por isso se rende ao Mundial. Talvez ela se entregue à paixão nacional quando a bola rolar no relvado, como fará a maioria da população. Por enquanto, ela diz sentir alívio por morar em Laranjeiras, um tradicional reduto da esquerda carioca. Num país cada vez mais dividido, as fronteiras da cidade determinam o perfil político de cada brasileiro. A Barra da Tijuca, na zona Oeste, ganhou fama de ser a freguesia dos “coxinhas”, como são conhecidos os simpatizantes dos partidos de direita, que apoiaram o impeachment. “Se eu ainda estivesse morando na Barra, acho que estaria louca. Laranjeiras dá um conforto...”, sublinha.

Ao caminhar pela vizinhança de Isabel Guéron, o jornalista Marco Antônio Rocha, que também vive em Laranjeiras, conta que só avistou uma rua enfeitada com as cores do Brasil e do Mundial. No país, é tradição decorar com antecedência as freguesias com as bandeiras dos países participantes, mascotes de Mundiais passados e feitos históricos da selecção. Actualmente, quem insiste na tradição, apesar da crise financeira e da violência, tem recorrido ao Facebook para escrever uma justificação prévia, um pedido de desculpas. “Você é visto quase como um desalmado pelo simples facto de ter dúvida se vai torcer ou não”, diz Marco Antônio Rocha.

O próprio Marco Antônio Rocha foi à rede social para expôr a sua dúvida. Pai de um garoto de oito anos, que terá a oportunidade de torcer pela selecção pela primeira vez de forma consciente, ele diz não compartilhar do mesmo entusiasmo do filho e pediu ajuda para saber o que fazer. “Você tem um filho absolutamente apaixonado por futebol, que conta os dias até o começo de seu ‘primeiro’ Mundial. Mas acha seu país uma bosta e o craquezinho desse time o retrato fiel dos nossos tempos”, refere Marco Antônio Rocha, referindo-se a Neymar.

Símbolo do movimento pelo impeachment, um pato insuflável gigante e amarelo reuniu milhares de pessoas em manifestações, sobretudo em São Paulo. Dessa forma, a camisola “canarinha” tornou-se o uniforme de quem apoiou a destituição da antiga presidente. Pelo que se vê nas ruas do Brasil, as vendas do novo modelo ainda não explodiram. E há quem opte pela camisola azul ou pela vermelha, cor do Partido dos Trabalhadores, um modelo alternativo que faz sucesso entre os adeptos do PT. “Vou comprar, apesar do preço absurdo (85 euros no site da Nike). Mas que bom que o meu filho quer a azul e não a do pato”, diz Marco Antônio Rocha.

O baterista da banda de rock IRA!, André Jung, comentou num post no Facebook o desaparecimento das ruas da camisola “canarinha” e das cores brasileiras em geral. “A um mês da Copa e nada de verde e amarelo. Sinto que o movimento paneleiro, hoje morto de vergonha, é o grande responsável pelo fracasso nas vendas de camisas, bandeiras, faixas e outros símbolos pátrios. A camisola da selecção virou uniforme de pato”, escreve André Jung.

O cenário pré-Mundial no Brasil contribui para o desalento com a selecção. Face à greve de camionistas, intervenção militar no Rio de Janeiro – que não deu fim à sensação de insegurança – desemprego em alta e economia estagnada, não há espaço, pelo menos por enquanto, para o futebol. O Mundial pode servir como válvula de escape e até mesmo ajudar na eleição dos políticos experientes, dificultando a mudança no cenário, como afirma Jackson Vasconcelos, antigo dirigente partidário e dono de uma empresa que elabora campanhas políticas. "O Mundial é confortável para os políticos com mais tradição, porque mobiliza e tem atrasado as campanhas eleitorais. E campanhas curtas são uma vantagem para os políticos profissionais".

Estrategista que já trabalhou no PFL, antigo partido de direita, Jackson Vasconcelos explica os motivos de o Mundial não empolgar como antes. "Perdeu importância devido ao humilhante 7-1, somado com a compreensão de que as Olimpíadas do Rio foram uma fraude que causou prejuízo directo. Há um novo sentimento no ar: sou roubado pelos políticos e isso dá-me prejuízo", diz Jackson Vasconcelos.