“Viajar é uma procura sem certeza do que encontrar”

Uma das revelações do ano passado vem a Portugal mostrar a sua folk sonhadora, inspirada em viagens pela América que, diz-nos, a transportaram para si própria.

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Há uma canção no último álbum da cantora-compositora americana Julie Byrne que se chama I live now as a singer e não é por acaso. É que até pouco tempo antes do lançamento do magnífico disco que é Not Even Happiness (2017), ela foi acumulando os mais diversos trabalhos, de babysitter a guarda-florestal no Central Park de Nova Iorque, forma de amealhar dinheiro enquanto ia estudando ciências do ambiente. A música só passou a ser a sua principal ocupação depois desse disco.

“Fui acumulando diversos trabalhos temporários, o que é normal quando ainda não se tem um percurso sedimentado, nem sequer a certeza se é a música que se deseja seguir, mas a partir de determinada altura percebi que era mesmo na música que conseguia ser eu própria e sentia algum conforto e isso tornou-se numa evidência”, diz-nos ela, 28 anos, dois álbuns no currículo – o primeiro, Rooms With Walls and Windows, foi lançado em 2014. Se antes havia dúvidas, agora é inequívoco que o seu futuro passará mesmo pela música, com o mundo a despertar para as suas canções e com ela a circular pelo globo, com concertos pelas Américas, Europa, Austrália ou pelo Brasil.

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O seu último álbum, Not Even Happiness (2017), é uma viagem. Mas mais do que as paisagens exteriores, as montanhas, as planícies ou o centro nervoso das urbes, são os recantos interiores que nos são devolvidos

Em Fevereiro do ano passado, quando o seu álbum foi editado, escrevíamos que era uma “folk sentimental, atmosférica e transparente” aquela que propunha, “marcada pela voz elegante, os ambientes quase sempre enevoados, o som ecoado da captação e a tonalidade subtil das orquestrações.” Quarta-feira, 13, às 21h30, quando estrear Not Even Happiness no Teatro das Figuras em Faro, e depois sexta-feira no Teatro da Trindade em Lisboa (noite da ZDB) e sábado no GNRation de Braga, não será de estranhar que essas propriedades venham ao de cima. “Sinto-me cada vez mais privilegiada por poder partilhar a minha música, que componho tantas vezes solitariamente no meu canto. É óptimo depois perceber que cada um acaba por lhe atribuir a sua própria interpretação. Orgulho-me disso.”

Ao seu lado em Portugal, como já acontecia nas gravações do disco, iremos encontrar Eric Littmann, o produtor que toca sintetizador, e Jake Falvy, no violino. Por vezes também se apresenta sozinha. Seja em que situação for, diz que gosta de criar algum tipo de intimidade com a assistência, o que nem sempre é fácil. “É diferente actuar num festival, por exemplo, onde existe sempre muita dispersão, do que numa sala, onde em princípio haverá mais disponibilidade para me ouvir. Mas ao mesmo tempo tudo depende de várias circunstâncias que nem sempre dominamos. É óptimo sentirmos que se gera um diálogo afectivo com quem nos ouve e isso acontece muitas vezes. Quando se comunica afecto – como tenho vindo a aprender a fazer – por norma recebe-se em troca. Podemos não atingir todas as pessoas da mesma forma, mas algumas acabarão por ser tocadas e isso é extremamente gratificante.”

O seu último álbum é uma viagem. É como se cada canção se reportasse a diversas paragens (Kansas, Arkansas, Montana, Wyoming, Chicago, Seattle, Nova Iorque) onde nos últimos anos foi aportando. No entanto, mais do que as paisagens exteriores, as montanhas, as planícies ou o centro nervoso das urbes, são os recantos interiores que nos são devolvidos. É de uma jornada pelos confins da alma que se trata. Em Sleepwalker, às tantas, canta: “I crossed the country and I carried no key / Couldn’t I look up at the stars from anywhere / And sometimes I did, I felt ancient / But still I sought peace and it never came to me.”

“O facto de nunca me ter fixado muito tempo num sítio permitiu-me entender que idealizamos muito essa ideia da viagem – na verdade transportamos sempre o que somos seja para que lugar formos e não existe forma de fugir disso – mas ao mesmo tempo existe algum romance nessa ideia de acordarmos todos os dias num sítio diferente. A viagem é uma procura constante mas não existe a certeza de encontrarmos o que queremos. Às vezes fantasiamos que iremos encontrar um lugar, ou uma pessoa, que nos aliviará das nossas dúvidas, mas essa procura temos de ser nós a fazê-la dentro de nós.”   

Viajar, no sentido enunciado por Julie Byrne, tem pouco a ver com andar em digressão e ela faz questão de separar as águas. “Os aeroportos, os hotéis, os ensaios de som, as noites mal dormidas, isso tudo, transformam a experiência de uma digressão numa coisa muito física. Acaba por ser um quotidiano muito alienante, onde não existe muito a noção de espaço e tempo, tudo se dilui. Mas, claro, existe o outro lado que é a possibilidade de conhecer pessoas que estão por dentro do nosso trabalho e isso corta os atalhos nas relações.” Como assim? “Há uma relação que foi estabelecida antes pela música. É como se nos conhecêssemos de alguma forma. Há uma estrutura de diálogo estabelecida. E depois é ir para além disso, se essa for a vontade.”

Na sua música pressentem-se os cenários naturais idílicos, mas povoados por recordações, amores e desilusões, com a voz, a guitarra acústica, o violino e algumas texturas ambientais a instituírem uma atmosfera sonhadora. “I traveled only in service of my dreams”, canta em Sleepkwalker, enquanto nesse momento inspirador que é a canção Sea as it glides, rumina que “Yet I carried my burden where I’d go / And if not I may have ran forever / Leaving fire in my wake”. E logo na entrada, em Follow my voice, avisa: “To me, this city’s hell / But I know you call it home / I was made for the green / Made to be alone.”  

O álbum foi gravado na cave da casa de família, em Buffalo, durante dois meses, em conjunto com os dois companheiros de estrada. “Sempre tive uma relação mais intensa com o campo do que com a cidade, acabou por ser natural gravarmos ali, com aquela vista sobre a terra em redor, o verde, o ar puro, mas não diria que o álbum acaba por respirar esse ambiente, como por vezes me confrontam. Não existe uma correlação directa com esse ambiente, parece-me. Quanto muito respira a minha relação com esses lugares tranquilos, a vontade de estar concentrada e o processo de autodescoberta que pode ser a música, mas isso é diferente.” Mas a verdade é que ela gosta de lugares onde ainda não tenha existido grande intervenção humana, “o que vai sendo cada vez mais difícil de encontrar, até mesmo no espaço rural”, afirma.

O facto de praticar uma folk com um travo de antigamente faz com que seja comparada a Joni Mitchell, Nick Drake, Vashti Bunyan ou Robbie Basho, mas como também não encaixa muito nesse modelo, é também enquadrada junto de cantoras-compositoras contemporâneas como Julien Baker, Weyes Blood e Julia Holter, ou de nomes como Mutual Benefit. Ri-se. “Para mim está tudo bem, são tudo pessoas com bom trabalho, umas mais do que outras, porque não as conheço a todas muito bem, mas é natural esse tipo de alusões. Na verdade oiço pouca música, e a maior parte pertence a alguns músicos amigos. Acabo por privilegiar muito o silêncio ou então a leitura.”

Faz sentido. Num mundo cada vez mais ruidoso, no sentido mais amplo da expressão, Julie Byrne parece procurar um pouco de conforto numa música que não tem receio de se aproximar da nudez. Há canções descarnadas, de grande minimalismo formal, e outras que transpiram elegância, transportando-nos para um espaço de isolamento, que até poderia ser uma igreja, provocamo-la. “Já toquei em igrejas e gostei da experiência pela acústica, mas ao mesmo tempo uma igreja tem qualquer coisa de grandioso e eu do que gosto mesmo é da simplicidade e intimidade”, afirma por entre risos, concluindo, “mas gosto dessa imagem de uma canção poder ser quase uma espécie de oração.”