Análise

Trump vai a Singapura

Ao contrário do que nos ensinam todos os livros de diplomacia, e a história, Trump aceitou em primeira instância encontrar-se com Kim Jung-un e só depois começou a negociar praticamente tudo o que importa para que o encontro seja um êxito.

Em 1972, o mundo acordou com uma notícia surpreendente. Ao fim de décadas de tensão, conflito e de inexistência de relações diplomáticas, foi anunciado que Richard Nixon ia à China (o célebre “Nixon goes to China”). O espanto na época foi geral, mas hoje sabe-se que essa visita estava a ser preparada em segrego e ao pormenor há cerca de dois anos pelo então conselheiro de segurança nacional (e mais tarde também secretário de Estado), Henry Kissinger. Este negociou todos os pontos importantes para ter a certeza de que, quando o Presidente norte-americano anunciasse a cimeira, ela era um sucesso garantido, indo-se ao ponto de aprovar previamente a declaração conjunta final — conhecida como o comunicado de Xangai. Kissinger falou com toda a gente que contava em Pequim e ficou mesmo famoso um episódio engraçado ocorrido durante as conversas dele com Mao Tsé-Tung. O primeiro sabia que o problema que podia minar a visita era Taiwan e por isso resolveu suscitar o assunto logo no primeiro encontro. Mao respondeu-lhe serenamente: não se preocupe. Temos tempo. Resolvemos isso daqui a 100 anos. No ano seguinte, Henry Kissinger voltou a Pequim, encontrou-se novamente com o líder chinês e fez uma das suas graças: então, em relação a Taiwan, falamos daqui a 100 anos. Mao Tsé-Tung retorquiu: não, não. Falamos daqui a 99 anos.

O encontro entre Donald Trump e Kim Jung-un em Singapura faz sentido. Como escrevi aqui faz já algum tempo, ao contrário do que muitos pensam e dizem, os líderes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte são dois actores racionais que, tal como a teoria das relações internacionais nos ensina, tomam decisões tendo por base um cálculo custo-benefício.

E qual é a racionalidade de cada um dos actores principais deste enredo? A Coreia do Norte pretende sobretudo três coisas: ser aceite na ordem internacional como uma potência normal, e já não como um “estado pária” ou “terrorista”; garantir a integridade total do seu território (isto é, não ser atacada pelos EUA), garantir a sobrevivência do seu regime. Os Estados Unidos têm dois grandes objectivos: impedir a proliferação nuclear ao nível internacional e na região; impedir a Coreia do Norte de ter poder nuclear, desde logo um que possa atingir território norte-americano ou colocar em causa a segurança dos seus aliados regionais (sobretudo Coreia do Sul e Japão). E falta ainda o outro protagonista-chave — a China — que também a última coisa que deseja é a proliferação nuclear na sua vizinhança, para já não falar do reforço das capacidades militares de Washington — e dos seus aliados — na Ásia.

Simplesmente, a opção diplomática foi sempre a mais racional para todos, desde logo muito mais do que as suas alternativas: permite pelo menos tentar uma solução para o problema nuclear norte-coreano sem os custos de todas as restantes acções: a construção de um escudo anti-míssil balístico, a nuclearização da península da Coreia, ou, num extremo, uma guerra com milhões de mortos.

Além disso, a cimeira Donald Trump — Kim Jong-un pode resultar pois ela acontece num novo contexto. Do lado dos EUA, o seu Presidente está disponível para legitimar o regime da Coreia do Norte ao aceitar sentar-se à mesa directamente com o seu líder e ainda para mais praticamente sem pré-condições. A China, mesmo que não o diga ainda oficialmente, assume-se como uma potência não só grande como também responsável. A Coreia do Sul tem um Presidente que fez da paz com o seu vizinho do Norte a sua grande causa. A Coreia do Norte revelou uma moderação sem precedentes e parece genuinamente disponível para chegar a um acordo.

Todavia, a cimeira não deixa de ser de alto risco e por dois motivos. Primeiro, devido a um grande dilema estratégico: Pyongyang não abdica facilmente da sua condição de potência nuclear, mas Washington não pode aceitar uma Coreia do Norte nuclear, mesmo que esta prometa não ter capacidade para atingir território norte-americano, pois isso colocaria os sul-coreanos e os japoneses numa posição intolerável e afastá-los-ia dos Estados Unidos. Segundo, por causa do modelo diplomático (ou ausência dele) adoptado. Ao contrário do que nos ensinam todos os livros de diplomacia, e a história, Trump aceitou em primeira instância encontrar-se com Kim Jung-un e só depois começou a negociar praticamente tudo o que importa para que o encontro seja um êxito.

O segundo motivo não deve ser de todo desvalorizado: pode mesmo ser o que deita tudo a perder. Richard Nixon foi à China encontrar-se com Mao Tsé-Tung, mas demorou quase dois anos a preparar a visita. Donald Trump vai a Singapura reunir-se com Kim Jung-un, mas demorou o tempo de um tweet a decidir a cimeira.

Professor na Nova FCSH e Investigador no IPRI

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