Um enólogo “tem que dar a cara”

O Vinhos de Portugal em São Paulo encerrou domingo a sua segunda edição com um “significativo aumento de público”, segundo a organização, e produtores satisfeitos com os resultados. O Brasil começa a abrir-se a vinhos de gamas mais altas e isso deve-se, essencialmente, ao trabalho junto dos consumidores finais que, reconhecem os que vieram pela primeira vez este ano, exige cada vez mais a presença do produtor.

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É o primeiro ano que o enólogo Domingos Soares Franco veio pessoalmente ao Vinhos de Portugal em São Paulo, embora a sua empresa, a José Maria da Fonseca, esteja habitualmente presente. “Tenho que dar a cara. Há muita gente que me quer ver”, justifica, no meio da sala do mercado de vinhos instalada no andar de topo de um dos mais luxuosos centros comerciais da cidade, o JK Iguatemi. O Vinhos de Portugal em São Paulo, cuja segunda edição se realizou entre 8 e 10 de Junho, um fim-de-semana depois do evento-irmão no Rio de Janeiro (que vai já na quinta edição), é organizado pelos jornais PÚBLICO, de Portugal, e, do lado brasileiro, O Globo, Valor Económico e Revista Época, numa parceria com a ViniPortugal.

São cada vez mais os produtores de vinho a perceber a importância de estarem pessoalmente presentes no evento. “Antigamente, era uma coisa que não se fazia”, continua Domingos Soares Franco. “Mas hoje, quando viajo pelo mundo, chego a alguns sítios onde até me perguntam se me podem tocar porque nunca viram um enólogo.” E no Brasil, que perguntas lhe fazem habitualmente? “Perguntam-me muitas vezes porque é que decidi ser enólogo. Eu respondo que ninguém me forçou, foi algo que nasceu dentro de mim.”

Nada de técnico, portanto. Já não são tanto os detalhes sobre o vinho, o tempo que passou em barrica ou o tipo de solo que mais interessam às pessoas. Para que, num espaço com muitas centenas de rótulos à prova e mais de 80 produtores diferentes (este ano, o evento atingiu um número recorde de participações), um vinho fique na memória de quem o provou, é preciso associar-lhe um rosto e uma história. E ninguém conta melhor as histórias do seu vinho do que quem o fez. É ainda Domingos Soares Franco quem diz: “Toda essa questão dos aromas é muito pessoal. Lembro-me de quando estive a estudar na América, um colega ter descrito um vinho dizendo que nasceu do solo, por trás de uma montanha, por cima de uma nuvem. Na altura toda a gente desatou à gargalhada. Hoje em dia já não me rio. Ele disse exactamente o que sentia.”

Para a José Maria da Fonseca, o Brasil “é um mercado muito importante, onde fomos grandes nos tempos do meu avô”. Depois, houve altos e baixos, mas Domingos Soares Franco garante que actualmente as coisas estão a correr muito bem, até porque tem dois importadores extremamente dedicados. Um deles, aliás, o mais focado em vinhos de gamas mais altas, está ao seu lado durante uma das sessões do mercado. Trata-se de Adolar Léo Hermann, da Decanter, que explica a sua forma de trabalhar: “Você tem que ter foco em algum mercado. Não consegue trabalhar quando atira em todas as direcções. O nosso foco está em restaurantes e lojas especializadas. Não trabalhamos com supermercados.”

O mais importante, segundo Adolar Hermann, é ter “uma estrutura de venda qualificada”, até porque, quando falamos de São Paulo estamos a falar do maior mercado do Brasil para o vinho (representa cerca de 40% do consumo nacional) e onde existe muita concorrência. “Todo o mundo se foca em São Paulo. Daí que o trabalho com os sommeliers seja muitíssimo importante. “Não adianta vender mais caro ou mais barato só para facilitar a venda.” Portugal enfrenta a concorrência de países como a Argentina que aqui “tem tradição e preço baixo” ou Itália, que beneficia do facto de 60% dos restaurantes da cidade serem italianos. “Por isso é que as coisas têm que ser bem trabalhadas. Porque é que um vinho português não há-de ficar bem com uma carne argentina?”.

Rita Tenreiro, produtora alentejana do vinho Argilla, veio pelo segundo ano (apenas a São Paulo) e mostra-se muito satisfeita com os resultados alcançados. “No ano passado viemos um pouco à descoberta, este era um mercado que queríamos trabalhar, sabíamos que havia um espaço na restauração média e alta, mas não tínhamos importador.” Nesse primeiro ano conseguiram um importador com o qual se identificam por fazer um trabalho com vinhos feitos “de forma mais natural, com menos intervenção” como são os de Rita. Este ano, já com o importador a trabalhar bem, a produtora acaba de receber uma óptima notícia: os seus vinhos vão passar a fazer parte da carta do restaurante DOM, de São Paulo, do chef Alex Atala, cuja sommelier, Gabriela Monteleone, os visitou numa das sessões deste ano do mercado.

Lígia Santos, da adega Caminhos Cruzados no Dão, é outra das produtoras que vem apenas a São Paulo, por ainda não ter um importador no Rio de Janeiro, e que afirma que nas cidades onde os seus vinhos estão presentes (São Paulo e Brasília), o mercado tem vindo a crescer. “Do ano passado para este, as coisas mudaram. O meu importador só comprava a gama de entrada e hoje estamos presentes já com a gama mais alta e com vinhos que podem ser mais complicados de explicar como os monovarietais de Encruzado ou Alforcheiro. Não é à toa que nos últimos anos a percepção da qualidade dos vinhos portugueses no Brasil tem mudado.” E o Vinhos de Portugal no Brasil tem tido um papel fundamental. “O Encruzado, por exemplo, teve muita publicidade em provas [com os críticos portugueses e brasileiros e ainda o Master of Wine brasileiro Dirceu Vianna Júnior] aqui no evento, e isso ajuda muito.”

O mesmo diz Alexandre Relvas, da herdade alentejana Casa Agrícola Alexandre Relvas, que também veio este ano pessoalmente pela primeira vez. “Apercebi-me da importância do evento e do trabalho que aqui está a ser feito e da relevância para o consumidor final de nós estarmos aqui. São consumidores interessados, que querem saber a história por detrás de um vinho.” As vendas da Casa Alexandre Relvas no Brasil têm estado com “um crescimento exponencial” e, sobretudo, diz o produtor, estão a abrir-se portas para os topos de gama. “O nosso importador começou a olhar para os vinhos premium. O mercado mudou muito nos últimos anos, com os pequenos supermercados a importar directamente, e as importadoras tiveram que profissionalizar o atendimento nos restaurantes e garrafeiras.”

João Soares, da Herdade da Malhadinha Nova, no Alentejo, e outro dos estreantes no evento, ficou impressionado, entre outras coisas, com a qualidade das pessoas que aparecem para as sessões profissionais, que acontecem sempre no primeiro dia do evento, quer no Rio quer em São Paulo. “São profissionais que claramente apostam no vinho português e que o têm como referência nos seus restaurantes.”

Alana do Nascimento, de Fortaleza, é um exemplo de uma brasileira que descobriu o vinho há poucos anos e que se encantou com este mundo, tendo terminado agora o curso de sommelier. Depois de ter estado no evento no ano passado, este ano voltou e não perde uma sessão no espaço Tomar um Copo. Até porque, explica-nos, faz parte de uma das muitas confrarias vínicas de mulheres, que se têm vindo a multiplicar pelo Brasil – e que são, aliás, o tema da tese em que Alana está a trabalhar para a sua investigação académica.

A sua confraria, em Fortaleza, reúne-se uma vez por mês para fazer provas de vinhos e analisar detalhadamente cada um. “São psicólogas, advogadas, professoras, todas já com um passo dado no mundo do vinho”, conta.  Lamenta apenas que de Portugal se continue a encontrar nas prateleiras das lojas na sua terra sobretudo vinhos do Alentejo e que as outras regiões ainda não estejam tão bem representadas, mas acredita que a mudança é apenas uma questão de tempo.

Simone Duarte, da empresa Out of Paper, que organiza o evento, tem a mesma convicção. “Este ano, o evento de São Paulo teve muito mais gente do que no ano passado, o que mostra o potencial que tem. E os produtores já começaram a identificar uma mudança no mercado brasileiro”, diz. “Se no Rio, essa mudança tem vindo a acontecer nos últimos cinco anos, em São Paulo, do ano passado para este, deu-se um salto gigantesco. Os consumidores estão cada vez mais abertos à experimentação e acredito que o Brasil está a transformar-se num mercado para vinhos mais caros.” Isso foi, conclui Simone Duarte, algo que desde o início o Vinhos de Portugal no Brasil ambicionou: “Desmistificar a impressão de que o vinho português é barato.”