Opinião

A cimeira Trump-Kim e o “método da loucura” na política internacional

A paz e desnuclearização da Península da Coreia pode ser conseguida por aquilo que alguns chamam o "método da loucura" de Donald Trump e que parece também ser praticado, à sua maneira, por Kim Jong-un nas suas ameaças militares e nucleares?

1. No Verão de 2017 sucessivos testes nucleares e de mísseis feitos pela Coreia do Norte levaram a uma escalada verbal e troca de ameaças com os EUA. O mundo ficou perplexo e alarmado com a possibilidade de um conflito militar nuclear. Donald Trump respondeu a Kim Jong-un fora das práticas convencionais da diplomacia ocidental com uma agressiva e nada usual linguagem. Ameaçou a Coreia do Norte com “fogo e fúria como o mundo nunca viu”. Kim Jong-un ripostou dizendo ter planos para atacar a ilha de Guam, situada no Pacífico, um território sob administração dos EUA. A escalada verbal agressiva prosseguiu com trocas de insultos pessoais. "Este tipo não tem nada melhor para fazer na vida?" (do que lançar mísseis), escreveu Donald Trump no Twitter. Mais tarde qualificou Kim Jong-un como um "rocket man numa missão suicida para ele e para o seu regime." A resposta de Kim Jong-un foi desqualificar Donald Trump como um velho caquéctico (dotard). Numa surpreendente reviravolta dos acontecimentos, ocorrida nos primeiros meses de 2018, a situação evoluiu para uma aproximação entre as duas Coreias e a concordância de Donald Trump em negociar directamente Kim Jong-un um acordo de desnucleariação. Mesmo aqui o processo teve uma trajectória ziguezagueante, sendo a cimeira marcada, desmarcada e voltada a marcar para 12 de Junho em Singapura. É reivindicada por Donald Trump com um resultado palpável da sua abordagem fora dos métodos convencionais da diplomacia.

2. A paz e desnuclearização da Península da Coreia pode ser conseguida por aquilo que alguns chamam o "método da loucura" de Donald Trump e que parece também ser praticado, à sua maneira, por Kim Jon-un nas suas ameaças militares e nucleares? Embora sob outras formas, a ideia não é totalmente estranha na política internacional. No passado da Guerra-Fria existia uma forma de assegurar a paz, ou de contenção do inimigo, que passava também por um "método da loucura". Era conhecida como mutual assured destruction (MAD na sigla em língua inglesa, que também significa louco/a), ou destruição mútua garantida. Tratava-se de uma doutrina estratégica militar que pretendia preservar a paz (ou, pelo menos, evitar uma guerra nuclear) pelo equilíbrio do terror. O seu pressuposto era o de que o desenvolvimento de armas nucleares cada vez mais poderosas se tornava essencial para impedir que o inimigo as usasse. Como qualquer conflito militar nuclear de grande dimensão iria resultar numa destruição mútua (ou seja, quer do atacante, quer do defensor), ambos ­seriam constrangidos a não usar armamento nuclear. O memorável filme de Stanley Kubrick, Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb / "Dr. Estranho Amor", feito nos anos 1960 e impregnado de humor negro, espelha os receios e a lógica da destruição mútua garantida entre os EUA e a União Soviética. Mas mostra também como essa convicção estratégica podia falhar por um erro de cálculo, ou um (genuíno) acto de loucura.

3. Recentemente Boris Johnson, o actual Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido e um dos principais defensores do Brexit, fez um “elogio da loucura” de Donald Trump na política internacional. O episódio ocorreu durante um jantar privado de um grupo conservador britânico onde se debatiam as negociações de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Discorrendo sobre as ameaças e oportunidades para a política externa britânica, Boris Johnson disse querer uma abordagem "muito mais enérgica" para a sua diplomacia. Apontou Donald Trump e o seu estilo negocial como possível exemplo a seguir nas negociações com a União Europeia. “Cada vez admiro mais Donald Trump”, terá este dito. “Cada vez me convenço mais de que há um método na sua loucura.” E continuou: “Imaginem Trump a tratar do Brexit. Actuaria de forma muito dura… Haveria muitos problemas, um caos enorme. Toda a gente ficaria a achar que tinha enlouquecido. Mas de facto poderia chegar-se a algo.” (Ver “Let Trump Handle Brexit: An Explosive Leaked Recording Reveals Boris Johnson’s Private Views About Britain’s Foreign Policy” in BuzzFeed News, 7/06/2018). Mas o entusiasmo pelo "método da loucura" de Donald Trump está longe de gerar admiração generalizada.

4. As actuações políticas não convencionais de Donald Trump levantam grande perplexidade não só nos inimigos como nos aliados dos EUA. A última cimeira do G7 no Canadá, com a proposta de reingresso da Rússia e com os EUA a não subscreverem o comunicado final conjunto, não deixa dúvidas quanto a isso. Entre os estudiosos e analistas da política internacional, ou simples observadores do mundo actual, está em expansão uma nova hermenêutica. Procura descortinar o sentido das muitas ­— e frequentemente contraditórias — declarações e atitudes políticas de Donald Trump.  A interrogação mais colocada é a de saber qual o método e/ou estratégia por detrás do seu comportamento desconcertante, admitindo que existe algum(a). As opiniões oscilam entre os que, como já vimos ser o caso de Boris Johnson, vislumbram aí um hábil método e/ou estratégia a replicar em negociações difíceis da política internacional. (Ver “Donald Trump: the method behind the madness. How the unorthodox US president may be one step ahead of his critics” in Telegraph, 10/02/2017); “Method in Trump’s madness on Iran”, 11/05/2018,  in Rear Clear Defense). E aqueles que nada descortinam de racional, nem de estratégico, apenas encontram sinais patológicos na sua personalidade. Alertam também para os potenciais perigos da maior potência mundial ser actualmente liderada por alguém com tais características. (Ver “Mental Health Professionals Warn About Trump” in NYT, 13/02/2017; “Donald Trump's malignant narcissism is toxic: Psychologist” in US Today, 4/05/2017). Claro que aqui é difícil traçar a fronteira entre o argumento científico neutral e o ataque político.

5. Paralelamente à cimeira Trump-Kim em Singapura, o “Elogio da Loucura” de Desidério Erasmo (em latim Desiderius Erasmus), conhecido como Erasmo de Roterdão, publicado em inícios do século XVI, pode ser um livro estimulante a (re)ler. É um dos textos clássicos da literatura ocidental contendo uma crítica mordaz aos hábitos das classes dirigentes da sociedade da sua época, especialmente do alto clero. No livro, a Loucura apresenta-se, a si própria, como a deusa a quem todos devem algo, desde os humanos até outros deuses. Era filha do deus Plutão (de “pluto”, rico) que na mitologia romana simbolizava as riquezas. Este trecho inicial mostra bem o tom satírico da obra: "Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais [...]  De facto, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores?” (Ver Erasmo de Roterdão, "Elogio da Loucura", Ebooks Brasil). Donald Trump está convencido de que é um negociador imbatível no mundo dos negócios (ver "Trump: The Art of the Deal", Ramdom House, 1987). Enquanto Presidente dos EUA tem também essa convicção. Pretende agora fazer história num dos assuntos mais críticos da política internacional. Veremos se a cimeira Trump-Kim em Singapura e as negociações sobre o programa nuclear da Coreia do Norte confirmam as virtudes da sua (auto)elogiada abordagem; ou se tudo isto vai acabar num episódio digno de ser incluído no Dr. Strangelove de Stanley Kubrick ou na sátira sobre a loucura de Erasmo de Roterdão.