Há sociais-democratas incomodados com colagem de Rio ao PS

O desafio de Rui Rio para um pacto na saúde e disponibilidade para viabilizar o pacote laboral estão a preocupar os sociais-democratas.

Parlamento, acessório para instrumentos musicais
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Pedro Elias

Nos últimos dias, Rui Rio desafiou os partidos, leia-se o PS, para um pacto sobre a saúde e deu já o seu aval ao acordo de concertação social, que não tem o apoio do PCP e BE. São sinais que estão a preocupar alguns sociais-democratas, por considerarem que está a ser construída uma imagem de um PSD colado ao Governo de António Costa.

Depois de dois acordos com o Governo, sobre fundos comunitários e descentralização, o líder do PSD mostrou-se disponível para um entendimento sobre uma reforma profunda da justiça. Esta semana reforçou a mesma ideia na área da saúde, o que está a suscitar inquietude entre sociais-democratas. “Mas qual é a posição do PSD sobre saúde? Antes de se fazer um acordo é preciso saber”, questiona um deputado que teme a percepção do eleitorado: “Qualquer dia não se consegue distinguir o PSD do PS.”

Essa imagem de colagem do líder do PSD ao Governo “é propositada”, avança outro social-democrata, tendo em conta que Rio entende que o desanunviamento do clima político lhe é favorável. A estratégia vai ao encontro da sua missão na liderança do partido, mas é "errada", segundo a mesma fonte, já que, “ao não fazer oposição ao Governo, perde o centro-direita e deixa espaço para Cristas”. Aliás, o líder social-democrata fez questão de, na última reunião do conselho nacional, sublinhar que o ambiente entre PSD e PS deixou de estar crispado, o que permitiu criar condições para outros entendimentos futuros. 

Na bancada parlamentar, há já quem lance um aviso público sobre a consequência desta estratégia. Sérgio Azevedo defendeu, num artigo publicado esta semana no jornal i, que “não basta” ao PSD “encontrar exclusivamente pontos de convergência” como os fundos comunitários ou a descentralização e que estes  “não chegam para se constituir em si mesmo como uma alternativa”.

Outro exemplo em que Rui Rio se prepara para estar ao lado do Governo é o do acordo de concertação social sobre alteração às leis laborais. Com PCP e BE a torcerem o nariz às propostas, o líder do PSD abriu a porta a viabilizar o pacote no na Assembleia da República. O ex-líder parlamentar, Luís Montenegro, não apontou uma farpa directa a esta opção, mas deixou uma pergunta no ar. “O Governo assinou um cheque sem cobertura, sem saber se viabiliza as propostas no Parlamento?”, questionou na TVI24, dirigindo-se à secretária-geral adjunta do PS Ana Catarina Mendes com quem partilha o programa Xeque-Mate.

A crítica de que o PSD se está a tornar numa “muleta” do PS já tinha sido lançada por Montenegro em Abril. No passado domingo foi a vez do ex-líder do PSD Luís Marques Mendes criticar o presidente do partido por aparecer como o “número dois” de António Costa. Na SIC, o comentador arrasou: “Rio não tem causas próprias, não tem uma agenda alternativa, não tem propostas diferentes das do Governo. Acaba agora de fazer, na prática, um terceiro acordo com o Governo, ao apoiar as mudanças nas leis laborais. E mesmo assim continua sem se diferenciar do Governo”.