Sanliurfa, a cidade dos profetas (e de um sudário)

Urfa, como também é conhecida, é uma Turquia diferente, mais árabe que otomana.

Halfeti
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Tinham-nos prevenido ainda em Istambul: Urfa (na verdade desde 1984 Sanliurfa,“Sanli” significando “grande, gloriosa”, mas que continua a ser conhecida pelo antigo nome) é uma Turquia diferente, mais árabe do que otomana. Ironicamente, é em Urfa que temos um jantar, um banquete, melhor dito, ao estilo otomano: os pratos não pararam de desfilar nas mesas baixas dispostas em U, a música tradicional (ao vivo) ouviu-se ininterruptamente e até bailarinos entraram em cena (e todos nós depois). Claramente, os turcos sabem apreciar a vida e a (boa) comida – “Em Urfa vais encontrar a melhor comida do país”, não pararam de dizer os colegas turcos. Confirma-se: boa, abundante e menos picante do que no resto do país (a especialidade são os kebabs: dizem que são os melhores da Turquia e o segredo está nos pimentos e no corte da carne).

Claro que não viemos a Urfa para comer. Urfa é a porta de entrada para Göbeklitepe (ver texto principal) e o (majestoso) hall é o Museu Arqueológico de Sanliurfa, o maior da Turquia. Com os seus milhares de artefactos que cobrem os períodos que vão desde o Paleolítico até ao islamismo, passando, claro, pelo Neolítico, aqui encontram-se todos os achados de Göbeklitepe. No vizinho Museu do Mosaico de Edessa (que com o de arqueologia e o “arqueoparque” constitui o genericamente conhecido Museu de Sanliurfa), um edifício que surge como um ovni pousado (é a maior estrutura na Turquia sem colunas), vemos mosaicos dos séculos IV a.C. e III a.C., considerados dos mais importantes exemplares do mundo pela técnica utilizada (há peças de apenas quatro milímetros).

E há toda uma Urfa de que só tivemos relances — a cidade mítica: aqui terão nascido Abraão e Jó, aqui era a bíblica Ur (também reivindicada no Iraque). A cidade dos profetas, chamam-lhe — do judaísmo, do cristianismo e do islamismo; a cidade por onde passaram sumérios, babilónicos, hurritas, hititas, seljúcidas, macedónios, romanos, bizantinos, árabes e otomanos. Urfa não é o umbigo do mundo, mas muito mundo por aqui passou.

Sem o saber, da janela do restaurante olhámos para as duas colunas coríntias, destacadas pela solidão nocturna no topo da colina do castelo, que a crença local diz terem sido parte da catapulta com que o rei Nimrod terá tentado matar Abraão, lançando-o para uma fogueira que logo se transformou num lago (e os troncos em peixes). E se não tivemos tempo para subir ao castelo, percorrer as ruas da antiga Urfa nem o seu bazar, conseguimos passear junto ao chamado lago de Abraão (Balikli Göl), local e peixes sagrados, que, dizem, trazem sorte a quem os alimentar. O espaço aos pés da colina da muralha está rodeado de jardins e de estruturas religiosas, a pedra mais dourada pelo amarelo da iluminação noctâmbula — a Gruta de Abraão, onde este terá nascido e a mesquita que leva o seu nome (que já foi igreja), a mesquita Rizvaniye, otomana e um convento dervixe onde já foi uma igreja ortodoxa arménia que albergou o chamado Mandílio (sudário) de Edessa (o nome clássico de Urfa), um pano onde Jesus terá limpado o rosto que aí ficou marcado (e está agora no Vaticano). Há mais Urfa para ver e toda uma região para escancarar: a planície de Harã aqui ao lado, com mais histórias bíblicas e imperiais — um dos berços da civilização.