Para lá do pôr do sol em Santorini

O leitor Miguel Meira e Cruz partilha a sua experiência na ilha grega.

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Reuters

Admitir que o pôr do sol é apenas um detalhe quando se planeia viajar para as ilhas mitológicas de Zeus, Poisedon ou Afrodite seria uma afronta ao mundo celeste, mas mais do que isso, um virar de costas à inequívoca singularidade da paisagem que Apolo escolheu para recolher ao Olimpo após cada rotação completa da Terra. Observar, em cada muralha, e no conjunto de todas, o efeito, óptico e poético, tão fulgurante quanto sereno, que assume a estrela central do sistema solar ao invadir a estância dos deuses gregos, é um privilégio a que poucos poderão aceder na íntegra.

Não sendo indiferente o local escolhido para assistir ao parágrafo entre o “hoje” e o “amanhã”, é Oia, em Santorini, que goza de maior vantagem. A geografia da vila e a arquitectura das moradias que, talhadas nos cumes acidentados dos penhascos, ligam o mar e o céu ao solo de onde emergem, cria um quadro impressionante onde o fantástico não é demasiado para expressar o deslumbre possível de existir. Mais do que a acuidade visual, é necessária alma, talento e sensibilidade para acolher tamanha presença no momento em que, nesta vila, se anuncia o fim da jornada diária. Mas seria errado assumir que a expressão deste fenómeno se esgota na extremidade noroeste da ilha. De facto, toda a costa debruçada sobre o mar Egeu goza de uma beleza que emudece quem vê e quem sente, na ilha, o fim de uma tarde de Verão.

E se, do lado oposto, as vinhas, desordenadas e queimadas pela braseira, jazem sem despertar o interesse de quem passa com ânsia de chegar ao mar, as cúpulas azuis dos templos e igrejas que cruzam as rotas turísticas da região prendem os olhares mais desfocados na mistura que fazem com o branco da cal que as paredes e muros da terra permitem que se esconda com a chegada da noite.

As ruas, que serpenteiam o trajecto entre o ponto mais alto de Fira e o porto antigo, e que tiram da vista o encanto original assinado pelo Mediterrâneo e pelos ilhéus vulcânicos que nele submergem, confundem as cores da vila, iluminada em horas nocturnas, com os coloridos trajes que vestem a multidão e que tornam real a perspectiva camaleónica da boémia.

Jóias, tecidos e arte aos pedaços, com o cheiro da cebola tostada e das favas secas, compõem a entidade gastronómica da região, ao que acresce o tomate cereja, peixe e legumes que se comem com a boca e com os olhos dispersos entre o prato e a vista. Da salada grega, que deixa descrente quem assim a designou noutro espaço da Europa, sobressai o queijo feta, que pede aos lábios o apoio de Baco na prova dos fabulosos vinhos que oferecem os terrenos férteis que na época mais quente se tornam agrestes pelo vazio da folha e de tudo o resto.

A visita às praias de Santorini, que desde a barrenta red beach ao solo negro de Kamari exigem um acesso cuidado pelas pedras e pedrinhas que se aconchegam entre si, avisando os turistas do cuidado a ter com tropeços e mergulhos artísticos, faz-se atravessando a ilha e percorrendo as costas que deixam saudade na visão.

Mas é quando de moto ou de carro se realcança o porto de Athinus para tomar o ferry boat de volta a Atenas que o coração parece não querer seguir viagem — e num ritmado galope lamenta o adeus à ilha dos apaixonados, desenha na alma do viajante a paisagem que perdurará para sempre na memória e assegura a eternidade inspiradora para quem, ao fim da tarde, nunca perdeu um dos pores do sol mais bonitos do planeta.

Miguel Meira e Cruz

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